Este santo viveu em tempos muito conturbados da Igreja. Nasceu em Pisa e recebeu no batismo o nome de Pedro Bernardo. Ainda jovem, consagrou-se ao serviço da Igreja, sendo cônego na catedral de sua cidade natal.

São Bernardo, abade de Claraval, brilhava como luzeiro de ciência e santidade naquela época. Estando ele em Pisa, foi procurado por Pedro Bernardo, que depois o acompanhou à França na qualidade de noviço. Aos poucos o clarividente São Bernardo viu o grande valor de seu discípulo e começou a empregá-lo em negócios importantes para a Ordem. Assim, enviou-o com uma colônia de monges para repovoar a antiga abadia de Farfa. Mas o Papa Inocente II transferiu-o em seguida para a abadia romana dos Santos Vicente e Anastácio, em Tre Fontane.

Aos poucos, sua fama de sabedoria e santidade se difundiu por toda a Cidade Eterna.

Quando faleceu o Papa Lúcio II, o Sacro Colégio – prevendo que a ruidosa população romana se esforçaria para obrigar o novo Pontífice a abdicar de seu poder temporal e a jurar fidelidade ao Senatus Populusque Romanus – se retirou para o remoto claustro de São Cesário, na Via Ápia. E após procurar diligentemente um candidato fora de seu corpo para ocupar o sólio pontifício, escolheram por unanimidade o monge cisterciense e abade de Tre Fontane, que foi entronizado com o nome de Eugênio III.

Entretanto, como o novo Papa não podia receber sua sagração episcopal em Roma por receio de manifestações contrárias, ele a recebeu então no mosteiro de Farga. Em Viterbo – refúgio hospitaleiro de muitos Papas medievais –, embaixadas de todas as potências europeias lhe asseguraram que ele possuía a simpatia e a afetuosa homenagem de todo o mundo cristão.

Agindo com habilidade e paciência, o Papa Eugênio conseguiu contornar pacificamente a situação. Alguns meses depois ingressou na Cidade Eterna, onde foi acolhido triunfalmente pelo povo.

São Bernardo recebeu a notícia da elevação de seu discípulo com um misto de espanto e prazer, e deu expressão aos seus sentimentos em uma carta paternal dirigida ao novo Papa, na qual ocorre a famosa passagem tantas vezes citada pelos reformadores, verdadeira ou falsa: “Quem me concederá ver, antes de morrer, a Igreja de Deus como nos dias antigos, quando os Apóstolos entregaram suas redes por uma golfada, não de prata e ouro, mas de almas?” O santo, aliás, passou a compor para ele, em seus poucos momentos de lazer, aquele admirável manual para uso dos Papas, chamado “De Consideratione”.

Enquanto o Papa Eugênio estava em Viterbo, Arnaldo de Brescia – que fora condenado pelo Concílio de 1139 ao exílio da Itália – aventurou-se a voltar no início do novo pontificado e lançou-se à clemência do Papa. Acreditando na sinceridade de seu arrependimento, Eugênio absolveu-o e ordenou-lhe como penitência que fizesse em jejum uma visita aos túmulos dos Apóstolos. Mas o demagogo se colocou à frente do movimento revolucionário, inflamando o povo romano para a restauração em Roma de uma república, à semelhança das comunas na Itália no Norte. Seus incendiários discursos contra os bispos, cardeais e até mesmo o Pontífice ascético, que o tratara com extrema indulgência, trabalharam seus ouvintes com tanta fúria, que Roma se parecia com uma cidade capturada por bárbaros. Os palácios dos cardeais – tais como aqueles mantidos com o Papa – foram arrasados, igrejas e mosteiros saqueados, e a Basílica São Pedro transformada em arsenal; peregrinos piedosos foram saqueados e maltratados.

Nos oito anos de seu pontificado (1145-1153) o Papa Eugênio teve várias vezes que deixar sua sede por causa das turbulências e rebeliões entre o povo.

Eugênio aproveitou sua ausência de Roma para visitar pastoralmente igrejas da Itália e da França, bem como para reunir sínodos de bispos a fim de incentivar a reforma dos costumes e a evangelização do povo. Seu santo mestre Bernardo o animava nas múltiplas contrariedades e provações.

Eugênio foi inexorável em punir os indignos. Depôs os metropolitas de York e de Mainz, e por uma causa que São Bernardo não considerou suficientemente grave, retirou o pálio do arcebispo de Reims. Mas se por vezes o santo pontífice parecia severo, esta não era sua disposição natural.

Sobre ele escreveu o venerável Pedro de Cluny a São Bernardo: “Nunca encontrei um amigo mais verdadeiro, um irmão mais sincero, um pai mais puro. Seu ouvido está sempre pronto para ouvir, sua língua é ágil e poderosa para aconselhar. Nem se comporta como superior, mas sim como igual ou inferior […]. Eu nunca lhe fiz um pedido que não tenha concedido ou recusado, ou do qual eu pudesse razoavelmente reclamar”. Por ocasião de uma visita que o Papa Eugênio fez a Clairvaux, seus antigos companheiros descobriram com alegria que “aquele que brilhava externamente nas vestes pontifícias, permanecia em seu coração um monge observante”.

Do Papa Eugênio se diz que sua afabilidade e sua generosidade lhe granjearam o carinho do povo. Morreu em Tivoli, aonde se retirara para evitar o calor do verão. Foi enterrado em frente ao altar-mor da Basílica de São Pedro, em Roma. São Bernardo o seguiu no túmulo (20 de agosto). Diz Gregório: “O modesto, mas astuto discípulo de São Bernardo sempre continuou a usar o hábito grosseiro de Clairvaux sob a púrpura; as virtudes estoicas do monaquismo acompanharam-no em sua carreira tempestuosa, e investiram-no do poder daquela passiva resistência, que sempre permaneceu a arma mais eficaz dos papas”. Santo Antonino declarou que Eugênio III foi “um dos maiores e mais aflitos dos papas”. Pio IX, por decreto de 28 de dezembro de 1872, aprovou o culto que os pisanos rendem ao seu compatriota desde tempos imemoriais, e ordenou que no aniversário de sua morte ele fosse homenageado com a Missa e o Officium ritu duplici.

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