O Espírito Santo e o próximo conclave

Em 5 de março de 2013
(Tradução Helio Viana)

Os olhos do mundo, não só dos católicos, estão voltados neste momento para São Pedro, a fim de saber quem será o novo Vigário de Cristo. A espera que se manifesta antes de cada Conclave é desta vez mais acurada e intensa, pela sucessão de acontecimentos que nos deixam chocados e confusos.

Massimo Franco escreve no “Corriere della Sera” de 27 de fevereiro de 2013 que “dentro da Cidade do Vaticano está se consumando o fim de um modelo de governo e de uma concepção do papado”, e compara a dificuldade que a Igreja atravessa hoje com a fase final da crise do Kremlin soviético. “O declínio do Império vaticano – escreve – acompanha aquele dos EUA e da União Europeia em crise econômica e demográfica. Mostra um modelo de papado e de governo eclesiástico centralizado, desafiado por uma realidade fragmentada e descentralizada”. A crise do império vaticano vem apresentada como uma crise de modelo de papado e de governo eclesiástico inadequado para o mundo do século XXI. A única saída seria a de um processo de “auto-reforma” que salvasse a instituição desnaturando-lhe a essência.

Na realidade, o que está em crise não é o governo “monocrático” conforme com a Tradição da Igreja, mas o sistema de governo nascido das reformas pós-conciliares, que nos últimos 50 anos vêm expropriando o Papado de sua autoridade soberana para redistribuir o poder entre as conferências episcopais e uma onipotente Secretaria de Estado. Mas, sobretudo Bento XVI e seus predecessores, por razões diversas de temperamento, se tornaram vítimas do mito da colegialidade de governo na qual sinceramente acreditaram, renunciando a assumir muitas responsabilidades que teriam podido resolver o problema da aparente ingovernabilidade da Igreja. A atualidade perene do Papado está no carisma que lhe é próprio: o primado de governo sobre a Igreja universal, da qual o magistério infalível é a decisiva expressão.

Bento XVI, dizem alguns, não exerceu com autoridade seu poder de governo, por ser um homem suave e manso, que não tem nem o caráter nem a força física para fazer frente a essa situação de grave ingovernabilidade. O Espírito Santo o iluminou infalivelmente, sugerindo-lhe o supremo sacrifício da renúncia ao pontificado para salvar a Igreja. Porém, não se dá conta de quanto este discurso seculariza e humaniza a figura do Sumo Pontífice. O governo da Igreja não se rege com base no caráter de um homem, mas em sua correspondência à assistência divina do Espírito Santo.

O Papado tem sido ocupado por homens de caráter imperioso e guerreiro como Júlio II, e por temperamento suave e amável como Pio IX. Mas foi o beato Pio IX, e não Júlio II, que correspondeu mais perfeitamente à graça, ascendendo ao cume da santidade própria ao exercício heroico do governo papal. A concepção segundo a qual um Papa fraco e cansado deve renunciar não é sobrenatural, mas naturalista, porque nega a ajuda decisiva ao Pontífice daquele Espírito Santo que impropriamente vem invocado. O naturalismo se transforma neste ponto no seu oposto: em um fidelismo de impronta pietista, pelo qual a penetração do Espírito Santo absorve a natureza humana e torna-se o fator regenerador da vida da Igreja. Trata-se de heresias antigas que hoje afloram até nos ambientes mais conservadores.

O erro, sempre mais difuso, é aquele de tentar justificar qualquer decisão que seja tomada por um Papa, por um Concílio, por uma Conferência Episcopal, em nome do princípio pelo qual “o Espírito Santo assiste sempre a Igreja”. A Igreja é por certo indefectível porque, graças à assistência do Espírito Santo, o “Espírito da Verdade” (Jo 14, 17), tem a garantia de seu Fundador de perseverar até o fim dos tempos na profissão dessa mesma fé, desses mesmos sacramentos, da mesma sucessão apostólica de governo. Indefectibilidade, todavia, não significa infalibilidade estendida a todos os atos de Magistério e de governo, nem tampouco impecabilidade da suprema hierarquia eclesiástica.

Na história da Igreja, explica Pio XII, “alternam-se vitórias e derrotas, subidas e descidas, heroicas confissões com o sacrifício de bens e da vida, mas também, em alguns de seus membros, queda, traição e divisão. Um testemunho da história é inequivocamente claro: o portae infero non praevalebunt (Mt 16, 18); mas também não falta a outra testemunha, até as portas do inferno tiveram o seu sucesso parcial” (Discurso De todo coração, de 14 de setembro 1956). Malgrado os sucessos parciais e aparentes do inferno, a Igreja não fica abalada nem pelas perseguições, nem pelas heresias ou pelos pecados de seus membros; pelo contrário, obtém nova força e nova vitalidade diante das graves crises que a golpeiam.

Mas se os erros, as quedas, as deserções não devem nos desencorajar, quando ocorrem não podem ser negados. Foi, por exemplo, o Espírito Santo que inspirou a escolha de Clemente V e de seus sucessores de transferir a sede do Papado de Roma para Avignon? Hoje os historiadores católicos concordam em defini-la como uma decisão gravemente errada, que enfraqueceu o Papado no século XIV, abrindo o caminho para o Grande Cisma do Ocidente.

