O simbólico gesto do Papa Francisco comemorando o heresiarca Lutero

Lutero queima a bula de sua excomunhão
Lutero queima a bula de sua excomunhão

Muitas vezes os atos e gestos simbólicos têm maior força de persuasão do que as palavras e os raciocínios, embora ambos se completem. Foi assim que o Divino Salvador continuamente alternava sua pregação com gestos simbólicos e o uso de metáforas e parábolas.

Também por essa razão a Igreja sempre se cercou de símbolos para tornar mais perceptíveis a beleza de sua doutrina, a sacralidade de sua liturgia, a dignidade e a autoridade dos seus hierarcas. O papa era coroado solenemente para simbolizar o poder conferido a ele por Nosso Senhor, como sucessor de São Pedro, no governo da Igreja e orientação da Cristandade.

Magistério por atos simbólicos

O atual Sumo Pontífice usa muito de gestos simbólicos e tem um magistério mais feito de atos e atitudes do que propriamente de palavras, embora ele as use e, infelizmente com frequência, de modo confuso e mesmo escandaloso como o famoso “quem sou eu para julgar?”

Na linha de seu magistério por atos e gestos, é de suma gravidade sua anunciada participação nas comemorações da revolta do monge apóstata e heresiarca Martinho Lutero.

Como informou o Vatican Informative Service de 25 de Janeiro último, Francisco irá este ano à cidade de Lund, na Suécia, onde, juntamente com dirigentes luteranos “presidirá a uma comemoração conjunta da Reforma em 31 de Outubro.”[1] Como se recorda, foi nessa data que, em 1517, Lutero teria afixado na porta da igreja do castelo de Wittenberg as suas 95 teses.[2]

A comemoração de um fato histórico não é uma simples lembrança do mesmo, como poderia ocorrer numa aula de história. É uma rememoração festiva e com louvor de algo que se julga digno de admiração, imitação ou mesmo de devoção. É assim que em 2017 o orbe católico comemorará o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima.

Como pode o Papa Francisco participar ativamente das comemorações da revolta de Lutero contra a Igreja e o papado, sem dar a impressão a católicos e não-católicos de que ele admira os atos e as doutrinas do heresiarca?

Condenação solene dos erros de Lutero

exsurge-domine-bullConvém lembrar que o Papa Leão X, com a Bula Exsurge Domine de junho de 1520, condenou solenemente 41 dos erros defendidos por Lutero em 1517:

“Pela autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de nossa própria autoridade, nós condenamos, reprovamos, e rejeitamos completamente cada uma dessas teses ou erros como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos aos ouvidos piedosos ou sedutores das mentes simples, e contra a verdade católica. Listando-os, nós decretamos e declaramos que todos os fiéis de ambos os sexos devem considerá-los como condenados, reprovados e rejeitados… Nós os proibimos a todos em nome da santa obediência e sob as penas de uma automática excomunhão…”

Do mesmo modo, o papa condenava os outros escritos de Lutero:

“Ainda mais, por causa dos precedentes erros e de muitos outros contidos nos livros ou escritos e sermões de Martinho Lutero, nós do mesmo modo condenamos, reprovamos e rejeitamos completamente os livros e todos os escritos e sermões do citado Martinho, seja em Latim seja em qualquer outra língua , que contenham os referidos erros ou qualquer um deles; e desejamos que sejam considerados totalmente condenados, reprovados e rejeitados. Proibimos a todos e a qualquer um dos fiéis de ambos os sexos, em nome da santa obediência e sob as penas acima em que incorrerão automaticamente, de ler, sustentar, pregar, louvar, imprimir, publicar ou defendê-los.[3]

Furor contra o Papado

A resposta do heresiarca, em seu estilo arrogante e vulgar, foi o panfleto de 4 de Novembro desse mesmo ano, Contra a Execrável Bula do Anticristo, no qual proclamava:

“Tu, então, Leão X, e vós cardeais e o resto de vós em Roma, eu lhes digo em vossa face ….  a renunciar à vossa blasfêmia diabólica e impiedade audaciosa, e, se não mudardes, teremos vosso lugar como possuído e oprimido por Satanás e como o maldito assento do Anticristo.

O furor de Lutero contra o papado levou-o a incorrer sempre mais na vulgaridade,  chegando a usar termos e a encomendar e promover gravuras inimagináveis.

