Jeremias Statton

Em artigo recentemente publicado1, Frei Betto apóia a limitação do tamanho das propriedades agrícolas mediante plebiscito a ser realizado em setembro próximo2.

Antes de analisarmos as justificações ajambradas pelo autor, recordemos alguns aspetos da sua biografia, úteis para compreendermos a posição por ele assumida e, sobretudo, para entendermos a ideologia que está por detrás de tal plebiscito.

Frei dominicano, teólogo e adepto da Teologia da Libertação, Frei Betto não necessita de muita apresentação, eis que ativo militante dos movimentos pastorais e sociais, amigo pessoal de Fidel Castro e assessor especial do governo Lula e de diversos governos socialistas, especialmente do governo comunista cubano.

Ficou famoso, na segunda metade da década de 60, por acobertar o chefe guerrilheiro Lamarca, terrorista comunista então procurado pela polícia.

O pressuposto: ideário de uma sociedade pobre e igualitária

Esta brevíssima descrição biográfica de Frei Betto explica, indubitavelmente, a adesão do mesmo à ideologia marxista e sua obstinada luta pela implantação, no Brasil, de um regime sócio-econômico nela inspirado.

Em suma, Frei Betto faz parte daqueles que continuam a defender o socialismo como suposto meio de combater a pobreza e a desigualdade – na sua visão, inerentes ao regime capitalista e, portanto, inaceitáveis – mesmo após a derrocada e evidente fracasso do regime comunista soviético e de seus satélites, estando também escancarada a miséria do povo cubano, há décadas vitima de um comunismo o mais característico.

Propor um remédio comprovadamente fracassado para curar uma doença, que contradição gritante! Deles se poderia dizer que “nada aprenderam e nada esqueceram”; os “NA-NE”, que continuam a combater o capitalismo, aferrados ao marxismo e ao socialismo. Como se explica tamanha obstinação? Tamanha contradição?

Explica-se. A gritante contradição a que nos referimos acima é apenas aparente. De fato, os adeptos da Teologia da Libertação não pretendem erradicar a pobreza, eis que esta é um ideário a ser implementado com vistas à implantação de uma sociedade igualitária e miserabilista.

Nesse sentido, vale lembrar as palavras do ex-Bispo de São Félix do Araguaia, D. Pedro Casaldáliga, conhecido promotor da Teologia da Libertação, no sentido de que é preciso “assumir explicitamente a civilização da sobriedade compartilhada, frente ao consumismo egoísta3.

O próprio Frei Betto, ao retornar de uma de suas assíduas viagens a Cuba, ressalta que “viver em Cuba exige altruísmo, como viver em comunidade ou, por exemplo, num convento. O ‘nosso’ deixa pouco espaço para o ‘meu’ (…)4.

Assim sendo, tendo como pressuposto esse ideário de uma sociedade pobre e igualitária, acalentado pela Teologia da Libertação, analisemos, então, os argumentos apresentados por Frei Betto para justificar a limitação no tamanho das propriedades agrícolas.

O “biscoito lambido” agroreformista

A primeira justificativa para dita limitação é a suposta concentração da propriedade da terra. Afirma o supracitado autor: “O Brasil apresenta um dos maiores índices de concentração fundiária do mundo: quase 50% das propriedades rurais têm menos de 10 ha e ocupam apenas 2,36% da área do país.

E menos de 1% das propriedades rurais (46.911) têm área acima de 1 mil hectares cada e ocupam 44% do território (IBGE, 2006).” Mais adiante: “Diante desse quadro de grave desigualdade, não se pode admitir que imensas propriedades rurais possam pertencer a um único dono, impedindo o acesso democrático à terra, que é um bem natural, coletivo, porém limitado.5

Tal alegação não passa de um “biscoito lambido” agroreformista. Quase nos mesmos termos, figura ela em documento aprovado pela 18ª Assembléia Geral da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, realizada em 1980, com fulcro em dados do Censo Agropecuário de 19756. À época, esse argumento, entre muitos outros, foi amplamente refutado, tanto do ponto de vista moral, como econômico, em Sou Católico: posso ser contra a Reforma Agrária?7

Resumidamente, a obra em referência prova que, do ponto de vista social e econômico, essa distribuição da propriedade da terra nada tem de anormal, eis que característica de um regime baseado na propriedade privada e na livre iniciativa. Não parece supérfluo recordar que, nos regimes comunistas, a propriedade da terra – reformas agrárias aparte – acaba concentrando-se nas mãos de um único proprietário, qual seja, o Estado.

De fato, dados atualizados mostram que a concentração da propriedade da terra é relativamente alta nos países capitalistas.8

Continua …

[1]              “Plebiscito pelo limite da Terra”. Correio Braziliense, 13 de agosto de 2010.

