A história de Santa Maria Goretti nos mostra a seriedade com que as pessoas simples conservavam uma fé viva nos primórdios do século XX. Isso fica muito patente no exemplo de uma menina de apenas onze anos que prefere morrer a pecar, e que também converte seu assassino. Este torna-se religioso, é perdoado pela mãe da vítima, e recebe a Sagrada Comunhão ao seu lado. Tudo isto traduz uma coerência na fé e na piedade, muito raras em nossos dias.

Maria Goretti nasceu em 1890 em Corinaldo, na Itália, a terceira das seis filhas e filhos de uma família empobrecida de camponeses.

Em 1899 seu pai, Luís Goretti, mudou a família para Le Ferriere di Conca, a 40 milhas de Roma, para trabalhar como meeiro numa propriedade agrícola. Os Goretti passaram a viver num prédio abandonado da propriedade, que compartilhavam com os Serenelli – Giovanni, viúvo, e seu filho, Alessandro – que moravam no andar superior, enquanto os Goretti viviam no andar de baixo.

Tanto uns quanto outros tiravam seu sustento do árduo trabalho no campo, sobrevivendo do que conseguiam produzir acima da quota da safra, que iria para o proprietário.

Acontece que a terra era muito pobre, meio pantanosa, infectada de insetos, e muito dura para se trabalhar. Um dia, no ano de 1900, Luís Goretti estava nela trabalhando, quando foi picado por um inseto que portava o vírus da malária. Onze dias depois, ele faleceu tragicamente.

Maria tinha então 9 anos de idade. Foi preciso que Assunta, sua mãe, substituísse o falecido marido no campo. Isso fez com que a menina, sendo a mais velha das filhas, tomasse o lugar da mãe nos afazeres domésticos. Assim passou a cozinhar, fazer a limpeza, lavar roupa, e ainda por cima cuidar de seus irmãos menores, além de cozinhar e fazer a limpeza para os dois Serenelli.

Apesar de todos os trabalhos e cuidados Maria, que era uma criança piedosa, embora não soubesse ler nem escrever, aprendeu o catecismo e recebeu a Primeira Comunhão com grande reverência na festa de Corpus Christi em 1901. Sempre que podia, ela ia à Missa. Desse modo, a exemplo do Menino Jesus, ela crescia em graça e sabedoria diante de Deus e dos homens.

Seu assassino, Alessandro, uma vez convertido, dirá a seu respeito: “Seguindo as pisadas da mãe, era modesta, usava vestidos compridos, fugia de certas moças levianas, não se fixava em jornais ou revistas com gravuras indecentes. Era verdadeiramente um anjo, inocente como uma pomba, e tão piedosa, tão boa, tão serviçal em casa: era uma moça modelo”.

Pelo contrário, Alessandro era um rapaz rude, mal educado, sem nenhuma formação religiosa. Sua mãe tinha morrido num hospital psiquiátrico quando ele era ainda bebê, e seu pai era alcoólatra. Ele mesmo era dado à bebida.

Sendo muito impuro Alessandro, quando encontrava Maria sozinha, fazia-lhe propostas indecentes. A menina, em seu grande amor a Deus, detestava seu procedimento e sugestões, e dizia-lhe: “Não, nunca, isso é pecado! Deus o proíbe, e iríamos para o inferno”.

Finalmente, no dia 5 de julho de 1902, quando Maria estava costurando exatamente uma camisa de Alessandro e cuidando de uma irmã menor, ele apareceu com um pretexto qualquer. Entrou na cozinha, e fechou a porta. Aproximou-se então da jovem com uma peça de ferro pontiaguda, e ameaçou Maria dizendo que, se ela não cedesse aos seus desejos, ele a mataria.

Maria gritou: “Não! Isso é pecado! Deus não o quer!” Quando ele quis forçá-la, ela reagiu e lutou com ele, dizendo que preferia morrer a pecar. Furioso, Alessandro a apunhalou 9 vezes. No meio da aflição e das dores, a inocente mártir continuou a compor os vestidos, resguardando a pureza.

