Irlanda: Plebicito a favor ou contra Cristo

a heroica atuação de grupos como os valentes jovens da Irish Society for Christian Civilisation, que lutaram com denodo pela boa causa nas praças públicas
Heroica atuação da Irish Society for Christian Civilisation, cujos voluntários lutaram com denodo pela boa causa nas praças públicas.

“Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento crucial da História, em que uma humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?” ─ indagava o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em sua célebre  Via Sacra[1], em 1951, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo entrava numa época de otimismo e gozo da vida.

Escolha por Cristo ou contra Cristo

Esta escolha por Cristo ou contra Cristo tem sido posta continuamente aos homens nestes últimos 60 anos, seja pela difusão do divórcio, do aborto, e agora pela “normalização”  da prática homossexual. E quantos foram os que escolheram ficar com Cristo, aceitando assim a perseguição, o ridículo, o ostracismo e o desprezo do mundo?

Infelizmente, mais uma vez, com o plebiscito que acaba de ser realizado na Irlanda sobre o “casamento” homossexual, a resposta foi contra Cristo, sendo a paródia de casamento aprovada por pouco mais de 60% dos votos.

Embora os termos do plebiscito fossem sobre a legalização do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, na verdade, o que estava em jogo era a escolha entre a Lei de Deus ou a sua rejeição e, portanto a escolha por Cristo ou contra Ele. Pois, como disse o Divino Mestre: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama.” (S. João 14:21). E ainda: “Quem não está comigo está contra mim” (S. Mateus:12,30; S. Lucas: 11:23).

Lei natural: inscrita no coração do homem

Com efeito, os Mandamentos da Lei divina, que o homem conhece não somente pela Revelação, mas também através da Lei natural inscrita em seu coração (cf. Romanos 2:14-15),  não são matéria optativa, que pode ser aceita ou rejeitada indiferentemente. Isto porque esses Mandamentos são fruto da sabedoria divina, de sua justiça, de sua santidade, e não podem ser rejeitados sem que se rejeite o próprio Deus. Essa rejeição constitui o pecado, a ofensa ao Criador.

Realidade evidente na natureza humana

Deus criou o homem e deu-lhe a mulher como companheira, e ordenou-lhes que tivessem filhos e enchessem toda a terra. É por isso que eles se unem em matrimonio e se tornam dois em uma só carne (Gênesis 1:28; 2:21-24).

Essa realidade é evidente na natureza humana, em sua anatomia e fisiologia, na sua racionalidade e afetividade. Por essa razão, o casamento, união natural elevada por Cristo à dignidade de sacramento, só pode ser entre um homem e uma mulher, única maneira de realizar a sua finalidade propria.

Luta heróica de um pugilo de católicos fiéis

O fato de uma nação de glorioso passado católico escolher contra Cristo em um plebiscito é sumamente trágico, mesmo que uma boa minoria tenha se mantido fiel na escolha certa. E não se pode deixar de ressaltar a heroica atuação de grupos como os valentes jovens da Irish Society for Christian Civilisation, que lutaram com denodo pela boa causa nas praças públicas, esclarecendo os indecisos e enfrentando os sarcasmos, e mesmo agressões, dos agitadores do movimento homossexual.

A propaganda maciça em favor do sim ao “casamento” homossexual recebeu apoio internacional, não só moral, mas também financeiro. Foi uma operação muito bem montada, tendo em vista não somente a Irlanda, mas, através do resultado obtido, influenciar outros países, em especial a decisão dos juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos, que vão se pronunciar sobre o assunto em junho.

A grande ausente

Só havia uma força capaz de contrabalançar o imenso lobby homossexual internacional,  apoiado pela esquerda política e cultural: a Igreja Católica. Se ela se tivesse lançado com coragem na luta, lembrando os princípios imutáveis da moral, mobilizando os fiéis, promovendo orações públicas, invocando com fé e fervor o Deus dos Exércitos, o resultado teria sido bem outro.

Mas, infelizmente, nem dos bispos irlandeses, nem de Roma, partiu essa mobilização em defesa fervorosa dos principios da lei natural e do Decálogo. Houve moleza, silêncio ou ambiguidade. Com poucas e honrosas exceções.

Pecado coletivo de uma nação

Com isso, o pecado coletivo de uma nação, com o apoio ou indiferença de todo o Ocidente ex-cristão, realizou-se por inteiro.

Esse pecado foi preparado por séculos de liberalismo moral e aceitação, cada vez maior, dos princípios igualitários, como expõe muito bem Plinio Corrêa de Oliveira em seu magistral ensaio Revolução e Contra-Revolução.[2] O delírio igualitário a que se chegou quer igualar o homem e a mulher a ponto de negar até mesmo a evidência física, os dados da biologia e da psicologia, criando a chamada teoria do “gênero”. O “casamento” homossexual, o “transgenderismo” são apenas consequências desse delírio.

Ora, aquele que peca, nos diz São João, pertence ao diabo (1 S. João 3:8). E com a aceitação de um pecado que brada aos Céus, como é o pecado contra a natureza, segundo a fórmula classica do catecismo, o poder do demônio vai aumentando sobre a humanidade apóstata.

Luta “contra as forças espirituais do mal”

Assim, a luta em defesa dos princípios da moral e contra a ditadura homossexual não é apenas uma luta entre homens: “mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Efesios 6:12).

Portanto, deve ser travada em dois níveis: no nível natural, contra os princípios igualitários e a sensualidade, e no nível sobrenatural, contra a ação diabólica.

“Resisti-lhe fortes na fé”

Mais do que nunca se torna atual e urgente o conselho de São Pedro: “Sede sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé” (1 S. Pedro 5: 8-9).

É preciso, pois, vigilância e oração (S. Mateus 26:41), coragem e combatividade; lançar mão de todos os meios naturais e sobrenaturais que o Criador pós à nossa disposição para a luta contra o poder das trevas.

“Tomai a armadura de Deus”

A vitória do demônio no plebicito em que estavam em jogo os próprios fundamentos da lei moral, e portanto da submissão a Nosso Senhor Jesus Cristo, não deve nos fazer abandonar a luta; ao contrário, o Apóstolo São Paulo nos exorta: “Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever.” (Efesios 6: 13).

Maria Santíssima esmaga a cabeça da serpente

Deus, em sua magnanimidade, usa, com frequência, de suas próprias criaturas, na luta contra o demônio. Foi assim que, fiéis à graça divina, São Miguel e seus anjos venceram  Satanás e os anjos revoltados na grande batalha no Céu: “Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (Apocalipse 12:9).

Do mesmo modo, Deus pôs uma total inimizade entre a mulher, isto é a Mãe do Redentor, e a serpente, de forma que, graças à Paixão e Morte de seu Filho, “ela esmagará” a cabeça da serpente (cf. Genesis 3:15 -Vulgata).

Na presente luta, recorramos, pois, à intercessão de Maria Santíssima a quem Deus conferiu poder sobre os espíritos das trevas. Confiantes na vitória prometida em Fátima: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará.”

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[1] Plinio Corrêa de Oliveira, Via Sacra, “Catolicismo” Nº 3, março de 1951, 8ª. Estaçao, cfr.: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/1951_003_CAT_Via_Sacra_CAT.htm

[2]Cfr.: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR.pdf.