Foi o Espírito Santo que sugeriu a eleição de Alexandre VI, um Papa que teve uma conduta profundamente imoral antes e depois de sua eleição? Nenhum teólogo, mas também nenhum católico, poderia sustentar que os 23 cardeais que elegeram o Papa Borgia foram iluminados pelo Espírito Santo. E se isso não aconteceu naquela eleição, pode-se imaginar que não aconteça em outras eleições e conclaves, que viram a escolha de Papas fracos, indignos, inadequados para a sua alta missão, sem que de algum modo isso prejudicasse a grandeza do Papado.

A Igreja é grande também porque sobrevive à pequenez dos homens. Pode, portanto, ser eleito um Papa imoral ou inapropriado. Pode acontecer que os cardeais do conclave rejeitem o influxo do Espírito Santo, e que o Espírito Santo, que assiste o Papa no cumprimento de toda a sua missão, seja recusado. Isso não significa que o Espírito Santo é derrotado pelos homens ou pelo demônio. Deus, e só Ele, é capaz de tirar o bem do mal e, portanto, a Providência guia todos os acontecimentos da História. No caso do conclave, explica em seu tratado sobre a Igreja o cardeal Journet, assistência do Espírito Santo significa que ainda que a eleição fosse o resultado de uma má escolha, tem-se a certeza de que o Espírito Santo, que assiste a Igreja transformando em bem até o mal, permite que isso aconteça por fins superiores e misteriosos. Mas o fato de que Deus tire o bem do mal praticado pelos homens, como aconteceu com o primeiro pecado de Adão, que foi a causa da Encarnação do Verbo, não significa que os homens possam fazer o mal sem culpa. E todo pecado deve ser pago, no tempo ou na eternidade.

Cada homem, cada nação, cada assembleia eclesiástica deve corresponder à graça, que para ser eficaz necessita da cooperação humana. Em face do processo de demolição da Igreja, do qual já falava Paulo VI, não se pode, portanto, permanecer com os braços cruzados, em um estado de otimismo pseudo-místico. Devemos rezar e agir, cada um de acordo com a sua própria possibilidade, para que esta crise tenha fim e a Igreja possa mostrar visivelmente aquela santidade e aquela beleza que jamais perdeu, e que nunca perderá até o fim dos tempos.

 
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Roberto De Mattei
Escritor italiano, autor de numerosos livros, traduzidos em diversas línguas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja. Professor de História Moderna e História do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, conferencista, escritor e jornalista, Roberto de Mattei é presidente da Fondazione Lepanto. Entre 2004-2011 foi vice-presidente do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália. Autor da primeira biografia de Plinio Corrêa de Oliveira, intitulada “O Cruzado do Século XX”. É também autor do best-seller “Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita”.

11 COMENTÁRIOS

  1. Que erro tem em apoiar os homossexuais? Nós não podemos é conviver com o homosexualismo. A Pratica do homosexualismo é que devemos condenar. O homosexual é um pecador igual a nós e, como tal, precisa de ajuda.

     
  2. Este artigo representa a opinião do Sr. Roberto de Mattei ou a opinião do IPCO? Que o Sr. Roberto de Mattei não tenha concordado com a renúncia do Papa Bento XVI, não é novidade para mim. Que o coloque em termos tão duros, embora não seja conhecedor de toda a verdade a respeito dos acontecimentos que levaram Bento XVI a decidir-se pela renúncia, também não é surpreendente. No entanto, quase afirmar que o Espírito Santo não foi o inspirador da decisão do Papa Bento XVI, apesar do que ele mesmo disse quando renunciou, é uma temeridade quase cismática. Espero que não represente a opinião do IPCO.

     
  3. O fato não é discutirmos sobre qual é a verdadeira religião ou igreja, pois por ela/s já se fizeram guerras e derramaram sangue, mas quem são os verdadeiros cristãos…

     
  4. Ouvi dizer que don Odilo Scherer, cujas opiniões até hoje tenho admirado, teria afirmado que considera a posição conservadora da Igreja Católica excessivamente dura e que ela deveria moderar-se. Se é verdadeira esta afirmação, então tenho motivos para lamentar. A Igreja Católica não poder se curvar à política do momento, ao politicamente correto, ao relativismo cultural. Não pode ficar de joelhos diante das pressões e das agendas dos poderosos do mundo! Ela tem o dever de anunciar os valores que CRISTO estabeleceu! O próximo papa será o líder espiritual de 1,5 bilhão de pessoas. Que DEUS tenha misericórdia e intervenha nesse processo. Minha oração é por outro Joseph Ratzinger!