Julgando-a morta, o algoz retirou-se. Maria conseguiu entreabrir a porta, e gritar para o pai de Alessandro. Então o assassino voltou-se, e desferiu-lhe mais cinco punhaladas no peito. Fechando depois a porta, saiu deixando Maria gemendo: “Meu Deus! Meu Deus! Mãezinha, mãezinha” em uma poça de sangue. Alessandro tinha então 20 anos, e Maria 11.

A mártir da pureza foi levada às pressas para o hospital de Nettuno, e Alessandro para a cadeia, onde ficaria 28 anos.

Chegando ao hospital, a santa pedia insistentemente água por causa da sede ardente provocada pela perda de sangue, mas não podia ser atendida por causa das chagas em seu corpo. Um pároco foi chamado para ministrar-lhe a Extrema Unção antes que se iniciasse uma arriscada operação. O sacerdote mostrou então a Maria um crucifixo, e disse-lhe que Jesus também sofreu sede na cruz. Se ela queria oferecer a sede a Ele, pela salvação dos pecadores. A menina aceitou, e não mais pediu água.

Antes de receber o Sagrado Viático, o sacerdote perguntou: “Mariazinha, perdoas de todo coração ao teu assassino?”. Ela respondeu: “Sim, por amor de Jesus perdoo-lhe. E também quero que ele esteja no céu comigo”.

Às 4 horas da tarde do dia 6 de julho de 1902, com 12 anos incompletos, Maria Goretti entregou sua alma virginal ao seu Criador, por quem, para não O ofender, preferiu morrer.

A corajosa mãe da mártir, além da dilacerante dor de ver a filha morrer tão cruelmente, teve outra pungente dor adicional: após a morte de Maria, não tinha mais ninguém para cuidar dos filhos enquanto ela trabalhava no campo. E, sendo tão pobre, não teve outro remédio senão dá-los para adoção.

Na prisão, Alessandro mostrou-se tão agressivo e revoltado, que teve que ir para a solitária. Entretanto, seis anos depois, Maria Goretti apareceu-lhe em sonho, entregando-lhe 14 alvos lírios, símbolo da pureza, sem dizer-lhe nenhuma palavra. Cada lírio representava uma de suas punhaladas. O assassino compreendeu então que, por esse meio, Maria tinha perdoado seu crime, e que estava no céu. Comovido, sentiu um grande arrependimento, e teve uma milagrosa conversão. Pediu que chamassem o bispo encarregado da prisão, confessou seus crimes e seus pecados, e viveu o resto de sua sentença como prisioneiro modelo, pelo que foi liberto três anos antes do fim de sua pena, pelo seu bom comportamento.

Logo que foi liberto, Alessandro foi procurar Assunta, a mãe de sua vítima. Era véspera de Natal. Queria saber se ela ainda o reconhecia. Sim, ela o reconhecia como o homem que havia matado tão violentamente sua filha, e destruído sua família. Alessandro então pediu-lhe o perdão.

A resposta dessa mãe verdadeiramente católica foi: “Se Maria, minha filha, o perdoa, e Deus o perdoa, como posso também não perdoar-lhe?”. Os dois foram então à Missa de Meia-Noite e receberam a comunhão ajoelhados lado a lado. Alessandro fez mais: confessou então publicamente seu pecado na igreja, diante dos fiéis, e pediu-lhes também perdão. Assunta então o adotou como a seu próprio filho.

Por fim, no dia 24 de junho de 1950, o papa Pio XII enfrentou um problema singular: deveria dizer, na Basílica de São Pedro, a Missa durante a canonização de Maria Goretti. Entretanto, o número de presentes que afluíram para assistir à cerimônia ultrapassava a capacidade do templo: Nada menos que cerca de 500 mil pessoas – a maior então na história da Igreja. O resultado foi celebrar a Missa, pela primeira vez numa canonização, do lado de fora de São Pedro, pequena para tão grande multidão! Isso mostra como falou a todos o exemplo dessa virgem que preferiu a morte a pecar.

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