Vitrines e amor de Deus

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Vitrine artística da Casa Guerlin

As vitrines podem constituir verdadeiras obras de arte, que nos ajudam a elevar a alma ao desejo das maravilhas celestes, desde que nos previnamos contra as solicitações de mundanismo

Quem fala em vitrines, pensa em Paris. Lá estão as vitrines famosas das Galeries Lafayette, da Printemps, da Hermès e tantas outras. Altamente evocativas, podem muitas delas ser admiradas no álbum Vitrines de Paris, editado por André Barret,(1) e sobre isso conversarei um pouco com o leitor.

Nem só mundanas, nem só comerciais

Estou longe de dizer que Paris tem o monopólio das belas vitrines. Elas hoje se encontram um pouco por toda parte, inclusive na São Paulo em que resido, com destaque para a rua Oscar Freire e adjacências. Mas ninguém contesta que o foco primeiro, inspirador e mais deslumbrante reside na Cidade Luz.

Que há um aspecto mundano em muitas vitrines –– ou seja, um convite à intemperança visual, à dissipação de espírito, ao amor das coisas terrenas com preterição das celestes, a tomar as aparências pela realidade –– é fora de dúvida. E contra essa tentação devemos nos defender. Porém, seria superficialidade de espírito reduzir o papel das vitrines a essa atração mundana, que aliás já foi maior em décadas passadas. Hoje em dia, a maior tentação está no pólo oposto, e se define por uma tendência ao miserabilismo em todas as coisas, quer na vida temporal, quer na vida da Igreja. Aí estão para comprová-lo os movimentos indigenistas, quilombolistas, ecologistas, onguistas, progressistas e tantos outros.

Também erraria quem reduzisse as vitrines ao seu aspecto comercial. É óbvio que elas são concebidas para atrair compradores para os produtos que os lojistas querem vender. Mas são decoradas muitas vezes com tanta arte, tanta delicadeza de sentimentos, tanta elevação de espírito, que fechar os olhos para esses aspectos pode ser um sinal de obtusão, acanhamento mental ou moral.

Vistas enquanto manifestação de bom gosto na ornamentação, elegância, nobreza de alma, convite à sublimidade, elas podem ser tão evocativas das maravilhas celestes quanto uma música, uma pintura, um perfume de rosas ou um prato de cerejas com chantilly.

Ora, exatamente esse aspecto das vitrines é o menos comentado, embora seja o mais elevado e fale muito à alma brasileira. É sobre ele que desejamos insistir. Ajuda-nos a pô-lo em realce o álbum editado por Barret.

O talento criador pode produzir o maravilhamento

Barret inicia seu texto narrando o seguinte fato: “A reflexão de uma amiga brasileira deu-me a idéia de realizar este álbum. Ela me disse: ‘o reflexo de Paris está nas suas vitrines; em nenhum país elas atraem, seduzem, agradam como aqui; para mim, é a felicidade’”.

E prossegue: “Vitrine é uma palavra banal: aquilo que está por detrás de um vidro. […] Mas é efeito do talento criador dos homens dar às palavras mais simples sua nobreza e uma dimensão de maravilhamento; […] elas são obras de imaginação e de sensibilidade, freqüentemente inspiradas por um desejo de rigor, de composição, de harmonia. […] Cada vitrine fixa um modo de ver, de reunir, e o resultado é uma verdadeira criação, pois o que surge vai além da soma dos objetos que ela apresenta; é como se fadas regessem esses espaços encantadores”.

Vitrine da Casa Hermès

Da antiga Mesopotâmia aos natais do século XX

Barret narra que desde os tempos mais antigos, na Mesopotâmia, na China ou no Egito os artesãos sentiam a necessidade de expor diante de seu ateliê certos objetos, não para vendê-los, mas para que testemunhassem sua habilidade. Na Idade Média as tabuletas (enseignes) desempenharam um papel considerável, que continuou no Renascimento e foi até o século XVIII, quando então começaram a ser expostas as mercadorias atrás de um vidro transparente.

