Renovador do fervor religioso e da cultura da cristandade mozárabe (como eram conhecidos os cristãos sob o domínio mouro), foi autor de vários escritos hagiográficos e apologéticos, e introduziu nas bibliotecas cordovesas valiosos livros da cultura clássica, antes de ser mártir por Jesus Cristo. Ele é considerado o grande Doutor da Igreja mozarabe.

Para compreendermos bem o contexto no qual viveu Santo Eulógio, será útil ter presente alguns dados históricos.

No início do século V os visigodos − povo germânico oriundo da Escandinávia – invadiram a Península Ibérica. Esta, por sua vez, fora invadida anteriormente pelos vândalos, suevos e alanos, que haviam suplantado a decadente população hispano-romana.

Os novos invasores eram hereges arianos, e os hispano-romanos católicos. Foi só em 587 que o rei visigodo Recaredo abjurou a heresia ariana tornando-se católico com parte de seus súditos. Apesar de dominarem política e administrativamente o território peninsular, os visigodos nunca foram capazes de realizar uma colonização efetiva, visto serem, em número, inferiores à restante população da região.
No início do século VIII eles já estavam tão decadentes, que foi possível, em 711, aos árabes (sírios, egípcios, persas e berberes muçulmanos) comandados por Tarique, de Tânger, atravessarem o estreito de Gibraltar e penetrarem profundamente na Península Ibérica instaurando assim o que chamaram o Al-Andaluz.

No início do século IX, do qual nos ocupamos, os islamitas permitiam o exercício público da religião católica, com suas igrejas e mosteiros, contentando-se em cobrar um tributo de cada cristão. Assim, a Igreja vivia relativamente em paz sob os ocupantes

Foi nesse contexto que nasceu Santo Eulógio em Córdoba no início do século IX. Seus pais eram nobres e ricos, pertencendo à primeira nobreza hispano-romana, e se conformavam em tudo com a lei de Deus e da Igreja. Por isso deram aos filhos uma educação eximiamente católica para enfrentarem as más influências ariana, da parte dos visigodos, e muçulmana, dos árabes.

Em sua mocidade, Eulógio travou duradoura amizade com um rico burguês, cristão de origem judia, Álvaro Paulo (conhecido depois como Álvaro de Córdoba), como ele apaixonado pela ciência de Santo Isidoro de Sevilha, o grande santo e erudito espanhol do século VII. Álvaro escreverá depois, em 860, a vida de seu amigo (Vita vel passio Divi Eulogii).

Aos 25 anos Eulógio foi ordenado sacerdote, e integrou-se ao clero da igreja de São Zoilo, também em Córdoba. Passou então a dividir seu tempo entre a contemplação em algum dos mosteiros da região, e a cura das almas.

Álvaro de Córdoba assim descreve seu grande amigo: “Era um varão que sobressaía em toda linhagem de obras e merecimentos; que a todos socorria em proporção de suas necessidades, e que, avantajando a todos em ciência, tinha-se pelo menor entre os menores. Seu rosto era claro e venerável; sua palavra eloqüente, suas obras luminosas e exemplares. Escritor elegante e sapientíssimo, alentava os mártires e compunha seus elogios”.

Aconteceu então que, num auge de fervor, muitos católicos defendiam com ufania sua fé, maldizendo a Maomé e seus sequazes, obtendo assim a coroa do martírio. Foi quando entrou em cena o arcebispo de Sevilha, Recafredo. Por temor ou lisonja, entrou em composição com o emir, a quem diziam que devia o episcopado. O indigno prelado, a pedido dele, começou então a anatematizar os mártires, a quem chamava de “fanáticos” e “perturbadores da Igreja e da sociedade”; foi ele mesmo o causador da prisão do bispo de Córdoba e de vários de seus sacerdotes, entre eles Santo Eulógio, a quem acusava de dar ânimo e fortaleza aos mártires voluntários.

Abderramão, que temia uma revolução, tomou severas medidas contra os cristãos, mandando decapitar no ato quem se atrevesse a falar com desprezo de Maomé. O resultado, segundo o próprio Santo Eulógio, foi que “aterrados pela cólera do tirano, muitos mudaram de parecer com uma volubilidade inaudita, e começaram a maldizer os mártires”.

Depois de um tempo na prisão, o Santo foi liberto. No ano de 857 ele escreveu uma Apologética dos Santos Mártires, contra aqueles que negavam a palma do martírio aos heróis de Jesus Cristo que se ofereciam livremente a seus verdugos.

No ano seguinte, vagando a sé de Toledo, Santo Eulógio foi eleito arcebispo metropolitano pela admiração que já despertava em toda a Espanha. Diz Álvaro de Córdoba: “Mas Deus não tardou em pôr sobre sua fronte o ornamento do episcopado celestial; porque, se é verdade que nem todos os bispos são santos, pode-se bem dizer que todos os santos são bispos”.

O prestígio pessoal de Eulógio e sua dignidade de bispo eleito de Toledo, fizeram com que o próprio emir julgasse seu caso. O santo fez então longa e ardente defesa do cristianismo, e chegou mesmo a convidar seus juízes a adorarem “o único e verdadeiro Deus”. Foi o que bastou para que o condenassem à morte por decapitação. Álvaro de Córdoba exclama: “Este foi o combate formosíssimo do doutor Eulógio, este seu glorioso fim, este seu trânsito admirável. Eram as três da tarde de um sábado, 11 de março de 859”.

Santo Eulógio deixou um perfeito relato da doutrina católica ortodoxa, que defendia, da cultura intelectual, que propagava, do encarceramento e sofrimentos que sofreu, em uma palavra, seus escritos mostram que ele seguia à letra a exortação de São Paulo: “Sede meus imitadores como sou de Cristo”.

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