Oh Civilização Cristã!

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lejournaldemarie pauNum quarto fechado, uma pessoa respira com dificuldade o ar rarefeito e poluído daquele ambiente. De repente, alguém de fora para dentro abre uma janela e o ar puro e perfumado de um campo florido inunda o aposento. Que sensação de alívio!

Foi a que tive em meio aos afazeres deste fuliginoso ano de 2016, ao ler o Diário de uma jovem de antigamente, mais concretamente do século XIX, em que ela relata suas reflexões sobre a vida cotidiana e os acontecimentos de seu tempo.

Alguns juízos da jovem e inexperiente lorena, inclusive sobre pessoas ou correntes de pensamento de sua época, são passíveis de controvérsia. Mas erraria quem quisesse fixar-se nisso para infirmar o conjunto do Diário, que denota uma alma pura, combativa, profundamente católica, que ama a virtude, sem nunca ter querido ser freira nem casar-se. A elevação de seus pensamentos de tal modo impressiona, que eu quis comunicar ao menos uma parte deles aos leitores.

A ideia da morte como libertadora está continuamente presente em suas reflexões. Mania? Vocação divina? Esta última hipótese ganha consistência quando se tem presente que ela morreu aos 26 anos de idade.

A nós, cidadãos deste início do século XXI, envoltos a contragosto nos miasmas espalhados pela mídia invasora, pelo progressismo que tudo corrompe, pela imoralidade ambiente, a leitura desses textos leva a exclamar: Oh Civilização Cristã! Quantos e quão maravilhosos frutos produziste, e que crime sem nome cometeram e cometem todos quantos trabalharam e trabalham para tua demolição, dentro e fora da Santa Igreja!

Vamos, pois, aos magníficos textos.

Senso psicológico

“Nos dias em que o mau tempo nos impedia qualquer passeio, seja a pé, seja em veículos, eu me instalava no salão, atrás da poltrona de minha tia. Lá se encontra, diante de uma janela, uma pequena escrivaninha à qual eu me sentava para desenhar comodamente. Desse pequeno observatório eu examinava e julgava as pessoas.

“Quantas pessoas amáveis ou insípidas, tímidas ou ousadas, surgiam uma por um diante dos meus olhos. Quantos belos tipos a desenhar, banalidades de toda espécie a descrever se eu sentisse alguma malícia em meu espírito. E se eu tivesse uma pena graciosa e fina, como me estenderia longamente também sobre as raras exceções, fisionomias doces e poéticas, percebidas cá e lá. Por vezes era um belo olhar que me revelava toda uma alma; outras vezes era uma palavra saída do coração, que respondia à acolhida bondosa e simpática de minha querida tia.”

Pensamento profundo

“As despedidas, as despedidas! Dever-se-ia incluí-las no número das mais cruéis dores humanas, pois elas são, de cada vez, a imagem da última separação.”

Ação de graças e pedido ao Senhor

“Que tenho feito a mais do que tantas outras, para que o Senhor me deixe sobre a terra, enquanto em torno de mim minhas amigas, meninas de minha idade, me deixam no caminho que seguíamos juntas, para deitarem-se sob a fria lápide do túmulo? Ah! meu Deus, eu nada tenho feito para vos agradecer a graça de viver. Na minha idade [15 anos], tantos santos já haviam merecido vosso amor! Eu vos peço perdão. Mas a esta graça da vida acrescentastes a de me fazer nascer no seio de uma família sinceramente católica, da qual tantos outros se encontram privados! Ainda uma vez, obrigado, meu Deus! Mas, eu vos peço, acrescentai ainda um novo favor, o da perseverança em todas as graças recebidas; a perseverança para cumprir minhas boas resoluções, porque sem Vós, Senhor, eu não sou senão fraqueza e miséria. Com vossa graça, eu me reergo e a força se torna meu quinhão.”

Visita à Catedral de Chartres

“Quantas gerações passaram sucessivamente sob estes arcos [góticos]! Quantas almas santas rezaram a Deus neste mesmo lugar onde agora eu me ajoelho, por onde eu passo! Ah! essas milhares de almas estão esquecidas. Daqui a cem anos, o que restará de mim, de meu nome, de minha lembrança? Nada. Assim caminha o mundo, tudo passa e tudo morre. Só Vós, ó meu Deus, só Vós sois imutável e eterno, e vosso Nome subsistirá para sempre!”

