Por maravilhosos desígnios de Deus, Margarida tornou-se rainha da Escócia. Requintou o esplendor das igrejas e  da Corte, sabendo admiravelmente aliar profunda piedade a muita firmeza.

Quando o rei da Inglaterra Edmundo II foi assassinado em 1017, Canuto II o Grande, rei da Dinamarca, aproveitou para concluir a conquista daquele país, do qual já tinha algumas províncias. E enviou para a Suécia os dois filhos do rei falecido, Edmundo e Eduardo, com o intuito de que lá fossem mortos. Mas o rei sueco não quis manchar suas mãos com sangue inocente, e mandou os dois órfãos para a Hungria, onde reinava o grande rei Santo Estevão. Este os recebeu com todo o afeto, e se encarregou de dar-lhes uma educação segundo seu nascimento.

Edmundo morreu no exílio, e Eduardo, depois cognominado “do Ultramar” ou “o Proscrito”, casou-se com Ágata, sobrinha do Imperador Santo Henrique e irmã de Gisela, esposa do rei Santo Estevão. Desse matrimônio nasceram três filhos, Edgard, Cristina e Margarida, esta em 1046.

O pai da santa faleceu em 1057, e seu filho Edgard tornou-se assim o herdeiro direto do rei da Inglaterra, voltando com suas irmãs para a Inglaterra. Sendo ainda menor de idade, e tendo nascido em terra estrangeira, colocaram no trono em seu lugar o Conde Haroldo.

Ocorreu então que Guilherme, o Conquistador, atravessou o Canal da Mancha em 1066, e invadiu a Inglaterra. Na batalha de Hastings, matou Haroldo, e se apoderou do trono inglês.

Para subtrair-se à tirania do conquistador, Edgard e Margarida, esta com 20 anos de idade, fugiram numa embarcação pretendendo chegar à Hungria, onde sabiam que seriam bem recebidos. Mas outro era o desígnio da Providência, e durante uma tempestade o barco foi atirado às costas da Escócia.

Nesse país foram bem recebidos pelo rei Malcolm III que, encantado com as qualidades de Margarida, propôs-lhe o matrimônio. Esta de há muito alimentava o desejo de, como sua irmã Cristina, fazer-se religiosa. Mas seu confessor fê-la ver como poderia auxiliar mais a religião subindo ao trono.

Assim realizou-se, no ano de 1070, o casamento e a coroação de Margarida como rainha da Escócia. Com 24 anos de idade, ela foi reputada a mais formosa princesa de seu século.

Deus abençoou seu matrimônio com oito filhos, seis homens e duas mulheres, todos educados na senda da virtude pela mãe. Com isso dois deles – uma filha, também Margarida, casada com o rei da Inglaterra; e um filho, Davi I, rei da Escócia – foram também elevados à honra dos altares.

Embora Malcolm fosse ainda um pouco rude, tinha entretanto muito boa índole e disposição para a virtude. Sobretudo amava ternamente a rainha e tinha nela uma confiança sem limites. Assim Margarida, por uma conduta cheia de respeito e condescendência, tornou-se senhora de seu coração; e serviu-se do ascendente que tinha sobre o rei para fazer florescer a religião e a justiça, procurar a felicidade dos súditos e inspirar a seu marido os sentimentos que o tornaram um dos mais virtuosos reis da Escócia. Ela amenizou seu caráter, cultivou seu espírito, poliu suas maneiras, e o inflamou de amor pela prática das máximas evangélicas. A rainha punha empenho nesse apostolado, pois não duvidava que a transformação e melhora dos costumes do povo dependiam em boa parte do exemplo do rei e da corte. Assim, toda a Escócia progrediu, tornando o reinado Malcolm num dos mais felizes e prósperos da Escócia.

Um dos cuidados de Margarida visando a santificação de seu povo, foi o de estabelecer em todo o reino sacerdotes virtuosos e pregadores zelosos. Convocou para isso um sínodo que, entre as muitas reformas instituídas por ele, regulamentou o jejum da Quaresma e a observância da Comunhão pascal, então quase desaparecidos, e a remoção de certos abusos concernentes ao casamento dentro dos graus de parentesco proibidos.

Segundo um hagiógrafo, Margarida era uma rainha “piedosa e varonil ao mesmo tempo. Cavalgava gentilmente entre os magnatas, tecia e bordava entre as damas, rezava entre os monges, discutia entre os sábios, e entre os artistas planejava projetos de catedrais e de mosteiros”.

A rainha procurou organizar a Igreja na Escócia. Em consequência, por seus conselhos, o reino foi dividido em dioceses com demarcação bem determinada. Foram criados cabidos nas catedrais com correspondente clero, e estabelecidas paróquias. Atraiu ordens religiosas, principalmente da França e da Inglaterra, com vistas a contribuir eficazmente para o incremento da vida litúrgica, pois desejava o esplendor para a Casa de Deus. Para isso, construiu igrejas magníficas e reformou outras, dotando-as do que havia de melhor para o serviço divino. Embora fosse muito pouco exigente para com sua própria pessoa, a rainha queria que a Corte fosse esplêndida, a fim de valorizar a autoridade real; que a nobreza se vestisse muito bem, e que os reis se trajassem com pompa. Protegeu também as ciências e as artes e fundou diversos estabelecimentos de cultura.

Essa santa rainha salientou-se sobretudo pela caridade para com o próximo. Em nossa época, em que tanta demagogia e pouco de concreto realmente se faz pelos pobres, o exemplo de Margarida da Escócia é paradigmático.

Diariamente servia com suas próprias mãos a comida a nove meninas órfãs e a 24 anciãos. Durante o Advento e a Quaresma atendia, com o rei – ambos de joelhos por respeito a Nosso Senhor Jesus Cristo em seus membros padecentes – a 300 pobres, servindo-lhes comida da mesa real. Também diariamente a rainha saía pelas ruas, sendo rodeada então por inúmeros órfãos, viúvas e necessitados de toda espécie, que clamavam: “Rainha Santa, socorrei-nos”, “Ó nossa mãe, assisti-nos”. E ela a todos socorria, mesmo que para isso tivesse que pedir também aos membros de sua comitiva algo com o que assistir àquela gente. Regularmente visitava os hospitais para socorrer os doentes pobres. Os devedores insolventes encontravam nela seu auxílio. Resgatava cativos, não só escoceses, mas de outras nacionalidades. Enfim, não houve miséria física ou moral que ela não tivesse socorrido.

Quando a rainha estava acamada em sua última doença, teve que passar por uma prova duríssima. Tendo o rei Guilherme, o Ruivo, da Inglaterra, invadido a Northumberland escocesa, Malcolm organizou um exército para a reconquistar. A rainha lhe pediu muito que não fosse pessoalmente nessa campanha, mas ele resolveu ir com seus filhos Eduardo e Edgard, julgando que o temor da rainha se devia à bondade de seu coração. O rei e seu filho Eduardo foram mortos na batalha, o que acelerou a morte da esposa, que faleceu no dia 16 de novembro de 1093, aos 47 anos de idade. Tornou-se padroeira da Escócia.

O Martirológio Romano Monástico diz dela neste dia: “No castelo de Edimburgo, no ano 1093, Santa Margarida, rainha da Escócia. Com grande consciência dirigiu a educação humana e cristã de seus muitos filhos, sem negligenciar os deveres de soberana que a levaram, juntamente com o marido, a sustentar a expansão cultural de seu reino”.

Deixe uma resposta