Evitar o divórcio entre o País legal e o País real

Plinio Corrêa de Oliveira

Previsão de um inevitável embate entre o país real e o país legal, caso os políticos de Brasília não atendam aos anseios do Brasil profundo

A população do Brasil se divide em duas camadas. Uma, que reluz na publicidade. Mas, abaixo dessa superfície reluzente, há um Brasil que é e quer continuar a ser autenticamente brasileiro, em legítima continuidade com seu passado, e cujos passos se orientam na linha dessa continuidade, para constituir um Brasil em ascensão, fiel a si próprio, e não o contrário daquele que ele foi e é.

Em Brasília e nas grandes capitais de Estado, ele é sempre mais ignorado. Mas é ele o Brasil real.

À medida, porém, que o Brasil de superfície caminhe para a extrema-esquerda, irá se distanciando mais e mais do Brasil de profundidade. E este último irá despertando, em cada região, do velho letargo. E de futuro os que atuarem na vida pública de nosso País terão de tomar isto em consideração.

Se tal não ocorrer, convém insistir em que o divórcio entre o País legal e o País real será inevitável. Criar-se-á então uma daquelas situações históricas dramáticas, nas quais a massa da Nação sai de dentro do Estado, e o Estado vive (se é que para ele isto é viver) vazio de conteúdo autenticamente nacional.

Em outros termos, quando as leis fundamentais que modelam as estruturas e regem a vida de um Estado e de uma sociedade deixam de ter uma sincronia profunda e vital com os ideais, os anelos e os modos de ser da nação, tudo caminha nesta para o imprevisto.

É de encontro a todas essas incertezas e riscos que estará exposto a naufragar o Estado brasileiro, desde que a Nação se constitua mansamente, jeitosamente, irremediavelmente à margem de um edifício legal no qual o povo não reconheça qualquer identidade consigo mesmo.

Que será então do Estado? Como um barco fendido, ele se deixará penetrar pelas águas e se fragmentará em destroços. O que possa acontecer com estes é imprevisível.
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(Trecho condensado do livro Projeto de Constituição Angustia o País. Editora Vera Cruz Ltda. S. Paulo, 1987, p. 201)

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Que essa análise lúcida e cristalina do Dr. Plinio, verdadeira radiografia da realidade brasileira, sirva de alento a todos aqueles que compõem o “Brasil profundo”. Para que se conscientizem da prodigiosa força que têm, e não se deixem impressionar nem intimidar pelos avanços dos componentes do “Brasil de superfície”, compreendendo que eles estão se precipitando no vácuo.

     
  2. É, o que disse Plinio naquela época (1987) está acontecendo hoje. Será que tinha uma bola de cristal ou é a capacidade de análise tão profunda que é, vamos dizer, profética.

     

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