Com um pedido de desculpas ao leitor, transcrevemos aqui uma amostra. Trata-se da apreciação feita por um historiador protestante do libelo de Lutero Contra o Papado em Roma, fundada pelo diabo, publicado na revista Concordia Theological Quarterly da Igreja Luterana do Sínodo de Missouri:

“Lutero superou até mesmo a violência e vulgaridade da Contra Hanswurst [na qual atacava o duque católico Henrique de Brunswick] em seu libelo de 1545 intitulado Contra o Papado em Roma, fundado pelo diabo. Na esteira desses tratados, publicou uma série de xilogravuras escatológicas e violentas que, de um modo gráfico, sugeria como os bons cristãos deviam tratar o papado. Nesses e em outros tratados, Lutero bestializava seus oponentes, com maior frequência comparando-os com suínos ou burros, ou chamando-os de mentirosos, assassinos, e hipócritas. Eles eram todos os asseclas do demônio. … [chamou o Papa Paulo III, 1534-1549] ‘Sua Sodomita Infernal’ Papa Paula III, e utilizou palavras como excremento por toda parte com toda naturalidade. Nas xilogravuras por Lucas Cranach que Lutero encomendou no final de sua vida, eram apresentadas a Igreja papista como saindo do ânus de uma enorme diaba e sugeria, mais uma vez que o Papa, os cardeais e bispos deviam ser pendurados na forca com suas línguas de fora.” [4]

O mesmo artigo informa:

“Quando perguntado por que havia publicado as caricaturas, Lutero respondeu que percebeu que não tinha muito tempo de vida e que ele ainda tinha muito que deveria ser revelado sobre o papado e seu reino. Por esta razão, ele havia publicado as fotos, cada uma valendo por um livro, do que deveria ser escrito sobre o papado. Era, ele afirmou, seu testamento.”[5]

Em 1529 proclamava Lutero:

“Sob o papismo nós estávamos possuidos por cem mil diabos.”[6]

Uma das mais suaves críticas de Lutero ao Papa é este seu comentário nas Conversas à mesa:

Anticristo é o papa e o Turco [o Grão-Turco] em conjunto; uma besta cheia de vida deve ter um corpo e alma; o espírito ou alma do anticristo é o papa, sua carne ou o corpo, o Turco. O segundo assalta e persegue a igreja de Deus corporalmente; o primeiro espiritual e corporalmente também, com suspensão, fogueiras, assassinatos, etc.”[7]

Doutrina da falsa misericórdia

A essência da doutrina de Lutero é a justificação somente pela fé. Mas a consequência dessa doutrina é um falso conceito da misericórdia de Deus. O Frei Serafino Lanzetta, analisando o livro do Cardeal Walter Kasper, Misericórdia: A Essência do Evangelho e a chave da vida cristã, escreve:

“Historicamente, segundo julga Kasper, apoiado por O. H. Pesch, ‘a idéia de um Deus vingativo e castigador lançou muitos na angústia em relação à sua salvação eterna. O caso mais conhecido, e um prenúncio de graves conseqüências para a História, é o do jovem Martin Lutero, que foi durante muito tempo atormentado pela pergunta: ‘Como posso encontrar um Deus bondoso?’, até que ele reconheceu um dia que, no sentido da Bíblia, a justiça de Deus não é a sua justiça punitiva, mas a sua justiça justificadora e, portanto, sua Misericórdia. ‘”[8]

Essa doutrina está bem sintetizada na famosa carta de 1521 de Lutero a Melanchthon:

“Se você é um pregador da misericórdia, não pregue uma misericórdia imaginária mas a verdadeira. Se a misericórdia é verdadeira, você deve levar em conta um verdadeiro pecado, não um pecado imaginário. Deus não salva aqueles que são apenas pecadores imaginário. Seja um pecador, e peca fortemente, mas que sua confiança em Cristo seja mais forte, e se alegre em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. … Basta que através da glória de Deus reconheçamos o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Nenhum pecado pode nos separar d’Ele, mesmo que matemos e cometamos adultério milhares de vezes por dia. Você acha que tal Cordeiro exaltado pagou apenas um pequeno preço com um magro sacrifício pelos nossos pecados? Reze forte porque você é um grande pecador.
No dia da Festa de São Pedro Apóstolo, 1521” [9]

Em outro lugar escreveu Lutero:

“É conveniente que nós nos tornemos injustos e pecadores, a fim que Deus seja reconhecido justo em suas palavras.”[10]

