Exemplo de “quarta via”: Nosso Senhor, o ápice da Criação

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Comemoramos amanhã, 25 de março, a Anunciação do Arcanjo São Gabriel a Maria. Dos comentários do Prof. Plino extraímos um trecho que nos conduz, pela “quarta via“, à consideração de Nosso Senhor como o ápice da Criação.

“Se nós considerarmos o universo nós veremos que ele é constituído de maravilhas. Qualquer coisa do universo feita por Deus é uma maravilha: uma gota de água é uma maravilha, um passarinho é uma maravilha, uma pedra é uma maravilha. Mesmo certas coisas que nesta terra de exílio são feias como, por exemplo, as formigas, — a gente vendo por um microscópio são uns monstros entretanto, são maravilhas de organização, de sabedoria. Não só no modo pelo qual elas agem e que tem sido objeto de estudo de cientistas, mas também na constituição física que elas têm: como é o corpo delas, como é esse corpo adequado à sua finalidade, como é que existe, como é que morre, como é que vive, etc.”

“Em tudo do universo, nós mexemos um pouco e encontramos uma maravilha.”

Maior do que as distâncias estelares, o Homem-Deus reúne em Si e sublima as maravilhas do Universo. Rex regum et dominus dominantium.

“Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou reiEu para isso nascie para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade.” (Jo. 18-37)

Uma introdução à Quarta Via de São Tomás

São Tomás indica cinco vias fundamentais, que ele não pretende que sejam as únicas, para conduzir a mente humana à existência de Deus. A quarta dessas vias se baseia no fato de que toda criatura, pelo fato de possuir determinados predicados, esses por sua vez participam de predicados maiores, mais elevados, de um ser que os tenha em grau maior. E que essa gradação vai desde os seres minerais, passando pelos vegetais, animais, pelo homem e subindo até os Anjos. Por fim, Nossa Senhora e Homem-Deus.

Assim comenta o Prof. Plinio: Isso nós podemos dizer também das qualidades humanas. E então nós podemos dizer que ao longo da história a humanidade vai produzindo –- sobretudo quando moldada pela Igreja que limita nela os efeitos do pecado original e a leva para a mais alta santidade os homens que correspondem à graça, — nós podemos dizer que existe, que ao longo da história a humanidade vai destilando tipos perfeitos, disto, daquilo, daquilo outro, como virtude, como saber, como inteligência, como talento e tudo o mais.

A noção de arquetipia

“Assim, a criação deve ser vista como uma série de tipos que se escalonam uns aos outros e que tem como ápice, como ponto monárquico, um arquétipo. Este arquétipo que é o ponto monárquico, que é um arquétipo criado, existe ou em um determinado momento histórico existiu para dar a sua sustentação no ser a uma série de outros seres, — este arquétipo por sua vez tem a sua realização mais alta num Anjo.”

“Porque os anjos são arquétipos puramente espirituais das qualidades existentes na criação, eles o são por uma analogia mais próxima ou mais remota, mas todo o mundo dos anjos é um mundo de arquétipos dos quais uns anjos por sua vez são arquétipos de outros e isto chega assim até Deus Nosso Senhor, que é o fundamento de todo este jogo, de toda esta hierarquia de analogias e de participações porque Ele é perfeito.”

“Então, sempre que existe um predicado num determinado ser, este predicado participa de um predicado de um ser mais alto.

***

Como seria uma gota de água no Paraíso? Como seria uma taça de água no Paraíso?

“No Paraíso haveria taças ou haveria flores magníficas, à maneira de copos de leite, nos quais os homens beberiam?

“Estas são conjeturas às quais eu não me entregarei esta noite, mas que eu pretendo algum dia tratar, de mim para comigo, se Nossa Senhora  me conceder a graça de ler o Cornélio [a Lapide] antes de morrer. Faz parte dos muitos aspectos da doutrina católica que eu gostaria de conhecer.

“Uma coisa é positiva: é que Deus fazendo tantas maravilhas no universo, dificilmente se poderia compreender, ou seria talvez incompreensível, que Ele não coroasse todas as maravilhas com uma maravilha complementar.”

Lembramos, esse é o princípio da quarta via, adaptado pelo Prof. Plinio: através dos vários graus na Criação chegarmos à contemplação de Deus.

“Os senhores imaginam um joalheiro que tem um cofre cheio de jóias, um escrínio cheio de pedras preciosas. Mas essas pedras preciosas ainda não estão articuladas como jóias. Ele as esparrama sobre a mesa, acende sobre elas aquela lâmpada de joalheiro, tem por debaixo um lindo feltro para poder realçar a beleza e o valor de cada pedra e fica olhando… Fica encantado com todas essas pedras.