     
  5. O QUE NOS CONVÉM A FAZER-MOS NESTE MOMENTO, É ORAR COMOS OS APÓSTOLOS REUNIDOS NO CENÁCULO COM MARIA , PARA QUE O ESPÍRITO SANTO FAÇA ACONTECER O QUE O PAI CRIADOR DE TODAS AS COISAS, EM NOME DE JESUS CRISTO E COM A FORÇA DO ESPÍRITO SANTO FAÇA ACONTECER A REAL IGREJA DE JESUS.
    PAZ E BEM !

     
  6. @Sergio Peffi
    Sr. Sérgio!

    Lamentável e triste, que um agnóstico, ou, talvez até o senhor seja um confuso ‘cristão batista-neo-pentecostal’ (pequenas igrejas, grandes negócios) invada um fórum de católicos, prá ofender à Única e Verdadeira Igreja de Cristo. Lembre-se “Tu és Pedro, e, sobre esta pedra, edificarei a minha Igreja, e AS PORTAS DO INFERNO JAMAIS PREVALECERÃO SOBRE ELA”. Eu Sr. Sérgio, não sou um católico de uma fé infantil, inconseqüente ou fundamentalista. Reconheço que infelizmente, há: heresias, traições, infidelidades, graves omissões, etc. de ‘alguns homens’ no seio da Santa Madre Igreja; frutos podres inerentes às limitadas condições ‘humanas’. Todavia ‘A BARCA DE PEDRO’ navega e navegará. À despeito de todos os ERROS HUMANOS que ao longo de dois mil anos, A (IGREJA CATÓLICA APÓSTOLICA ROMANA) tem sido manchada e ferida, ELA SOBREVIVE e SOBREVIVERÁ, não por nós, pobres pecadores e mortais, mas, PELA VONTADE, GRAÇA e AMOR DO DEUS ÚNICO E VERDADEIRO. ACEITE, CREIA E CONVERTA-SE, enquanto podes! Que DEUS NOSSO SENHOR, e pelas intercessões de Nossa Senhora e São José, nos abençoem e nos protejam à todos, HOJE E SEMPRE! AMÉM!

     
  7. Nuestra Sra. Del Buen Sucesso, Nuestra Sra. de Fatima Nos Aseguran Su Triunfo.

    Solo Falta Pedir en Nuestros Sacrificios y Oraciones Del Santo Rosario, Obedecer y poner en Practicalas las Indicasiones Necesarias de la Resistencia.
    Confiar en las Ensenanzas Indicadadas en RCR por el Profesor Dr. Plinio Correa de Oliveira. Repetir Pidiendo a Ntra. Sra. Haga Realidad ya la Frace Tradicional Descriptiba del Prof. Dr. Plino “Ni Un Minuto Mas”

    Animo, Confianza, Sacrificio, Oracion, Accion!!!

     
  8. É de se temer que os atuais cardeais reunidos não façam uma boa escolha, haja vista a má ação de alguns como o Cardeal de Viena Schönborn que apoia homossexuais, enquanto que o Prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé o alemão Dom Gerhard Ludwig Müller, não é cardeal ainda, nega o dogma da virgindade de Maria. O que esperar de uma hierarquia dessas? Ah, o cardeal Bertone não vê problema em apertar a mão de Fidel Castro chamando-o de “meu comandante”…

     
  9. Que me desculpem os adeptos do catolicismo, mas o ESPIRITO SANTO DE DEUS nada tem a ver com eleição de Papas, mesmo porque a Igreja Católica NUNCA FOI A IGREJA VERDADEIRA DE CRISTO. A igreja de Cristo não é a INSTITUIÇÃO, a verdadeira igreja cristã é o CORPO MISTICO DE CRISTO, onde Ele é o Cabeça das Igreja e não qualquer homem que se arvora em ser representante de Cristo na Terra. Cada verdadeiro Cristão que reconheceu a Jesus Cristo como seu único e suficiente salvador e Senhor de sua vida é que forma no mundo todo o Corpo de Cristo como diz o apostolo Paulo, o maior Misionário, o maior apostolo de todos, e o maior teologo de todos os tempos o qual expandiu com seus companheiros a igreja de Cristo para todo o mundo da épooca, inclusive em Roma (não essa igrerja católica politica e perseguidora dos cristãos verdadeiros que foram queimados e jogados aos leões por ela). E o evnagelho de Cristo chegou até nós por causa de Paulo principalmente os demais apostolos e discipulos fieis do primeiro seculo. A igreja catolica, fundada pelo Imperador Constantino no Seculoa IV, fato escondido a sete chaves pela Prostituta do Apocalipse (Igreja Catolica). Milhares de ex-catolicao aceitaram o verdadeiro evangelho de Cristo quando principalmente o conheceram nas Escrituras Sagradas e tiveram uma experiencia pessoal com ele, e muitos outros quando coinheceram a verdadeira historia sanguinaria dessa igreja Apostata e que é mais uma seita do que igreja.

     
  10. E todos nós devemos nos apegar ao DIVINO ESPÍRITO SANTO, nesse momento em que
    será eleito o novo PEDRO. Infelizmente a IGREJA é feita por homens, e nós, sacerdotes
    ou não, somos falíveis.
    PAZ E BEM À TODOS.

     

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