Domingo de Ramos

Na procissão de hoje com os ramos bentos, o povo cristão, na plenitude da fé, faz seu o gesto dos judeus, aclamando a Cristo como triunfador: “Bendito o que vem em nome do Senhor”.

Na segunda feira entramos já na Semana Santa, na qual vivemos, com a Igreja, a dolorosa Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo para remir o gênero humano. A Santa Madre Igreja convida-nos a, nestes dias, reviver em espírito os últimos dias do Salvador, e os sentimentos que O animavam ao aproximar-se a Paixão.

São Vicente Ferrer, Confessor

Chamado Trombeta do Juízo Final ou Anjo do Apocalipse por seus contemporâneos, conselheiro de reis e príncipes, ratificava suas pregações com estupendos milagres.

São Vicente Ferrer nasceu na cidade de Valência, então capital do reino do mesmo nome, no dia 23 de janeiro de 1350. Era descendente do mais novo de dois irmãos que, por seu valor, foram armados cavaleiros na conquista daquela cidade em 1238. Seu pai, Guilherme Ferrer, casou-se com Constância Miguel, cuja família tinha também sido enobrecida durante a conquista de Valência. Portanto, São Vicente, pelos dois lados, era herdeiro de heróis. Além disso, à nobreza de sangue, seus pais aliavam a da piedade, inculcando nos filhos, desde o berço, fervorosa devoção a Cristo Jesus e a Maria Santíssima, e o amor aos pobres.

O pequeno Vicente ficou encarregado de repartir entre eles as muitas esmolas que os pais a eles destinavam. Ensinaram-no também a fazer, às sextas-feiras, alguma mortificação em lembrança da Paixão de Cristo, e uma em cada sábado em honra da Virgem.

Muito dotado, Vicente começou seu curso de filosofia aos 12 anos, e o de teologia aos 14. Aos 17 anos ingressou no convento dominicano de sua cidade, fazendo sua profissão solene em 1368. Dez anos depois, quando ainda não tinha se dedicado à vida pública, começou o chamado “Grande Cisma do Ocidente”, que tanto mal fez à Igreja no seu tempo.

Ocorreu então que Vicente, estando ainda no convento antes de começar sua vida pública, ficou tão angustiado com a situação da Igreja, que adoeceu gravemente, ficando em perigo de morte. Nosso Senhor apareceu-lhe então acompanhado de São Francisco e de São Domingos, e disse-lhe: “Levanta-te Vicente, e consola-te. O cisma irá logo acabar, e será quando os homens terão posto um fim às numerosas iniquidades com as quais se sujam. Levanta-te e vá pregar contra os vícios. É para isso que eu te escolhi especialmente. Adverte os pecadores a que se convertam, porque meu julgamento está próximo”.

Como terminou esse terrível cisma no qual havia três papas clamando sua legitimidade e que, para maior confusão, havia santos do lado de cada um? Para sermos breves, digamos que ele, que dividiu a Igreja por quase 40 anos, terminou com o Concílio de Constança (5 novembro 1414 a 22 de abril de 1418), quando foi aceita a abdicação do verdadeiro Papa, Gregório XII e do antipapa João XXIII. O terceiro, Pedro de Luna ou Bento XIII, foi deposto por não querer renunciar.

É preciso dizer que Gregório XII, como Papa legítimo, fez um decreto de convocação desse concílio, legitimando-o assim. Com a Sé então vacante, em novembro de 1417 foi eleito papa o cardeal Odo Colona, que tomou o nome de Martim V.

Este Papa fez sua residência no Vaticano, restaurando assim para a Sede de Pedro seus antigos direitos e prestigio na Cristandade. Resta dizer que o Papa abdicante, Gregório XII, morreu nesse mesmo ano de 1417, em odor de santidade.

Nessa confusão, para muitos teólogos, os particulares deveriam submeter-se ao Pontífice sob cuja obediência estavam. Assim, São Vicente seguiu o espanhol Bento XIII, seu benfeitor, que era reconhecido como papa verdadeiro pela Espanha e pelo Geral dos Dominicanos. Mas depois rompeu definitivamente com ele quando convenceu-se de que Bento XIII não estava disposto a abdicar para o bem da Igreja.

São Vicente, obediente às palavras de Nosso Senhor, dedicou-se então, como diz um hagiógrafo, sua odisseia prodigiosa de orador, do catequista, do viajante. Obra apostólica, com brio de lutador, diplomacia de estadista, portento humano em resistência física e no domínio dos homens, e testemunho flagrante do poder natural que reside sempre na Igreja”.

São Vicente Ferrer tornou-se então, durante mais de 30 anos, o maior missionário da Igreja Católica até então, pregando não só na Espanha, mas também na França, Holanda, Itália, Inglaterra, Escócia e Irlanda. Apesar de falar só sua língua materna e o latim, as diferentes multidões o entendiam perfeitamente, como se falasse sua própria língua.

Na Espanha o Santo converteu à fé de Cristo mais de vinte e cinco mil judeus, dentre eles quatorze rabinos. Um deles tornou-se depois o famoso teólogo católico Jerônimo de Santa Cruz. Por isso os judeus o chamavam “O Demolidor” pelo grande número de convertidos que fazia entre os dessa raça. Converteu também cerca de dezoito mil mouros.

Milagres assombrosos acompanhavam sua pregação. Mudos falavam, surdos ouviam, paralíticos andavam, e até mortos ressuscitavam à sua voz. Seu primeiro biógrafo afirma que foram mais de oitocentos e sessenta os milagres que operou em vida.

São Vicente Ferrer era um profeta. Muitas de suas profecias se realizaram ainda em seu tempo. Mas ele fez uma que se refere especialmente à nossa tão decadente época. No dia 13 de setembro de 1403, ele anunciou, como sinal que precederá um pouco os tempos do fim, a moda de as mulheres se vestirem como homens, e se portarem licenciosamente. E também os homens usarem roupas femininas. Não estamos vendo isso atualmente?

Muita outra coisa poder-se-ia dizer desse tão grande Santo que o espaço não permite. São Vicente Ferrer faleceu no dia 5 de abril do ano de 1419, sendo canonizado em 1458 pelo papa Pio II.

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