[2]              Este plebiscito é promovido pelo Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo (FNRA), o Grito dos Excluídos e outras entidades afins, em conjunto com a CNBB. Ele propõe “à inserção de um inciso V no artigo 186 da Constituição Federal, estabelecendo que para cumprir a função social, a propriedade rural terá um limite de 35 módulos fiscais…” Site do Instituto Zequinha Barreto, Socialismo e Democracia. Declarações de Gilberto Portes, coordenador do FNRA a Karol Assunção, periodista da ADITAL.

[3]              VIOTTI, Frederico R. de Abranches. “A Teologia da Libertação e sua influência no País”. Catolicismo, Abril 2004.  Sob o sub-titulo Anticonsumismo miserabilista, o autor afirma: “Ao contrário do que possa parecer, a Teologia da Libertação não pretende erradicar a pobreza. Nas palavras do Bispo de São Félix do Araguaia, D. Casaldáliga, conhecido promotor da Teologia da Libertação, é preciso “assumir explicitamente a civilização da sobriedade compartilhada, frente ao consumismo egoísta”. (ADITAL, Reportagem Igreja da Libertação na América Central, 6-3-04). Mas adiante cita ao próprio Frei Betto: “Sobre esse tema, afirma Frei Betto: “Viver em Cuba exige altruísmo, como viver em comunidade ou, por exemplo, num convento. O ‘nosso’ deixa pouco espaço para o ‘meu’” (10. ADITAL, Frei Betto: Cuba resiste, solidariamente, 5-1-04).

[4]              VIOTTI, Frederico R. de Abranches. Op. Cit.

[5]              “Plebiscito pelo limite da Terra”. Correio Braziliense, 13 de agosto de 2010.

[6]              CNBB, Igreja e problemas da terra. São Paulo, Edições Paulinas, 1980. (Tópico No 8 )

[7]              CORREA DE OLIVEIRA, Plínio; DEL CAMPO, Carlos Patrício. Sou Católico: posso ser contra a Reforma Agrária? Editora Vera Cruz, 1981.

[8]              O índice de Gini é o indicador mais usado para medir o grau de concentração de uma determinada distribuição. O índice varia entre 0 e 1. A maior valor maior concentração. Considerando alguns países mais representativos, segundo a FAO ( Table 1: Number and área holdings, and Gini’s índex of Concentration: 1990 Round of Agricultural Censuses) seus respectivos valores do índice de Gini seriam os seguintes: EEUU – 0,74; Canadá – 0,64; Argentina – 0,83; Brasil – 0,85; Paraguay – 0,93; Peru – 0,86; Portugal – 0,78; Espanha – 0,86.

10 COMENTÁRIOS

  1. A VERDADE (EXISTENTE?) AOS OLHOS DO MARXISTA E DE UM TEÓLOGO DA LIBERTAÇÃO

    Assisti, agora há pouco, a uma aula do curso “Marxismo Cultural”, do Padre Paulo Ricardo, que, sem meias-palavras, desmascara qualquer tentativa dos “teólogos libertadores” em aniquilar o cristianismo e em moldá-lo em um pensamento de viés ideológico. Sem sombra de dúvidas, foi a melhor aula de história do marxismo que eu tive a oportunidade de ver. Mais detalhes nos links abaixo:

    https://padrepauloricardo.org/…/teologia-da-libertacao-e-su…
    http://pt.aleteia.org/…/revistando-a-teologia-da-libertacao/

    Para os teóricos marxistas, a verdade não existe e, portanto, eles procuram justificar suas ideias a partir da “práxis” histórica. São imanentistas de primeiríssima e são especialistas em dizer que só a revolução poderá salvar o povo por meio da destruição de uma religião. A máxima consagrada (não sem razão) pelos esquerdistas e demais signatários da corrente é aquela que afirma que “a religião é o ópio do povo”. Por outro lado, a ótica marxiana (forma de pensamento de Karl Marx) reforça que, para que o mundo faça sentido, faz-se necessário romper com a tradição, para modelar a sociedade num processo de engenharia social. Daí a propaganda grotesca do mundo melhor, da sociedade sem classes e da utopia do mundo “perfeito”.

    Não é nada incomum quando se pensa o mesmo dos ditos “teólogos” da libertação. Em verdade, a dita teologia não passa de uma ideologia, visto que usam várias ideias para justificar suas práticas e contradizer o que pensam e o que sentem. Não passa de uma corrente de pensamento para moldar católicos heréticos e aliená-los em nome de um dogma que foi fundamentalmente levado a cabo por seus séquitos como Gramsci, Lênin, Stálin e Kerensky. Por causa de um objetivo maior (Revolução Cultural), os revolucionários “teólogos” hesitam em ir de encontro à Tradição para distorcer a Sã Doutrina e manipular as pessoas já fragilizadas pela relativização e degradação morais.

    Em suma: tanto o Marxismo e a Teologia da Libertação (ideológica) têm a mesma essência, que é a de promover a revolução por meio da aniquilação da religião e supressão dos valores morais, levando o mundo a uma condição sem classe nem ordem natural. Servem ao deus-Estado ao invés de cultuar o monoteísmo (crença em um único Deus), que o interpretam como uma “ameaça” iminente.

