Anne-marie-de-gonzague-de-clèvesQuando se quer descansar de uma forte preocupação ou de um trabalho intelectual muito exaustivo, poucas coisas são tão apropriadas como ler algo da História. Sobretudo se se trata da vida de uma princesa. O tema agrada, distende, ao mesmo tempo que forma o espírito e o transporta a um patamar mais elevado.

Mesmo porque, tudo quanto diz respeito a uma princesa tem repercussões de algum modo transcendentais. Que a vida de uma princesa passe por um terremoto moral, é causa de grande interesse. E, quem sabe, também de conversões.

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Ana de Gonzaga de Clèves, princesa palatina, nasceu em 1616.(1) Teve importante papel político na França durante a minoridade do Rei Luís XIV.

Ao ficar viúva em 1663, se bem que já tivesse 47 anos de idade, espantou a corte francesa pela licenciosidade de seus costumes e seu pouco caso para com a Religião. Ostentava não crer na Eucaristia nem na Igreja, e zombava da fé. Diz-se que chegou, por ódio, a queimar fragmentos do Santo Lenho.

Repetiam-se seus escândalos, até o momento em que uma graça fulminante a tocou e produziu nela uma conversão espetacular. Após sua morte, em 1685, Bossuet, o grande orador sacro do século XVII, pronunciou sua oração fúnebre, na qual nos conta detalhes impressionantes dessa maravilhosa conversão.(2)

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A princesa teve um sonho.(3) Relata ela: Estava “caminhando sozinha por uma floresta, quando encontrei um cego numa pequena cabana. Aproximei-me dele para perguntar-lhe se era cego de nascença, ou se assim se havia tornado por algum acidente. Ele respondeu que era cego de nascença.

Bossuet

Não conheceis, pois, disse eu, o que é a luz, que é tão bela e tão atraente, e o sol que tem tanto brilho e beleza? — Jamais gozei dessas belas coisas, disse ele, e não tenho nenhuma ideia de como elas são. Mas nem por isso deixo de crer que elas são de uma beleza esplendorosa”.

O cego pareceu então mudar de voz e de fisionomia, tomando um tom de autoridade: “Meu exemplo, disse ele, vos deve ensinar que há coisas muito excelentes e muito admiráveis que escapam à nossa visão, e que nem por isso são menos verdadeiras nem menos desejáveis, mesmo quando não podemos nem compreendê-las nem imaginá-las”.

Então, por uma súbita iluminação, a princesa se sentiu tão esclarecida “e de tal modo transportada pela alegria de haver encontrado aquilo que há tanto tempo procurava”, que não pôde impedir-se de abraçar o cego, cujas palavras lhe haviam revelado uma luz ainda mais bela do que aquela da qual ele estava privado. E prossegue: “Inundou o meu coração uma felicidade tão doce e uma fé tão sensível, que não há palavras capazes de exprimi-la”.

Ao despertar do sonho ela se encontrou de tal modo mudada, que tinha dificuldade em acreditar que havia passado por uma tão grande transformação: “Então, parecia-me sentir a presença real de Nosso Senhor na Eucaristia, mais ou menos como a gente vê as coisas visíveis, das quais não se pode duvidar”.

Passou assim da obscuridade à luz manifesta. As nuvens de seu espírito se dissiparam.

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Esse estado durou três meses, durante os quais ela não ousou chegar-se à Mesa Eucarística, devido à lembrança de seus muitos e graves pecados, dedicando esse tempo a preparar sua confissão sacramental. Aproximou-se, por fim, o dia tão esperado da comunhão.

Deus, porém, que é Pai de todas as misericórdias, é igualmente Senhor de todas as justiças. E após ter feito miraculosamente retornar ao aprisco aquela ovelha perdida, era necessário agora que a fizesse purgar uma vida transcorrida na ofensa ao Salvador.

