Universalidade católica e internacionalismo pagão

Duas obras japonesas de arte moderna.

ACC_1953_031_1Numa, o pintor Nobuya Abe apresenta o sofrimento do oriental contemporâneo, que implora auxílio à humanidade: feiúra diabólica, desespero absoluto, ausência total de qualquer pensamento de confiança em Deus. O quadro retrata, com a hediondez própria ao estilo, a dor pagã de um ente humano vítima de um mundo também pagão. Este ente humano sofre em todos os órgãos, todas as juntas, todas as fibras de seu ser, sofre odiando sua dor, não a compreendendo de modo nenhum, estertorando por se ver livre dela quanto antes, e não confiando em nenhuma solução, pois não crê na Providência, e só dirige suas súplica à própria humanidade inexoravelmente má que o esmaga. Em duas palavras, pela estridência do desespero, pelo desatino das formas e dos horizontes morais, uma antecipação do inferno.

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A outra apresenta o corpo humano! É obra do escultor surrealista Sueo Kasagi. Compare-se – se é que a comparação entre seres totalmente dessemelhantes é possível – este “corpo humano” com a figura de S. Francisco Xavier, no quadro abaixo da página. Neste, a fé parece ter impregnado de dignidade e fortaleza sobrenatural o corpo. Na escultura, uma concepção artística em delírio faz do corpo algo que não é humano, nem se parece com qualquer ser vivo ou capaz de vida!

 

 

O terceiro quadro apresenta S. Francisco Xavier em alto mar, implorando o auxílio de Deus durante uma terrível tempestade. O grande apóstolo do Oriente partira de Málaca em frágil embarcação, rumo ao Império do Sol Nascente, e a tormenta o surpreendeu durante o percurso. Seus companheiros de viagem foram tomados de pânico, mas Xavier, impávido, pôs toda a sua confiança na Providência. Deus acolheu benigno a oração de Seu servo, e a tempestade amainou sem que ninguém sofresse dano.

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O possante movimento das ondas, a beleza dramática do mar revolto, o desamparo da embarcação transformada em joguete dos elementos desencadeados, a iminência do risco, o pânico dos tripulantes, a serenidade, a fortaleza, o espírito sobrenatural de Xavier, tudo no quadro contribui para definir um contraste empolgante. De um lado, os abismos líquidos do mar, que parecem querer abrir-se para tragar Xavier, e de outro lado sua serenidade perfeita, porque confia inteiramente no Céu. É uma glorificação rica em inteligência, tacto, e verdadeiro senso artístico, da virtude da confiança.

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Uma observação final. A Igreja é universal, e contudo sua influência, igual em todos os tempos e todos os lugares, respeita e até favorece admiravelmente as características legitimas, próprias a cada povo e a cada época. Assim, o quadro referente a São Francisco Xavier durante a tormenta traz todas as notas de finura, imaginação e riqueza de expressão da arte no Extremo Oriente, e não obstante é todo ele animado por um quente e vigoroso sopro de genuína inspiração católica. Pelo contrário, a escola artística do escultor e do pintor cujas obras apresentamos mata todas as características de tempo e de lugar. Basta ter visitado a Bienal em São Paulo, para notar que hediondezas destas pululam com desoladora uniformidade hoje em dia, em todas as partes da terra, comprimindo e asfixiando num mesmo molde o gênio artístico peculiar a cada nação. Internacionalismo profundamente errado, que é precisamente o oposto da admirável universalidade da Igreja.

Publicado originalmente em “Catolicismo” Nº 31 – Junho de 1953  na seção Ambiente, Costumes, Civilizações”

 

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