Como haveria muito a dizer sobre cada um desses dois grandes Apóstolos, o espaço nos obriga a tratar somente de um deles. Escolhemos São Pedro, por ser o primeiro Papa, sobre quem repousa a Igreja Católica.

Para ressaltar a sua extraordinária vocação de chefe supremo da Igreja, fazemos nossas as palavras dos Pequenos Bolandistas: “Como poderíamos recusar um elogio àquele que o próprio Filho de Deus, que é a Verdade eterna, declarou bem-aventurado, e que deixou em seu lugar quando retornou a seu Pai, a fim de que ele fosse o sustentáculo e a pedra fundamental de sua Igreja?

“É dele que foi dito pelo profeta Isaías, segundo a explicação do sábio e piedoso cardeal São Roberto Belarmino, que para estabelecer mais solidamente o edifício de Sion, Nosso Senhor punha em seus fundamentos uma pedra experimentada, angular e preciosa, que seria ela mesma fundada sobre o primeiro e principal fundamento, quer dizer, sobre a sua adorável Pessoa.

“Foi a ele que Nosso Senhor mandou confirmar seus irmãos, e deu as chaves do reino dos céus com uma autoridade tão grande de ligar e desligar, que a sentença de Pedro deve preceder a sentença de Deus, e que tudo o que Pedro ligar ou desligar na Terra, é ao mesmo tempo ligado ou desligado nos Céus; a quem, enfim, Deus ordenou apascentar todas as suas ovelhas e todos os seus cordeiros, sem que houvesse um só que não estivesse sob a sua conduta”.

Simão — nome que recebeu na circuncisão — nasceu em Betsaida, nordeste do Mar da Galileia, à margem esquerda do Jordão, não distante de sua foz. Sabemos que seu pai era pescador, e que ele tinha pelo menos um irmão, André, que se tornará também um dos Doze Apóstolos.

Chegando à idade adulta Simão, como seu irmão, seguiu a profissão do pai, tornando-se pescador. Casou-se então, e mudou-se para Cafarnaum, na Galileia, onde aparece, no início da pregação de Jesus pelos anos 26 a 28, morando com a sogra e seu irmão André. Como não se fala então de sua esposa, é provável que ela tenha já falecido quando ele encontrou-se com o Salvador.

Quando André e João, irmão de Tiago, discípulos de João Batista, encontraram-se com Cristo Jesus, André, levou Simão para conhecer o Salvador. Este fixou o olhar sobre aquele humilde pescador, e disse: “Tu és Simão, filho de João, serás chamado Cefas”, que quer dizer pedra.

Foi quando Nosso Senhor julgou chegada a hora de associar colaboradores especiais à sua obra de evangelização, reunindo seus discípulos, dentre eles escolheu doze, a quem chamou “Apóstolos”. Simão é sempre mencionado em primeiro lugar: “Isso não é uma simples formalidade de protocolo, mas o indício da situação excepcional ou do lugar preponderante de Pedro no colégio apostólico”.

O Príncipe dos Apóstolos é sempre um dos três privilegiados escolhidos por Nosso Senhor em ocasiões especiais, como para assistir à ressurreição da filha de Jairo, à sua Transfiguração, e à sua agonia no Horto. Depois da primeira multiplicação dos pães, é ainda Simão que anda sobre as águas para ir ao encontro do divino Mestre.

Parece bem, aliás, que Jesus se empenhe de modo todo particular na formação de Pedro. Ele o instrui e repreende; mas também o favorece com prodígios. É sua rede que se enche nas duas pescas milagrosas. Ele o faz caminhar sobre as águas. É ainda Pedro que Jesus admoesta em Getsemani.  Depois da ressurreição, o anjo diz às santas mulheres: “Ide e dizei a seus discípulos e a Pedro…”.

É São Pedro que, a uma pergunta de Nosso Senhor, falando em nome dos Doze, faz esta profissão de fé: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”. Ao ouvir essas ardentes palavras, o divino Mestre fez então a Pedro a solene promessa: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus.

É a esse Apóstolo que diz o Salvador: Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. Assim, nesse momento solene da Última Ceia, o Redentor diz que rezou de modo especial por Pedro, e só por ele, para que sua fé não desfalecesse para que ele pudesse confirmar nela a seus irmãos.

Mas não foi somente a Pedro que o Redentor disse“confirma teus irmãos; apascenta minhas ovelhas”. Pois, como sua Igreja deveria subsistir até o fim dos séculos, era necessário dar-lhe uma sucessão de pastores, tão estável como ela mesma, que exercessem o mesmo poder, e que não terminasse senão com o mundo visível.

É verdade que o Príncipe dos Apóstolos, cedendo à humana fraqueza, negou por três vezes o Redentor. Mas não o fez de coração, só de boca. Por isso, quando Jesus, ao passar, o olhou com um olhar entristecido, São Pedro reconheceu sua falta e chorou amargamente. Pela penitência de Pedro e pelas lágrimas que verteu no resto de sua vida, somos obrigados a reconhecer que essas quedas lhe serviram para a santificação, para um bem maior segundo os desígnios divinos.

Mas depois de ressuscitado, o Salvador, mostrando que com seu pecado Pedro não tinha perdido a supremacia, disse-lhe por três vezes, como que para apagar cada uma de suas negações:“Simão, amas-me mais do que estes?”. E lhe incumbiu de apascentar suas ovelhas e cordeiros.

Depois da Ascensão de Nosso Senhor ao Céu, é Pedro quem continua a ter a principal função na Igreja nascente. Como já dissemos, é ele quem promove a eleição de Matias para o lugar de Judas. E no dia de Pentecostes recebe, junto com a Virgem Maria e os outros Apóstolos, o Divino Espírito Santo.

Para abreviar, a ida de São Pedro para Roma e seu martírio são fatos inquestionáveis na tradição, embora não haja dados concretos de sua atividade na capital do Império. Entretanto, o fato é atestado por uma série de testemunhos distintos, estendendo-se do fim do primeiro século ao fim do segundo, entre os quais o do Papa São Clemente de Roma em sua epístola aos coríntios, escrita entre os anos 95 e 97, cuja autenticidade não é posta em dúvida.

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