  2. Frei Beto é um representante austero do DIABO. É o próprio SATÃ infiltrado na religião com intenções malévolas de destruir o catolicismo ou o cristianismo de dentro da instituição. Só que DEUS sabe muito bem que é esse ENÉRGUNEMO e já preparou o seu destino.
    Caso essa “legião” queira mudar seu destino, é preciso ARREPENDER-SE. Ainda há tempo.

  3. Esta polemica não pode parar devido a alta gama de reflexões que apresenta. E nesse meio todo temos o nosso povo como maça de manobra, uma vez como foi citado pelo comentarista acima acertadamente: “Mas, no Brasil, os trabalhadores, em geral, caíram na falácia socialista, consciente ou inconscientemente; e os empresários, numa constante da história, não abrem a boca enquanto continuam ganhando muito dinheiro (à base de intervencionismo estatal, é claro…)” É a eterna dialética que Karl Marx salientou, entre capital e trabalho, quando o trabalhador virar patrão irá proceder tal e qual procedeu com ele o patrão. Nesse embroglio se encontra o capital em que quem tem mais tem mais poder, e aí as ideologias seguem aos conflitos sociais.
    Uma vez ouvi de um Bispo a seguinte palavra em sua homilia: Todos estão sedentos por falta de água. Alguém diz em alto e bom tom – eu sei onde tem água para todos”. Dizia o Sr. Bispo, “é uma boa noticia, mas como levar o povo sedento e enfraquecido até a água ou a água até o povo?”

  4. Se concentração de terras na mão de poucos é ruim por que dar tanta terra para pouco indio? Veja o que aconteceu lá em Roraima. Com 1,7 milhão de hectares a Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol concentra cerca de 8 mil índios.

  5. Prezados articulistas de tais analises criticas da tematica em tela

    A bem da verdade e bom senso sem ser superficial e sem faltar com a imparcialidade
    necessária diante dos fatos protagonizados por tal douta celebridade e seus colegas
    da CNBB, deduz-se çogicamente na analise fria e insenta de paixões politicas partidaria e de vies ideologico dito marxiista socialista (sic) que:

    Indubitavelmente a mesmice pseudo teologica e visão miope do que seja economia de mercado do agronegocio em termos pragmáticos e globais, nao isenta a seus proselitos e defensores da tão decantada TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, de serem os artifices da debacle que se instalara na relação economica campo-cidade e toda cadeia de produção, incluindo a ausencia gritante de infraestrutura em grande parte do territorio nacional para escoamento da produção agricola mesmo se aprovada a limitação o tamanho de propriedades agricolas em tal referendo publico.

    Que nos levara a crises de abastecimentos e suas tragicas consequencias que ocorrem atualmente na vizinha Venezuela sob dominio de tais adeptos de tais decadentes ideologias ditas sociais sob égide de incensados ditos “intelectuais de escol” de tal neo teologismo financiado por interesses e recursos obscuros vindos do exterior, para que o dominio subrepticio de tais amantes e sedentos do PODER temporal se perpetuem ad eternum no ambito politico social travestidos de pseudos defensores do bem social.

    Esta é a triste e lamentavel realidade dos fatos! Pagaremos certamente o duro PREÇO economico. financeiro e social com sangue, suor e lagrimas,pois a historia sempre se repete de tal incuria protagonizada por tais artifices amorais que defendem tal malfadada Teologia da Libertação!

    Alias condenada pelo saudoso Papa João Paulo II e colegiado cardinalicio do Vaticano na ocasião historica quando impediu duramente a infiltração de tais ideologias alheias ao papel a Santa Madre Igreja.

    MEA CULPA, NOSTRA MEA MAXIMA CULPA!!

  6. Limitar a propriedade é limitar a liberdade do indivíduo.

    Sendo o homem dono de si mesmo, ele também é dono de seu trabalho e, por conseguinte, daquele honrado pecúlio que guarda das despesas cotidianas: aí nasce a propriedade.

    O grande escritor e publicista que foi Plínio Salgado, em vários discursos na Câmara dos Deputados, reiterava que o Estado é criação da Nação, e não o contrário, como se dava nos totalitarismos comunista e nazista; que a Nação criava o Estado a fim de viabilizar a sua própria sobrevivência. De modo que não era da alçada do Estado aqueles elementos constitutivos da nacionalidade, a saber: a família (primeiro grupo natural), a propriedade (fruto do trabalho do homem) e a Igreja (aspiração primeira do homem). Como se vê, tudo isso faz parte da doutrina social da Igreja Católica.

    Os próprios trabalhadores, ademais, deveriam ser os primeiros a defender a propriedade particular, a livre iniciativa e a livre empresa, além de uma redução drástica da carga tributária, como elementos indispensáveis para o desenvolvimento econômico e social. