Verdadeira efigie de São Martínho de Porres, santo peruano do Siglo XVII (Lima, 1579 – 1639). De uma pintura anônima em cobre que se conserva no Mosteiro de Santa Rosa das Monjas em Lima

Nesta época impregnada de ódio social, de lutas de classes e raças, o exemplo desse santo mulato comprova como um espírito verdadeiramente católico e abrasado pelo amor de Deus e do próximo pode, por sua despretenção e humildade, chegar aos píncaros da santidade, nas mais adversas condições sociais.

Filho ilegítimo de João de Porres, nobre espanhol pertencente à Ordem de Alcântara e descendente de cruzados, e de Ana Velásquez, negra alforriada, Martinho nasceu no princípio de dezembro de 1579, em Lima, no Peru. De temperamento dócil e piedoso, desde pequeno foi ensinado pelo Espírito Santo na escola dos santos.

Ainda na infância seu pai o legitimou, bem como à sua irmãzinha Joana, levando ambos para Guayaquil, onde ocupava alto cargo no governo. Martinho teve assim chance de aprender a ler e escrever. Quatro anos depois, nomeado governador do Panamá, João de Porres devolveu o filho à mãe, deixando a filha sob os cuidados de outros parentes.

De volta a Lima, Martinho entrou na qualidade de aprendiz na botica de Mateo Pastor, que exercia o ofício de cirurgião, dentista e barbeiro. Foi ali que o jovem mestiço aprendeu os rudimentos de medicina, que depois lhe seriam tão úteis.

Na adolescência, Martinho quis entrar para o convento de Nossa Senhora do Rosário aos 15anos, na qualidade de doado, isto é, quase escravo. Comprometia-se a servir toda a vida, sem nenhum vínculo com a comunidade, e com o único benefício de vestir o hábito religioso. Ana Velásquez, num ato de desprendimento admirável, não só permitiu ao filho dar esse passo, mas quis ela mesma entregá-lo no convento.

Encarregado da enfermaria, não lhe faltavam ocasiões de humilhar-se diante da impaciência que muitas vezes se apodera dos doentes, ainda mais em uma comunidade de quase 200 frades. Ele não bastava para atender a todos, o que provocava crises de mau humor em alguns mais impacientes.

Aos poucos a virtude do doado foi sendo reconhecida por todos, e ultrapassou os muros do convento. Isso levou os superiores a abrirem exceção e a receber Martinho como irmão leigo, ligando-se assim à Ordem pelos três votos.

Estando doente o Bispo de La Paz, de passagem por Lima, mandou que chamassem Frei Martinho para que o curasse. O simples contato da mão do mulato em seu peito o livrou de grave moléstia que o levava ao túmulo.

Entre outros inúmeros milagres que se atribuem a Martinho, está o dom da bilocação (foi visto na mesma hora em lugares e até países diferentes) e o de uma ressurreição.

Finalmente, depois de uma vida de inteira dedicação a Deus e ao próximo, Frei Martinho, com o corpo gasto pelo excesso de trabalho, jejum contínuo e penitência, sucumbiu aos 60 anos. Ao seu leito de moribundo acorreram o Vice-rei, Bispos, eclesiásticos e todo o povo que conseguiu entrar. Seu funeral foi uma glorificação. Todos queriam venerar aquele santo mulato que nunca procurara sua própria glória, mas somente a de Deus.

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