Por que tanto silêncio, Papa Francisco?

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Ontem postei a carta, original em castelhano, da senhora católica cubana, María Victoria Olavarrieta (professora de espanhol e ética), agora segue a tradução para o português, que foi feita por um colega jornalista, Hélio Diaz Viana, a quem agradeço o trabalho.

Dona María Victoria [foto] afirma ter escrito com dor na alma esta carta ao Papa Francisco. Afirma também ser católica, apostólica e romana, mas que dói demasiadamente o silêncio do Papa sobre as recentes manifestações do povo cubando contra a tragédia que há décadas se abateu sobre Cuba, com a tirania comunista dos irmãos Castro. Assim, ela quis falar pelos que não podem fazê-lo: “Hoje quero ser a voz das mães cubanas que estão vendo seus filhos passar fome, que não têm remédio; quero lhe apresentar a dor das avós cujos netos foram fuzilados gritando ‘Viva Cristo Rei!’, a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto de seu trabalho, e vivem mal, esperando as remessas enviadas por seus familiares do exterior”.

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A Sua Santidade Papa Francisco

Os católicos cubanos, desde que começaram os protestos em Cuba, estamos esperando que o senhor levante sua voz. Dói muito que, enquanto reprimem o povo que saiu às ruas pedindo liberdade, o senhor tenha palavras para felicitar o triunfo da Argentina na Copa América, fale dos resíduos plásticos nos mares, e não tenha feito uma oração em público pelas mortes, os detidos, os desaparecidos, e todos os que estão atemorizados em suas casas, em toda a extensão de nossa Pátria.

Nos mares de Cuba, Santidade, além de plástico, jazem os restos dos muitos cubanos que morreram afogados, tentando escapar da grande prisão em que os Castros transformaram meu País.

Nossa Igreja foi perseguida, ameaçada, vigiada, invadida pelos agentes de segurança do Estado. Neste momento temos um seminarista desaparecido, Rafael Cruz Débora. Se os bispos cubanos têm medo de falar, de se colocar ao lado do povo, eu os entendo, não sabemos as ameaças que lhes foram feitas; mas o senhor, com a imunidade que sua hierarquia lhe confere, pode falar e nos defender.

Ontem em Havana tentaram recrutar um jovem que já havia feito o serviço militar obrigatório, para treiná-lo a espancar os manifestantes. Entraram em sua casa, o ameaçaram na frente dos pais, e como o rapaz se recusou, fizeram-no assinar um texto dizendo que não iria aonde a Revolução precisava dele, e o advertiram de que, ao acabar tudo isso, iria preso.

Este episódio se passou ontem. Hoje eles estão sendo levados arrastados, sem lhes perguntar nada. Os pais com filhos em idade de fazer o serviço militar estão aterrorizados.

O senhor disse aos jovens: “Lutem por seus sonhos, mas sonhem em grande, não deixem de sonhar”. Os jovens cubanos que nasceram na ditadura e foram doutrinados, educados em escolas ateias, em uma sociedade de partido único, que cresceram — alguns comendo e se vestindo com as ajudas de seus familiares no exílio, e outros na miséria mais absoluta —, estão sonhando em ver seu país livre. O senhor os convidou a sonhar, e agora que os estão matando por gritarem seus sonhos, o senhor guarda silêncio! [soluços de dor e indignação]

O senhor pediu a seus pastores que tivessem cheiro de ovelhas. Dos sacerdotes cubanos que se colocaram abertamente ao lado do povo, alguns estão sendo espancados pela polícia, detidos e silenciados por seus bispos, que temem por suas vidas. E do assédio do governo aos bispos, o senhor, que é o Papa, deve saber mais do que eu.

Como lhes dói, Santo Padre, às religiosas e sacerdotes cubanos com os quais pude falar, e o senhor olha para o outro lado. Hoje uma freira cubana me dizia que não podia conceber que o senhor não tivesse algumas palavras para Cuba, neste momento em que o mundo inteiro fala sobre os abusos do regime. E muito baixinho, com a voz embargada pela dor, quase como falando consigo mesma, sussurrou: “Algum dia terá de se confrontar com o Senhor”.

Santidade, o senhor conhece a Mensagem da Virgem de Fátima. O comunismo deve ser muito ruim. Quando entre todas as coisas ruins que há no mundo, nossa Mãe quis deixar instruções de como podíamos evitar que esse mal se espalhasse pelo mundo.

Tive diversos alunos venezuelanos e vi o sofrimento de seus pais, porque o senhor guardou silêncio quando assassinavam os estudantes nas ruas de Caracas. As pessoas morrem de fome na Venezuela, e o senhor não condena publicamente os responsáveis.

O sangue correu na Nicarágua. O Papa fala de tudo, mas dos crimes dos ditadores e dessas três tiranias irmãs o senhor não opina.

Santo Padre, a Cristandade não precisa de um líder social nem de um diplomata; nós anelamos um pastor, uma pedra firme onde a Igreja possa sustentar-se! O Vigário de Cristo na Terra não deve discriminar suas ovelhas. As ovelhas vítimas dos regimes comunistas, sentimo-nos como se fôssemos suas ovelhas negras.

O senhor sempre pede que rezemos pelo senhor, eu lhe peço que reze para que não morram mais pessoas na Nicarágua, na Venezuela e em Cuba.

Teria gostado de lhe ter escrito em outro tom. Em todos meus artigos onde o menciono, sempre o defendi. Mas hoje quero ser a voz das mães cubanas que estão vendo seus filhos passar fome, que não têm remédio; quero lhe apresentar a dor das avós cujos netos foram fuzilados gritando “Viva Cristo Rei!”, a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto de seu trabalho, e vivem mal, esperando as remessas enviadas por seus familiares do exterior.

Apresento-lhe a tortura dos presos políticos; o ódio de irmão contra irmão que os Castros semearam; os idosos que viram partir a família que criaram, e morreram sem nunca mais verem seus filhos e netos!

Clama ao Céu que neste 13 de julho, ao mesmo tempo em que recordamos as crianças, mulheres e homens que morreram afogados no rebocador “13 de março”, que o governo cubano afundou em alto mar, tivemos de cuidar sem ter o quê, dos ferimentos que a polícia e seus cães causaram nos manifestantes pacíficos em muitas povoações e cidades de Cuba.

Nós, cubanos, nos sentimos abandonados à nossa sorte. Em 62 anos, não fomos capazes de nos libertar. Hoje estamos enfrentando um exército armado, sem líderes, e, até agora, órfãos do Papa.

Papa Francisco, perdoe-me se o ofendi, mas tive de escolher entre a respeitosa aquiescência devida a um bispo e a defesa das vítimas do comunismo. Dói-me que digam que o senhor é um papa comunista. O comunismo destrói a moral dos povos, sua religião, sua esperança.

Ontem, em Miami, quatro freiras Filhas da Caridade saíram às ruas para protestar junto ao povo, algumas delas idosas: Irmã Consuelo, do México, e Irmã Elvira, Irmã Reinelda e Irmã Rafaela, cubanas. Entre as pessoas ouvi dizer: “[Aqui] não há Papa, mas há freiras. Cristo está conosco!”.

Ajude-nos! Eu continuo rezando pelo senhor.

María Victoria Olavarrieta

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