Antes de falarmos desse notável Santo, apenas alguns dados sobre Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja festa também hoje comemoramos. Uma das invocações da Mãe de Deus mais espalhadas por todo mundo graças à operosidade dos missionários redentoristas, essa devoção começou a ser propagada a partir de 1870, quando esses missionários receberam do beato Pio IX a guarda dessa imagem. Pintura em estilo bizantino do século XIII, chegou a Roma pelas mãos de um negociante, e ficou sob a custódia dos agostinianos até 1866. Em 1870, como dissemos, passou para as dos redentoristas. De semblante grave e melancólico, Nossa Senhora traz no braço esquerdo o Menino Jesus, ao qual o Arcanjo Gabriel apresenta quatro cravos e uma cruz. Ela é a Senhora da morte e a Rainha da vida, o Auxílio dos cristãos, o socorro seguro e certo dos que a invocam com amor filial.

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Cirilo nasceu no ano de 370 no Egito. Sobrinho e discípulo de Teófilo, Patriarca da importante e histórica sé de Alexandria, substituiu-o no cargo de 412 até 444.

Nessa Sé distingiu-se como escritor fecundo, e corajoso batalhador contra as heresias. Assim, um de seus primeiros atos foi mandar fechar as igrejas dos hereges novacianos. Ele também expulsou de Alexandria os judeus, que formavam florescente comunidade, mas que provocaram tumultos nos quais massacraram alguns cristãos.

Desse modo o santo governava com firmeza a sua Igreja no Egito, numa das épocas mais perturbadas da história da Igreja no Oriente, e na luta pela ortodoxia, sempre em submissão ao papa São Celestino.

Por causa da questão dos judeus, o antístite teve um litígio com o prefeito Orestes, durante o qual quinhentos monges desceram do deserto de Nitria para defender o Patriarca. No distúrbio que se levantou, Orestes foi ferido com uma pedrada na cabeça por Amônio, um dos monges. Em represália, mandou prendê-lo e o torturou até a morte. Cirilo honrou o monge assim executado como a um mártir.

Quando Nestório, patriarca de Constantinopla, começou a pregar sua heresia sobre uma única natureza em Nosso Senhor Jesus Cristo, a divina, negando assim a Nossa Senhora o título de Mãe de Deus – pois Ela seria somente a do “homem” Jesus – São Cirilo pregou o uso do termo Theotokus, Mãe de Deus, em sua carta de Páscoa aos monges do Egito.

Para o herege Nestório, a união da natureza humana com a divina, em Nosso Senhor, era uma indescritivelmente próxima junção, mas não uma união em uma hypostasis. Quer dizer, negava a união hipostática entre as duas naturezas.

Pelo contrário, São Cirilo ensina a união pessoal, ou hipostática, nos termos mais simples: Cristo tinha duas perfeitas e distintas naturezas, Divina e humana. Eis suas palavras, no Concílio de Éfeso: “O Emanuel tem certamente duas naturezas: a divina e a humana. Todavia, o Senhor Jesus é um só, único e verdadeiro filho natural de Deus, ao mesmo tempo Deus e homem, não um homem deificado, semelhante aos que pela graça se tornaram partícipes da natureza divina, mas Deus verdadeiro que para a nossa salvação apareceu na forma humana”.

Mas seus inimigos, deturpando o que ele ensinava, diziam que o Patriarca afirmava que a pessoa Divina de Jesus também sofreu, com sua natureza humana. Pelo que Cirilo era acusado de Apolinarianismo pelos seus detratores.

Entretanto, é para ele um título de glória o ter elaborado, nesta ocasião, uma autêntica e límpida teologia da Encarnação. Além disso, tem particular interesse na devoção a Nossa Senhora sua quarta homilia, pronunciada durante o Concílio de Éfeso – o célebre Sermão em louvor à Mãe de Deus, que é um importante exemplo de pregação mariana, e o início e rico florescimento de literatura em louvor da Virgem. Cirilo celebra as grandezas divinas da missão de Nossa Senhora, que é verdadeira Mãe de Deus, pela parte que teve na concepção e no parto da humanidade do Verbo feito carne.

São Cirilo era homem de grande coragem e força de caráter. Muitas vezes critica-se sua veemência natural, mas esta foi reprimida e educada, e ele escutou com humildade as severas advertências de seu mestre e conselheiro, Santo Isidoro. Pela defesa da ortodoxia, contra o erro de Nestório, bispo de Constantinopla, São Cirilo arriscou ser mandado ao exílio, e por alguns meses experimentou a humilhação do cárcere: “Nós — escreveu —, pela fé em Cristo, estamos prontos a sofrer tudo: algemas, cárcere, todos os incômodos da vida e a própria morte”.

Como teólogo ele é um dos grandes escritores e pensadores dos primeiros tempos. Apesar de os problemas que surgiram do Concílio de Éfeso, exatamente por causa de sua truculência, foram devidos mais à sua natureza impulsiva; mais paciência e diplomacia poderiam até mesmo impedir que a vasta seita nestoriana surgisse. Entretanto, o papa São Celestino tinha muita confiança nele, e pôs em suas mãos todo o problema com o nestorianismo.

São Cirilo de Alexandria foi sempre muito venerado na Igreja. Suas cartas, especialmente a segunda carta a Nestório, não foram aprovadas apenas pelo Concílio de Éfeso, mas por muitos conselhos subseqüentes, e têm sido frequentemente apeladas como testes de ortodoxia. Ao lado dos tratados estritamente doutrinais, temos dele 156 homilias sobre São Lucas, de caráter pastoral e prático, e as mais conhecidas Cartas pastorais, expressas em 29 homilias pascais.

Na riqueza e profundidade de seu tratamento filosófico e devocional da Encarnação, São Cirilo nos faz nele reconhecer o discípulo fiel do grande Santo Atanásio. Em sua firmeza no serviço da doutrina, e na coragem demonstrada na defesa da verdade católica, está a santidade do bispo batalhador bispo, embora tardiamente reconhecida, ao menos no Ocidente.

No Oriente ele sempre foi honrado como o maior dos Doutores. Sua missa e ofício como Doutor da Igreja foram aprovados por Leão XIII em 1883.

São Cirilo, consumiu-se em seus 32 anos de Arcebispado em Alexandria, e entrou na Igreja triunfante em 444 como Doutor da Igreja.

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