Quando se ouve falar no Líbano, a lembrança que vem à mente é a de um país legendário, bíblico. Realmente, o Líbano é citado mais de setenta vezes nas Sagradas Escrituras, e quase sempre de modo poético. O próprio Nosso Senhor, que restringira sua vida pública às terras da Palestina, abriu uma honrosa exceção ao Libano, indo até Tiro e Sidônia.

Seu povo, que já foi majoritariamente católico, é muito religioso. Seu território está salpicado de igrejas e santuários, predominando no país o rito católico oriental Maronita.

Esse rito tem a honra de ser o único das Igrejas Orientais que sempre ficou fiel à Igreja Católica Apostólica Romana, nunca tendo passado para o cisma.

A devoção à Mãe de Deus é, dizem, apanágio dos cristãos do Oriente; pode-se também afirmar que todo coração libanês, e em particular maronita, é um coração mariano. Todo ofício maronita deve conter hinos à Virgem Maria; e toda cerimônia religiosa deve incluir orações Àquela que foi a co-redentora da humanidade”, afirma um bispo da Ordem maronita contemporâneo.

Charbel Makhlouf nasceu no dia 8 de maio de 1828 na aldeia de Bigah-Kafra,  situada a 1600 metros de altitude, a mais alta do Líbano. Era o quinto filho do casal Antun Zarour Makhlouf e Brígida Al-Chidiac. Tinha dois irmãos e duas irmãs. No batismo recebeu o nome de Youssef (José).

Sua família era modesta, de fé sólida e piedade sincera, e vivia da agricultura.  No ambiente rural conscienciosamente religioso, cresceu Youssef. Aos três anos perdeu o pai e passou para a tutela do tio paterno, Tanios.

Youssef frequentou a escola paroquial da aldeia, e desde pequeno demonstrou profundo sentimento religioso e propensão para a contemplação. Assim, de vez em quando deixava os jogos e se isolava numa gruta para estar a sós com Deus. Os outros meninos passaram a chamá-la, por ironia, de “a gruta do santo”.

Como em todas as famílias maronitas daquele tempo, à noite Youssef e seus irmãos se ajoelhavam ao redor da mãe, e repetiam as preces que ela fazia, enquanto queimava incenso num prato junto ao altarzinho dedicado a Nossa Senhora suspenso à parede.

No inverno, com a neve cobrindo os campos e parte das casas – às vezes esta atingia até quatro metros – Youssef ajudava a mãe nos afazeres domésticos. Na primavera levava a vaca e os cordeiros da família para pastar, e ajudava o tio no cultivo do campo, sobretudo no de amoreiras para criar o bicho da seda, naquele tempo o principal meio de vida da montanha libanesa.

Aos 23 anos o santo decidiu, apesar do afeto materno e da oposição de seu tio – que necessitava braços para o campo –, fugir de casa e apresentar-se no mosteiro de Nossa Senhora de Mayfouq, da Ordem Maronita, na região de Byblos. Aí começou o noviciado, escolhendo o nome religioso de “Charbel”, em honra do Santo do mesmo nome martirizado em Edessa no ano 107 de nossa era.

Depois do primeiro ano de noviciado, o Irmão Charbel foi enviado ao mosteiro de São Maron, de Annaya, para fazer o segundo ano, de provação.

Os monges se dedicavam a cantar o Ofício Divino sete vezes por dia em aramaico, a língua falada por Nosso Senhor, estudar a liturgia e a vida monástica, e a aperfeiçoar-se no caminho da perfeição. Além disso, desempenhavam-se dos trabalhos domésticos do mosteiro, como fazer pão, cultivar a terra, ou mesmo ser sapateiro-remendão ou carpinteiro.

Em 1853, aos 25 anos, Charbel pronunciou seus votos solenes de obediência, castidade e pobreza. Foi então enviado para o mosteiro de São Cipriano, em Batroun, onde funcionava na época o Seminário Teológico da Ordem Libanesa Maronita. Sempre dos primeiros alunos, após seis anos de estudos teológicos, Frei Charbel foi ordenado sacerdote em 23 de julho de 1859 em Bekerké, sede patriarcal maronita.

O Pe. Charbel voltou então para o mosteiro de São Maron de Annaya, onde deveria permanecer até o fim de sua vida.

O novo sacerdote exercia com muita edificação o múnus sacerdotal, encarregando-se também, por humildade, dos trabalhos manuais da comunidade. Logo começaram rumores de milagres operados por ele.

Por ordem dos superiores, curou vários doentes desenganados pela medicina. Certa vez chegou ao convento um louco furioso, Jibrail Saba. Estava acorrentado, era agressivo e perigoso. O Pe. Charbel ordenou-lhe pôr-se de joelhos, e ele obedeceu. Colocou a mão na cabeça do infeliz e rezou. Depois disso entregou-o aos parentes, inteiramente curado.

Sentindo desde cedo o chamado para a solidão, o Pe. Charbel pediu várias vezes permissão para retirar-se para um eremitério. Mas era muito útil à comunidade, e a permissão foi sendo adiada.

Finalmente, em 1875, após 16 anos de vida em comum, um fato miraculoso iria obter-lhe a desejada permissão. O que ocorreu foi que um irmão da despensa, para se burlar do sisudo monge, pôs-lhe água em vez de azeite na lamparina que deveria levar para sua cela. Contrariamente a toda lógica, a lamparina permaneceu acesa com água em vez de azeite, o que foi constatado pelo Superior e outros monges.

São Charbel, que não era “politicamente correto”, desafiando à moderna Teologia da Libertação e a nova missiologia, dizia: “A pobreza favorece a salvação. A frugalidade fortalece a alma. Quero viver nas privações, ignorando os prazeres e as doçuras deste mundo. Quero ser o servidor de Cristo e de meus irmãos”.

Um de seus piores tormentos, na altitude em que vivia e com o rigoroso inverno libanês, era o frio. Apesar disso, o padre Charbel, mal vestido, mas com vestes limpas; mal alimentado, mas com boa saúde; exposto sem defesa ao frio e ao calor, privado de qualquer conforto e qualquer ternura humana era, entretanto, o homem mais feliz do mundo, pois o Senhor tornara-se sua verdade, sua força, sua riqueza, sua alegria e a razão de sua vida.

Depois de 23 anos de vida eremítica em que sua obediência foi quase legendária, sua castidade angélica transparecendo em todo seu ser, pobreza na qual imitou os maiores Santos da Igreja, e oração contínua, ele entregou sua puríssima alma a Deus no dia 24 de dezembro, vigília de Natal do ano 1898.

Ao dar início ao seu processo de beatificação, Pio XII disse que: “o Pe. Charbel já gozava, em vida, sem o querer, da honra de o chamarem santo, pois a sua existência era verdadeiramente santificada por sacrifícios, jejuns e abstinências. Foi vida digna de ser chamada cristã e, portanto, santa. Agora, após a sua morte, ocorre este extraordinário sinal deixado por Deus: seu corpo transpira sangue há já 79 anos, sempre que se lhe toca, e todos os que, doentes, tocam com um pedaço de pano suas vestes constantemente úmidas de sangue, alcançam alívio em suas doenças e não poucos até se veem curados ”.

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