Ambiente acolhedor das igrejas

“É sempre com emoção que eu assisto a essas Missas matinais [era o rito anterior ao Vaticano II]. Na obscuridade que reina na igreja há um não sei quê, que conduz o pensamento aos dias de luto e perseguição em que os primeiros cristãos, refugiados nas catacumbas, celebravam seus mistérios. Quanto fervor nas almas desses generosos discípulos de Cristo, que se aproximavam da mesa santa para receber o Pão dos fortes, o penhor de uma eterna vida, ignorando se o dia que se levantava acima de suas cabeças não seria o último de suas vidas! Não está ainda muito afastado de nós esse outro tempo de perseguição, durante o qual os cristãos foram obrigados a esconder-se para celebrar seu culto. Sim, Jesus de Nazaré, no tempo do Terror [período da Revolução Francesa] havia ainda fiéis adoradores na terra de França, e a lembrança de tantos apóstolos mártires reanima meu fervor. Gosto de rezar nas nossas igrejas, à luz fraca e bruxuleante das velas. Em meio à obscuridade, do meu coração brotam então as melhores preces.”

Anti-Revolução Francesa

 “Será necessário fazer aqui o elogio de Henri de la Rochejaquelein? [herói da região da Vandeia, que combateu a Revolução Francesa]. O que eu posso dizer é que a palavra vendéen (vandeano) sempre encontrou eco em meu coração; ela é para mim sinônimo de herói e de mártir. É sempre com entusiasmo que pronuncio ou ouço pronunciar esse nome.”

Alma combativa

[Comenta um corpo de exército que se faz ouvir numa cerimônia militar]:

“A música militar, os tambores rufam nos campos, os clarins, a voz celeste dos sinos, o troar do canhão, tudo isso chega até mim e me embriaga. Eu me encontro num arrebatamento de glória. Um estranho arrepio me agita dos pés à cabeça. No fundo de minha alma há um eco que responde a essas harmonias longínquas. Por que meu coração bate assim ao rufar do tambor? Por que o troar do canhão, o cheiro da pólvora me agitam assim?”

Meditando em face de Sta. Joana d’Arc

 “Sua fronte [de uma estátua de Santa Joana d´Arc] está inclinada, como se os pensamentos que a assaltam a esmagassem com sua sublimidade. Seu corpo de donzela está coberto com uma couraça, e suas mãos, cruzadas castamente, pressionam uma espada contra seu coração. Um capacete, luvas de ferro repousam a seus pés. A chuva que cai neste momento lustra seus cabelos e sua couraça de aço; as folhas mortas turbilhonam em torno dela e se amontoam sobre o pedestal, como os anos sobre sua lembrança. Que importam as folhas mortas à natureza? A primavera sairá gloriosa do inverno, e as renova. Que importam também o sol ou a neve à estátua? Ela permanece de pé apesar de tudo. Que importam os anos, minha Joana tão amada, a quem deixou sobre a terra um nome semelhante ao teu? Ele vive na memória dos povos e se conservará nos corações.”

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Num próximo artigo, concluirei com mais alguns textos escolhidos de Marie-Edmée Pau.
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(*) Marie Edmée Pau, “Le Journal de Marie-Edmée”, Plon, Paris, 1876.

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Pensamentos como esses, nos transportam para um tempo em que o perfume dos bons ventos.
    Ou melhor dizendo, soprados pela graça de uma alma contemplativa a se elevar-se a existência do Altissímo,seus desígnios e uma saudade de um tempo em que grandes Santos ,faziam com suas forças, abrazadas no amor de Deus.
    Tempos ,que desse continuidade a esse amor em Deus, na preservção dos povos.

     
  2. Que lindos pensamentos! Que contraste com a realidade desse triste século XXI.

    Almas assim são exemplo e ocasião para refletirmos o sentido da vida e da importância do amor a Deus. Perfeito!

     

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