“Se ele é um joalheiro inteligente, se ele não é um mero espectador ininteligente das coisas, mais cedo ou mais tarde, lhe virá a idéia seguinte: como com essas pedras constituir um conjunto? São tão belas que elas merecem ser integradas num todo mais belo do que elas! Se as pedras são belas, a jóia na qual se encaixam as pedras  ainda são mais bonitas, porque o conjunto das coisas ordenadas é mais bonito que o puro monturo dessas coisas, o puro amontoamento dessas coisas; o conjunto é mais bonito do que as coisas desarticuladas; a ordem é um degrau a mais para o esplendor; a beleza propriamente dita decorre não só da beleza de cada parte, mas da ordenação com que todas as partes estão dispostas. Esta é a beleza das belezas.

“E o joalheiro inteligente não poderia deixar de dizer: “essas pedras são assim-assim-assim… Eu vou constituir com elas uma jóia…” Pensa… manda fazer a jóia. Ele estuda as pedras e diz: “no centro vai aquela brilhante magnífico que eu estou… Mas para que a beleza dessa jóia irradie mais, eu vou por daquele lado rubis, mais adiante safiras, mais adiante esmeraldas…” etc., e compõe lá, segundo um bonito desejo, toda a sua jóia.

“Uma vez composta essa jóia, se ele é um grande joalheiro que não tem hesitação, não tem contradição e que no primeiro plano já vê como é que tem que ser a jóia e executa, ele olha contente e diz: que bela jóia eu fiz! Manda vir um homem que tira uma fotografia daquilo e diz: diga ao ourives para me montar esta jóia. Não poupe ouro do melhor quilate, não ponha nem demais nem de menos e faça com que a beleza do metal complete a beleza das pedras. Ande e vá!

“Quando, dias depois, da parte do ourives  –  ou ele manda alguém ou vem ele mesmo com um lindo escrínio  –  abre: veludos; abre: sedas; abre: tira a jóia e entrega. Ele diz: Senhor, aqui estão as pedras que vós obtivestes, aqui está a jóia que vós pensastes, aqui está a beleza que minhas mãos vos entrega! Homenagem, homenagem, homenagem!

Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, arquétipo do gênero humano

“Ora, Deus tendo feito todas essas maravilhas que estão no nosso universo visível, era impossível que Ele não procurasse pôr uma ordem nessa maravilha. E ele pôs, como centro dessa ordem, o homem. E no homem, Adão e Eva. Mas depois a partir de Adão e Eva era intenção dEle que houvesse governando todas essas maravilhas que Ele tinha posto, governando houvesse, portanto, o gênero humano. Mas depois que o gênero humano tivesse homens que o governasse.

“Mas depois também que o gênero humano tivesse homens gradativamente mais perfeitos, mais perfeitos, mais santos, mais admiráveis e… no centro e no ápice um homem tão perfeito, tão inteligente, tão sábio, tão poderoso, que ele excedesse em beleza, em sabedoria, em virtude, em poder a todos os homens criados. Em torno deste homem se disporiam todas as perfeições do universo criado.

“A maior parte dos teólogos se inclina a crer que logo que Deus criou o gênero humano Ele teve como intenção criar esse homem. Mas a sua intenção foi tão alta, tão alta, que além de criar esse homem, ele quis para este homem algo de incomparavelmente maior, Ele quis que este homem ficasse colocado numa elevação tal que este homem fosse o Homem-Deus.

“E este homem Deus que algum dia deveria nascer, este Homem-Deus fosse como um hífen, como uma ponta de ouro ligando magnificamente o Céu e a Terra.

“Considerem todas as grandezas que a História apresenta; tomem todos os sábios (inclusive os verdadeiros sábios da Santa Igreja Católica), tomem todos os santos, tomem todos os potentados, todos os reis, todos os magnatas, tomem o que quiserem, todos os oradores, o que os senhores quiserem, somem tudo… como é que se pode comparar sequer de longe ao Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo?

“Homem-Deus, homem feito de carne e osso como nós, mas homem que está ligado à natureza divina de tal maneira que há duas naturezas nEle; uma humana e outra divina, formando uma só pessoa. Assim como nós, há a natureza espiritual, princípio espiritual e há na matéria o corpo que forma uma só pessoa, em Nosso Senhor Jesus Cristo, o homem e Deus forma uma só pessoa, o Homem-Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Todas as belezas do mar, todas as belezas do Céu, todas as belezas que estão nas entranhas da Terra, todas as belezas da variedade dos animais, da variedade das plantas, todas as grandezas e belezas que tiveram os homens de todos os tempos, tudo isso não eram senão sinais precursores  –   ou não são senão ecos que se voltam para trás para olhar aquele que fica no centro e no ápice da história, Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_19840324_FestadaEncarnacao_2.htm#.YFu0_q9KiMo

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

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