Alguns escritores, mesmo católicos, procuram apresentar essas palavras de Lutero como meras hiperbóles, uma vez que ele também fala contra o pecado. No entanto, essa doutrina do pecca fortiter,  é a consequência da “iluminação” que ele recebeu na cloaca do convento, ou seja, de que é somente a fé, sem as obras, a “sola fide” que salva.[11]

Já em 1516, portanto antes de sua revolta pública, Lutero escrevia ao seu confrade agostiniano George Spenlein:

“Sede um real pecador porque Cristo habita apenas nos pecadores.”[12]

Lutero deixa claro, no seu panfleto A Igreja no Cativeiro da Babilônia, que o único pecado pelo qual uma pessoa pode se perder é o da incredulidade. Crendo, uma pessoa, por maior pecador que seja, estará salva:

“Veja o quão rico é, portanto, um cristão, aquele que é batizado! Mesmo que ele queira, ele não poderá se perder, por mais que peque, a menos que ele deixe de crer. Porque nenhum pecado pode condená-lo fora a incredulidade. Todos os outros pecados, enquanto a fé na promessa de Deus feita no batismo retorne ou permaneça, todos os outros pecados, digo eu, são imediatamente apagados por essa mesma fé, ou melhor, através da verdade de Deus, porque Ele não pode negar a si mesmo.”[13]

Em um sermão de 1532 Lutero pregava:

“Tirando a incredulidade, não há mais pecados: todo o resto são bagatelas. Quando meu pequeno Joãozinho vai defecar em um canto, a gente ri e acabou-se. Fides facit ut stercus non feteat [A fé faz com que as fezes não cheirem]. Resumo dos resumos: a incredulidade é o único pecado em relação ao Filho [de Deus].”[14]

Lutero: a Missa católica, pior que um prostíbulo

Pregava Lutero em 1524:

“Sim, eu o digo, todos os prostíbulos, que no entanto Deus condenou severamente, todos os homicidios, mortes, roubos e adultérios, são menos prejudiciais do que a abominação da Missa papista.”[15]

No já citado panfleto O Cativeiro da Igreja na Babilônia, Lutero dizia que o padre “oferecendo a missa como um sacrifício …. é o auge da perversidade!”[16]

O Espirito de Verdade não induz ao erro

As citações poderiam continuar, mas os textos apresentados são suficientes para deixar claro que as doutrinas, bem como a personalidade do heresiarca, cuja revolta arrastou nações inteiras para fora do único redil de Cristo, nada têm de comum com a Igreja Católica.

Não se entende então porque o atual Papa, ele mesmo um Jesuíta, Ordem religiosa suscitada por Deus para combater o Protestantismo, empreenda uma viagem para comemorar o centenário de uma revolta contra a Igreja.

A missão dada a São Pedro foi a de alimentar as ovelhas de Cristo;[17] o encargo de confirmar os irmãos na fé[18]; ele recebeu as chaves do reino dos Céus[19] para conduzir as almas para à bem-aventurança eterna.

O Concílio Vaticano I deixou claro que “o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que eles possam, por sua revelação, dar a conhecer algumas novas doutrinas, mas que, pela sua assistência, eles possam guardar religiosamente e expor fielmente a revelação ou depósito da fé transmitida pelos apóstolos.[20]

Com efeito, o Espírito Santo é um “Espírito de Verdade”[21] e não pode inspirar o erro, seja por meio de palavras, atos, gestos ou atitudes.

“Um sinistro supermercado de religiões”

Em situação semelhante, na comemoração do quinto centenário do nascimento do monge apóstata, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que dedicou sua vida à defesa da Igreja e do Papado, escreveu estas palavras de advertência:

“Não compreendo como homens da Igreja, contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas, etc.

E concluiu:

“Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.”[22]

A Igreja vencerá mais esta crise

SagImagem34No seu luminoso ensaio Revolução e Contra-Revolução, o mesmo pensador católico escrevia estas palavras cheias de esperança sobre a Igreja:

Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas, poderia ela dizer ufana e tranqüila em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje.”[23]

Aproximando-se o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, peçamos a Ela que apresse o cumprimento da promessa feita nessa ocasião:

“Por fim o meu Imaculado Coração triunfará.”


Notas:

[1] http://www.news.va/en/news/joint-ecumenical-commemoration-of-the-reformation (Salvo indicação em contrário, todas as ênfases nos textos aqui citados são do autor deste artigo).