Quando ela se julgava pronta para a confissão e a posterior comunhão, teve uma espécie de síncope, que a deixou sem cor, nem pulso nem respiração. Voltando, enfim, desse longo e estranho desmaio, viu-se lançada num mal ainda pior: após ter sorvido as angústias da morte, sofreu todos os horrores do inferno.

O confessor, chamado às pressas, viu-se obrigado a adiar a confissão, pois a encontrou sem forças, sem capacidade de aplicação e emitindo apenas balbucios.

“É impossível, para quem não as provou, imaginar as estranhas penas que atingiram meu espírito. Eu esperava a cada momento o retorno de minha síncope, ou seja, minha morte e minha danação eterna. Eu confessava não ser digna de uma misericórdia que tão longo tempo havia negligenciado; e dizia a Deus, em meu coração, que eu não tinha nenhum direito de me queixar de sua justiça; mas que –– enfim, coisa insuportável! –– eu não O veria jamais; eu estaria eternamente entre seus inimigos, eternamente sem amá-Lo, eternamente odiada por Ele. Eu sentia essa dor inteiramente destacada das outras penas do inferno”.

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Nisso ela vê uma galinha conduzindo seus pintainhos. Um deles, porém, afasta-se da mãe. “Ao mesmo tempo, parecia-me que eu via vir um enorme cachorro, extremamente horrível, o qual se aproximou do pintainho, e num instante o abocanhou. Corri imediatamente até ele, para lhe arrancar o pintainho; enquanto eu procurava abrir-lhe a boca, ouvi alguém que dizia: ‘Está feito. Ele já foi engolido’. — Não, disse eu, ele ainda não foi engolido.

Com efeito, parecia-me que eu abria a garganta do cachorro e dali retirava esse pequeno animal, que tomei entre minhas mãos para acalentá-lo; pois ele me parecia todo eriçado e quase morto. Ouvi ainda alguém que dizia: ‘É preciso devolvê-lo ao cachorro, pois ele ficará desagradado de que lhe tirem a presa’. – Não, respondi eu, não o devolverei jamais”.

Nesse momento, a princesa retornou do desmaio. E ouviu alguém que lhe dizia “Se tu, que és má, não queres entregar esse pequeno animal que salvaste, por que achas que Deus, infinitamente bom, vos entregaria ao demônio após te haver retirado de seu poder? Confia e tem coragem”.

Ela então sentiu como se um anjo lhe houvesse dito que Deus não a abandonaria, acompanhada daquela paz que supera toda inteligência.

A partir daí sua vida na corte foi extremamente edificante, até que uma dolorosíssima enfermidade a tomou e a conduziu ao termo da existência terrena. Suas últimas palavras, já moribunda, foram: “Eu me vou para ver como Deus me tratará; mas espero em suas misericórdias”.

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  1. Era filha de Carlos de Gonzaga, duque de Nevers, Rethel, Mântua et Montferrat, e de Catarina de Lorena. Desposou em 1645 o príncipe Eduardo, conde palatino do Reno, filho de Frederico V, duque da Baviera, passando a ser conhecida como princesa palatina. É o mesmo título com o qual ficou depois famosa sua sobrinha, Elisabeth Carlota, esposa do duque de Orléans, irmão de Luíz XIV.
  2. Bossuet, Oraison Funèbre d’Anne de Gonzague de Clèves, princesse palatine, in Oraisons Funèbres, Flammarion Éditeur, Paris, 1935.
  3. Os trechos entre aspas assim se encontram no texto de Bossuet, e reproduzem o relato deixado pela própria princesa por ordem de seu confessor, o famoso abbé de Rancé, reformador da Trapa.

2 COMENTÁRIOS

  1. Princesse Palatine, Anne de Gonzague de Clèves [1616-1684]

    « Le génie de la Princesse Palatine se trouva également propre aux divertissements et aux affaires. Maîtresse de ses désirs elle vit le monde, elle en fut vue. » [Bossuet]

    Voilà tout ce que je connaissait sur la Princesse. Je vois donc que M. Vivanco Lopes dépasse le grand Bossuet en matière de piété. Félicitations.

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