Na noite do Santo Natal a alma cristã fica como que envolta numa luz especial, pálido reflexo da Luz incriada que Se tornou homem e passou a habitar entre nós. Aquele que é Todo-Poderoso se faz pequenino, frágil, débil, uma criança que cativa os corações por sua inocência, doçura e afabilidade.

Na sua infinita sabedoria, nosso Redentor quis proceder assim para ter “certa” proporção conosco. Daí a natureza encantadora das noites em que celebramos o seu nascimento. A representação singela da gruta armada dentro de uma igreja ou de um lar atrai a atenção de todos pelo seu ambiente acolhedor, por sua atmosfera deliciosa de ser sentida, própria a um Deus que se fez criança para nos elevar à dignidade de filhos d’Ele.

As melodias natalinas se assemelham a reverberações celestes que pervadem nossas almas com doçura e amenidade angélicas. É o Céu que habita a Terra e nos nobilita, na medida em que nos deixamos enlevar pelos seus encantos. De onde o Natal ser a verdadeira festa do Menino Jesus. Quem, por exemplo, não se encanta ao ouvir a canção Noite Feliz? Quem não se extasia ao ouvir as notas harmoniosas do Gloria in Excelsis Deo, entoada pelos anjos nos campos de Belém, aos pastores ignotos naqueles campos, pastoreando as suas ovelhas?

Nesses momentos, quem não sente saudades de sua infância inocente? Daquela infância evocada por Cassimiro de Abreu em seus versos, com cuja lembrança nós retroagimos no tempo e nos sentimos crianças; que nos faz deixar por alguns momentos de ser nocentes, isto é, nocivos, prejudiciais, daninhos, para tornarmo-nos inocentes.

O Natal de Jesus Cristo veio trazer o fogo à Terra para incendiar os nossos corações. Assim exclama Santo Afonso de Ligório: “Vim trazer o fogo à Terra, disse Jesus Cristo, e o trouxe de fato. Antes da vinda do Messias, quem amava Deus sobre a Terra? Ele era apenas conhecido em uma pequena região do mundo, isto é, na Judeia; e mesmo lá, quão poucos eram os que O amavam no tempo de Sua vinda!

Segundo o mesmo bispo e doutor da Igreja, “no resto da Terra, uns adoravam o sol, outros, os animais, outros ainda as pedras ou criaturas ainda mais vis. Mas, depois da vinda de Jesus Cristo o nome de Deus se difundiu por toda parte e foi amado por muitos. Desde então os corações se abrasaram nas chamas do divino amor, o Deus foi mais amado em poucos anos do que nos quatro mil anos que decorreram depois da criação”.

Muitos cristãos costumam preparar em suas casas um presépio para representar o Natal de Jesus Cristo. Mas hoje são poucos os que pensam em preparar seus corações, a fim de que o Menino Jesus possa nascer neles e ali repousar. Sejamos nós desse pequeno número e procuremos nos dispor dignamente para arder nesse fogo divino que torna as almas contentes neste mundo e felizes no Céu.

Com a queda do homem depois do pecado, trincou-se o relacionamento habitual entre Adão e Deus. No imponderável das tardes, Deus caminhava no Paraíso com os nossos primeiros pais, num convívio de pai com filhos. Aquele que era as suas delícias, que os visitava com todo desvelo paterno, deixou de fazê-lo. Com efeito, não foi Deus quem rompeu com Adão, mas foi este que, ao comer o fruto proibido, rompeu com Deus, afastando os seus descendentes do Criador.

Deus puniu os homens impondo-lhes a pena de trabalhar a terra para comer mediante o suor de seu rosto. As intempéries, a morte, as doenças, a natureza agreste investiam contra ele, mas uma esperança pairava de que um dia Deus voltaria para resgatar as primícias de sua criação. E de fato aconteceu, quatro mil anos depois.

Na noite do Natal a Misericórdia divina vence a justiça punitiva e resgata o homem contaminado pelo pecado. Volta a conviver com ele e fazer as suas delícias estar com os filhos dos homens. Deus se faz homem, e passa a pertencer à raça humana, nascendo na noite de Natal: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a Sua glória, glória própria do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.

Na Terra todos eram nocentes e nessa condição não havia quem pudesse reabilitar a amizade entre Deus e os homens. O Filho de Deus se serviu da Imaculada Virgem Maria para nos trazer o Inocente por excelência. Ele veio pagar pelos pecadores.

Daí a importância do Natal, que é a festa de Luz, porque Jesus Cristo é a Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo. São João Evangelista diz “que estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não O receberam”.

Esse ensinamento não nos faz pensar em Deus em nossos dias tão tenebrosos para a fé e para as almas? Não nos faz lembrar as promessas de Nossa Senhora de Fátima e o triunfo do seu Imaculado Coração?

Que esses pensamentos ocupem nossas cogitações e nossas vias ao longo de 2017. São os meus votos neste Santo Natal a todos os leitores.

 

 

 

1 COMENTÁRIO

  1. Tenho muita saudade do tempo que o conhecimento dos velhos eram respeitados, a inteligencia admirada e a analise arguta da realidade se sobrepunha a poesia. Tenho saudade do tempo que a razão era o motivo da fé, e não motivo de chacota. Tenho saudade do tempo onde se confessava com um padre que tinha conduta e conselho claro e simples, preto no branco. Tenho saudade do tempo que 90% dos brasileiros eram católicos. Tenho saudades dos meninos cruzados vestidos de branco, adentrando a igreja para assistir a missa. Tenho saudade dos padres que eram a figura visível de Jesus e que nos davam a mão ungidas para beija-la e nos abençoar. Tenho saudade do presépio do natal em paz, sem violência sem islamismo. tenho saudade da semana santa, do fogo santo da missa em latim. Tenho saudade disso e de muito mais, que só reencontrarei no céu.

     

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