[2] O historiador Pe. Ricardo Garcia-Villoslada, S.J., em seu livro sobre Lutero, apresenta argumentos e documentação muito convincentes de que este ato não se deu. Nem Lutero o menciona em seus escritos, nem tal fato é registrado por cronistas contemporâneos. Foi somente depois de sua morte que Melanchthon, que não estava em Wittenberg nessa época, mencionou o suposto ato. Caso ele se tivesse dado, posto que se tratava da véspera de Todos os Santos, uma festa muito concorrida na igreja do Castelo de Wittenberg, ele teria chamado muito a atenção e seria referido nas crônicas. (Ricardo Garcia-Villoslada, Lutero El Frayle Hambriento de Dios, BAC, Madrid, 1973, v. 1, pp.334-338).  Mas o que importa é que, real ou não, esse fato ficou como símbolo da revolta luterana.

[3] Leão X, EXSURGE DOMINE, 15.06.1520, Tradução: José Fernandes Vidal, at http://agnusdei.50webs.com/exsdom1.htm, acessado em 2/2/16.

[4] Mark U. Edwards, Jr., Luther’s Last Battles, CONCORDIA THEOLOGICAL

QUARTERLY, Volume 48, Numbers 2 & 3 APRIL-JULY 1984, pp. 126-127 (emphasis original), http://www.ctsfw.net/media/pdfs/edwardslutherslastbattles.pdf, acessado em 29/1/16.

[5] Idem, p. 133.

[6] Werke, t. XXVIII, p. 452, 11, apud J. Paquier, Luther, Dictionnaire de Théologie Catholique, v. IX, premire partie, col.1170.

[7] THE TABLE-TALK OF MARTIN LUTHER ,TRANSLATED BY WILLIAM HAZLITT, Esq.

Philadelphia: The Lutheran Publication Society. 1997, at http://reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html, (acessado 27/1/16).

[8] Fr Serafino M. Lanzetta, Kasper’s Perplexing Notion of “Mercy” Is Not What Church Has Always Taught – an extensive book review, and its implications for Marriage, at  http://rorate-caeli.blogspot.com/2014/09/kaspers-perplexing-notion-of-mercy-is.html, acessado 1/2/126.  

[9] Let Your Sins Be Strong: A Letter From Luther to Melanchthon, Letter no. 99, 1 August 1521, From the Wartburg  (Segment) Translated by Erika Bullmann Flores from: _Dr. Martin Luther’s Saemmtliche  Schriften Dr, Johannes Georg Walch, Ed. (St. Louis: Concordia Publishing House, N.D.),                           Vol. 15,cols. 2585-2590. http://www.iclnet.org/pub/resources/text/wittenberg/luther/letsinsbe.txt (acessado 27/1//16).

[10] Werke, t. IV, p. 343, 22, apud J. Paquier, Luther, Dictionnaire de Théologie Catholique, v. IX, premire partie, col. 1212.

[11] Em 1532 Lutero fazia a seus convivas a seguinte confidência, recolhida nas Conversas à mesa: “O Espírito Santo me deu essa intuição nesta cloaca” (T.R., t. II, n. 1681, t. III, n. 3232ª, in Paquier, col. 1207).

[12] Enders, Luthers Briefwechsel, I, p. 29, in Hartmann Grisar, S.J., Martim Luther his Life and Work, The Newman Press, Wstminster, Maryland, 1960, p. 68.

[13] Martin Luther, The Babylonian Captivity of the Church – A prelude 1520, 3.8, at http://www.lutherdansk.dk/Web-babylonian%20Captivitate/Martin%20Luther.htm (acessado 281//16).

[14] Werke, t. XXXVI, p. 183, 7, in Paquier, col. 1249.

[15] Werke, t. XV, p. 774, 18, apud J. Paquier, col. 1170.

[16] The Babylonian Captivity of the Church, n.7.11, http://www.lutherdansk.dk/Web-babylonian%20Captivitate/Martin%20Luther.htm.

[17] João 21:15-17.

[18] Lucas 22:32.

[19] Mateus 16:19.

[20] Denzinger 1836.

[21] João 14:21.

[22] Lutero pensa que é divino!, 10 de janeiro de 1984 , Folha de S. Paulo, at http://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP_84-01-10_Lutero_pensa.htm#.VrE9ilkwCZM, acessado 2/2//16.

[23] Revolução e Contra-Revolução, II, 12, at http://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR.pdf. acessado 3/2/16.