Houve um gradual aperfeiçoamento no apresentar os produtos, até que no final do século XIX, com o aparecimento da eletricidade, “as vitrines vão ter seu poder de fascinação consideravelmente acrescido. […] Mas é apenas após a grande guerra (1914-1918) que as vitrines representarão verdadeiramente seu papel de atrair e seduzir. […] As vitrines das casas mais prestigiosas guardarão sua dignidade, seguras do poder de sua elegância. Na arte da apresentação, as vitrines do período 1924-1930 são sem dúvida as mais originais e as mais brilhantes. […] Após sua libertação, entre 1950 e 1960 Paris brilhou através de suas vitrines com o fogo mais vivo; à aproximação do Natal, as grandes lojas se iluminam e oferecem uma quotidiana feeria”.

O progresso social não passa pelo tédio

E o álbum termina com um alerta: “Uma certa escola condena aquilo que é maravilhoso e superficial, pretendendo que o tédio significa progresso social. Queira-se ou não, a vitrine deve ser um sorriso; e quando se passeia, cruzar com um sorriso traz felicidade e alegria”.

A essas considerações convém acrescentar: quando se procura ver nas vitrines a delicadeza de um artigo exposto, a composição ordenada de um conjunto, a sublimidade de um toque artístico –– tudo para remeter nosso espírito, ainda que à maneira de simples vislumbre, às maravilhas “que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (I Cor 2,9) –– pode-se estar fazendo um ato de elevação da alma a Deus. Tal é a escola de amor de Deus que nos ensina São Roberto Belarmino, em seu livro de 1615: Elevação da mente a Deus pelos degraus das coisas criadas.

De algum modo o homem completa a obra da Criação. Diz o poeta Dante Alighieri que as obras de arte são netas de Deus, pois que o homem é filho de Deus e as obras de arte são filhas dos homens. Há portanto nelas vestígios do Criador, que importa discernir. Assim, a arte das vitrines, interpretada segundo o espírito da Igreja católica, pode nos elevar ao desejo das coisas celestes.

Ao contemplar as vitrines, lembremo-nos do princípio geral a que se subordina toda produção artística, sinteticamente exposto por Plinio Corrêa de Oliveira: “A ordem da criação rege também o homem durante sua existência terrena. E é desígnio da Providência que, agindo segundo essa ordem, a humanidade complete de algum modo, com a obra de suas mãos, a excelência da criação”.(2)

Vitrine de chapelaria

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Notas:

1. Texte d´André Barret, éditeur, Paris, 1980; photographies d´Olivier Garros et Dominique Souse; concours de Robert Doisneau.

2. Revista Catolicismo, nº 91 – Julho/1958.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Para reafirmar mas tan bella leccion, recuerdo que en el siglo XIX mi pais, Costa Rica, era muy pobre (el Cafe incremente mucho su progreso), en esa Costa Rica el gobierno y el sector lider socio-economico promovieron la construccion de un bellisimo Teatro Nacional inspirado en magnas obras -edificios artisticos de Paris.
    Los campesinos al verlo, al principio, se santiguaban y rezaban a algunas de sus estatuas, no era simplicidad, era que les evocaba las catedrales y sus santas imagenes y en ellas evocaban el Cielo prometido a los que procuran con el auxilio de Dios su santidad. Busquenlo en internet: ” Teatro Nacional ” Costa Rica.

     
  2. Um belo texto, sem dúvida! Mas eu fico pensando que a Igreja tem seus iones e belissímas estatuas de marmore em Roma, que de certa forma equivalem a vitrinas com mais perfeções. Talvez uma herança dos gregos que também cultuavam o corpo com belas estatuas.
    O que eu quero focar é o exagero brasileiro por ocasião dos Natais, um exagero em tamanhos de árvores de natal, luzes e efeitos pirotécnicos, e a economia de energia por parte do horário de verão, para maior consumo daquelas luzes nas lojas e vitrinas e árvores gigantescas.
    Será que tudo isso faz parte das decorações e são mesmo necessárias do ponto de vista de atração para o consumo, inclusive com bastante antecedencia de datas como o Natal e carnaval? Apenas observações!

     
  3. Um artigo muito esclarecedor e atual. Atual porque combate a tendência do empobrecimento de espírito que vitima esta sociedade dita moderna. Moderna só no nome, pois os fins aos quais almejam alcançar os movimentos ambientalistas é a vida primitiva e posterior extinção da humanidade.

     

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