Prece do sesquicentenário

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    A Primeira Missa No Brasil, celebrada pelo franciscano Frei Henrique de Coimbra, no dia 26 de abril de 1500, na praia da Coroa Vermelha, Porto Seguro (Bahia). Óleo de Victor Meirelles, Museu Nacional (RJ).

    Ó Senhora Aparecida.

    Ao aproximar-se a data em que completamos um século e meio de existência independente, nossas almas se elevam até Vós, Rainha e Mãe do Brasil. Cento e cinqüenta anos de vida são, para um povo, o mesmo que quinze para uma pessoa: isto é, a transição da adolescência — com sua vitalidade, suas incertezas e suas esperanças — para a juventude, com seu idealismo, seu arrojo e sua capacidade de realizar.

    Neste limiar entre duas eras históricas, vamos transpondo também outro marco. Pois estamos entrando no rol das nações que, por sua importância, determinam o rumo dos acontecimentos presentes e têm em suas mãos os fios com que se tece o futuro dos povos.

    Agradecimento

    Neste momento rico em esperanças e glória, ó Senhora, vimos agradecer-Vos os benefícios que, Medianeira sempre ouvida, nos obtivestes de Deus onipotente.

    Agradecemo-Vos o território de dimensões continentais e as riquezas que nele pusestes.

    Agradecemo-Vos a unidade do povo, cuja variegada composição racial tão bem se fundiu na grande caudal étnica de origem lusa, e cujo ambiente cultural, inspirado pelo gênio latino, tão bem assimilou as contribuições trazidas por habitantes de todas as latitudes.

    Agradecemo-Vos a Fé católica, com a qual fomos galardoados desde o momento bendito da Primeira Missa.

    Agradecemo-Vos nossa História serena e harmoniosa, tão mais cheia de cultura, de preces e de trabalho do que de desavenças e guerras.

    Agradecemo-Vos nossas guerras justas, iluminadas sempre pela auréola da vitória.

    Agradecemo-Vos nosso presente, tão cheio de realizações e de esperanças de grandeza.

    Agradecemo-Vos as nações deste Continente, que nos destes por vizinhas, e que, irmanadas conosco na Fé e na raça, na tradição e nas esperanças do porvir, percorrem ao nosso lado, numa convivência sempre mais íntima, o mesmo caminho de ascensão e de êxito.

    Agradecemo-Vos nossa índole pacífica e desinteressada, que nos inclina a compreender que a primeira missão dos grandes é servir, e que nossa grandeza, que desponta, nos é dada não só para nosso bem, mas para o de todos.

    Agradecemo-Vos o nos terdes feito chegar a este estágio de nossa história no momento em que pelo mundo sopram tempestades, se acumulam problemas, e terríveis opções espreitam, a cada passo, os indivíduos e os povos. Pois esta é, para nós, a hora de servir ao mundo, realizando a missão cristã das nações jovens deste hemisfério, chamadas a fazer brilhar, aos olhos do mundo, a verdadeira luz que as trevas jamais conseguirão apagar.

    Prece

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    “Sois Vós a glória, Vós a alegria, Vós a honra deste povo que Vos ama”

    Nossa oração, Senhora, não é, entretanto, a do fariseu orgulhoso e desleal, lembrado de suas qualidades mas esquecido de suas faltas. Pecamos. Em muitos aspectos, nosso Brasil de hoje não é o País profundamente cristão com que sonharam Nóbrega e Anchieta. Na vida pública como na dos indivíduos, terríveis germes de deterioração se fazem notar, que mantêm em sobressalto todos os espíritos lúcidos e vigilantes.

    Por tudo isto, Senhora, pedimo-Vos perdão.

    E, além do perdão, Vos pedimos forças. Pois sem o auxílio vindo de Vós, nem os fracos conseguem vencer suas fraquezas nem os bons alcançam conter a violência e as tramas dos maus.

    Com o perdão, ó Mãe, pedimo-Vos também a bênção.

    Quanto confiamos nela!

    Sabemos que a bênção da Mãe é preciosa condição para que a prece do filho seja ouvida, sua alma seja rija e generosa, seu trabalho seja honesto e fecundo, seu lar seja puro e feliz, suas lutas sejam nobres e meritórias, suas venturas honradas, e seus infortúnios dignificantes.

    Quanto é rica destes e de todos os outros dons imagináveis a Vossa bênção, ó Maria, que sois a Mãe das mães, a Mãe de todos os homens, a Mãe Virginal do Homem-Deus!

    Sim, ó Maria, abençoai-nos, cumulai-nos de graças e, mais do que todas, concedei-nos a graça das graças: ó Mãe, uni intimamente a Vós este Vosso Brasil.

    Amai-o mais e mais.

    Tornai sempre mais maternal o patrocínio tão generoso que nos outorgastes.

    Tornai sempre mais largo e mais misericordioso o perdão que sempre nos concedestes.

    Aumentai vossa largueza no que diz respeito aos bens da Terra, mas, sobretudo, elevai nossas almas no desejo dos bens do Céu.

    Fazei-nos sempre mais amantes da paz e sempre mais fortes na luta pelo Príncipe da Paz, Jesus Cristo, Filho vosso e Senhor nosso.

    De sorte que, dispostos sempre a abandonar tudo para lhe sermos fiéis, em nós se cumpra a promessa divina do cêntuplo nesta Terra e da bem-aventurança eterna.

    Ó Senhora Aparecida, Rainha do Brasil! Com que palavras de louvor e de afeto Vos saudar no fecho desta prece de ação de graças e súplica? Onde encontrá-las, senão nos próprios Livros Sagrados, já que sois superior a qualquer louvor humano?

    De Vós exclamava profeticamente o povo eleito, palavras que amorosamente aqui repetimos:

    — Tu gloria Jerusalem, tu laeticia Israel, tu honorificentia populi nostri.

    Sois Vós a glória, Vós a alegria, Vós a honra deste povo que Vos ama.