 

12 COMENTÁRIOS

  1. Nosso Papa, numa das primeiras audiências públicas após o início de seu pontificado, respondeu da seguinte forma a uma criança que perguntou a ele por que razão ele decidiu não residir nos aposentos tradicionais até então utilizados por seus antecessores: disse a ela que tinha problemas psiquiátricos.

    Temos registros de referências de inúmeras pressões sofridas por ele desde seu episcopado na Argentina. Em que teria sido ameaçado em relação a providências que poderia achar por bem tomar no caso de mendigos que dormiam nas imediações da Catedral Arquidiocesana. Temos em sua ação expressões de impotência diante de quesitos institucionais demandados pela realidade que a Igreja enfrenta em nossas diversas inter-relações. E também atitudes por demais condescendentes em nome de uma necessidade de conversão e reconciliação à salvação segundo os mais sagrados valores cristãos. Como que por vezes traduzindo um estilo de evitar confrontos mesmo que à custa da defesa de valores essenciais da Igreja frente a grupos intransigente e radicalmente opostos aos que temos pelo discernimento nas virtudes da fé.

    Acima temos participações classificando gestos do nosso Papa como cinismo ou comunistas. O que não é uma afirmação justa. Ele nem é cínico e tampouco comunista. Pode ter suas fragilidades, mas não é nem uma coisa nem outra. Relator do Encontro do CELAM em Aparecida, tem, apesar de limitações como as que aqui estão consideradas, seus valores e pelo que por vezes seria classificável como excessivamente flexível ou parcimonioso, por tal uma potencial qualidade de intrépido. E a intrepidez é uma qualidade relevante segundo a Bíblia. Naturalmente, ao que a sabedoria divina requer seja exercido.

    Prestigiar as comemorações da Reforma Protestante soa de início algo bastante inconveniente. O que talvez possa ser mesmo confirmável a qualquer tempo. Mas pode expressar também um confronto de contrastes e um convívio com as diferenças na sensibilidade de que todos os que participaram da Reforma e foram criados sob seus auspícios tal experienciaram de frente para com uma Igreja Católica que efetivamente, de forma distribuída, pouco procura as ciências e a sabedoria. E tem inúmeros defeitos na sua vida leiga nos quais é infelizmente deficiente como luz do mundo e sal da terra.

    Na Alemanha, se não me engano em Munique, há um templo cristão compartilhado por católicos e luteranos. Nele há uma parede móvel no meio, a qual é removida quando somente uma das partes utiliza suas instalações para celebrações. Quando católicos e luteranos a utilizam simultaneamente, a parede é então mantida como eficaz divisória, e tanto católicos quanto luteranos celebram os seus respectivos rituais ao mesmo tempo. De uma maneira fraternal e em perfeita convivência com o respeito às diferenças e liberdade de consciência. No que temos evidente a respeitabilidade a mútuo, no reconhecimento das contribuições que ambos os grupos, pelos seus mais asseverados integrantes, produzem na vida espiritual e social da população em que atuam. E todos, católicos e luteranos, assim como todos cristãos de outras denominações, professam o nome de Jesus como salvador do mundo. Segundo suas limitações formacionais, psicológicas e temporais relacionadas à desigualdade de oportunidades e às carências de justiça social. Mas todos, sem exceção, professando Jesus como salvador. Por um único motivo. Porque ninguém assim o faz senão pelo poder do Espírito Santo.

    Tenho muitos leitores protestantes do meu livro sobre a Bíblia. E muitos amigos com os quais interajo a mútuo reconhecimento e solidária condição. No discernimento quanto a nossas histórias familiais, à da Igreja Católica, à da Reforma e a tantas outras. No que também hora ou outra tenho expressado, quando cabível, meu gosto pelo retorno ao catolicismo por parte de alguns destes amigos! Por vezes oramos juntos, e por outras vezes construímos ou defendemos valores comuns juntos. Ao par do que o bom samaritano fez auxiliando um judeu na estrada…

    Acredito de o Papa Francisco não vai participar do referido evento de uma maneira imprópria a sua condição de sucessor da Cátedra de Pedro. E que portanto aproveitará a oportunidade para iluminar nossos amigos protestantes com a força dos valores mais ricos que temos. Sabe-se lá se ele não irá justamente por ter sido convidado e assim sem se fazer de rogado?!

     
  2. Prezado Pe. Rafael.
    A diferença da atitude de Cristo com Zaqueu e Franciso com Luitero é que Cristo não comemorou os pecados de Zaqueu, muito pelo contrário. Zaqueu se arrependeu e doou seu dinheiro aos pobres. Já Lutero ……..

    Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

     
  3. A História deveria ser feita com isenção, por historiadores imparciais, mas infelizmente isso não acontece. Se fosse feita pesquisa desapaixonada dos fatos ocorridos no século da chamada Reforma Protestante, constatávamos que de fato não existe efeito sem causa. Portanto acredito que a Reforma foi uma necessidade. Aliás, alguns pré-reformadores já tinham surgidos séculos antes e queimados na fogueira como “heresiarcas”.

     
  4. È lamentável; mais ainda é abominável.
    Não é surpresa, não é nada que não fosse pensado com todo o cuidado. E é aqui que está o grande perigo e o grande erro. Uma medida tomada de imediato perante um evento ocasional e inesperado é uma coisa que pode não ter qualquer significado. Mas uma medida pensada e repensada e que toma essa forma adúltera em que a “esposa” repudia o seu “marido” para se juntar ao “inimigo do seu marido” tem um significado que não é possível abstrair: Lutero tinha razão, foi tratado indignamente e a sua reação humana. Há que fazer justiça.

    Há uns largos anos atrás, talvez na época em que se comemorava os 500 anos da nascimento de Lutero, foi publicado um livro cujo autor era um Cardeal da Cúria Romana, do seleto grupo dos conselheiros do Papa que era Paulo VI. A certa altura, o Papa lamentou muito triste o fato de não lhe ter sido permitido visitar a Escandinávia, por obstrução do Bispado luterano da Suécia, porque dizia o Papa, ele gostava de ter ido para dizer na Suécia que Martinho Lutero teve razão. Foi um choque tremendo para mim; duvidei que o que estava no livro fosse a verdade. Mas como é que um Cardeal chegado ao Papa teve a coragem de propagar uma mentira, sabendo que o Papa ou auxiliares do Papa leriam o livro, e desmentiriam publicamente a notícia?

    Se examinarmos Lutero com atenção, temos de dar-lhe crédito porque ele conseguiu que a Igreja católica reagisse, o que os Concílios realizados para este fim não tinham conseguido, e tivesse realizado o Concílio de Trento que veio modificar o modo de vida da Igreja e simultaneamente reafirmar a Verdade que a Igreja proclamava e que sempre tinha sido seguida.
    Fora isto, Lutero foi algo de tenebroso, uma mancha de ódio e de mal que os semeou por tudo o mundo

    Não se compreende e não se aceita que o Papa vá à Suécia para, com os Bispos luteranos, homenagear o inicio da Reforma que tantoi mal fez e faz à Igreja. O que quer o Papa Francisco? Que nos unamos com os luteranos numa “União de ruína” como dizia Pio XII?

     
  5. O Papa que cancele a presença neste evento, não há nada de festivo para nós católicos em tal comemoração herege. Ou renuncie, não é este apostolado que esperamos dele.
    Há muito tempo o atual Sumo Pontífice desagrada os católicos, com seus atos, atitudes e palavras, escandalizando a verdadeira doutrina católica.

     
  6. Caros irmãos do IPCO, sempre admirei vocês, pela firmeza na defesa da fé, da família e da vida. Sou do Movimento Defesa da Vida da Diocese de Petrópolis – RJ, juntamente com a conhecida Comunidade Católica Jesus Menino.
    Porém, peço que vocês revejam a posição crítica ao Papa Francisco, sobre sua participação nas celebrações dos 500 anos do início do Protestantismo. Lembrem que Cristo foi na casa do cobrador de impostos Zaqueu. Foi na casa do fariseu Simão. Visitas que marcaram a vida desses homens! Lembrem que o Papa Paulo VI pediu perdão ao patriarca de Constantinopla, pela excomunhão feita pelo Papa Leão IX ao patriarca Miguel Celulário em 1054, quando os orientais se separaram da comunhão com o papa. Lembrem que nosso amado Papa Emérito Bento XVI, que é alemão, é muito querido pela comunidade luterana da Alemanha.
    O Papa Francisco está promovendo a “Cultura do Encontro”, para vencermos as divisões com o amor, o diálogo, a solidariedade. Que da nossa parte, o mundo veja sempre o amor, a caridade, sem deixar de lado a verdade!

     

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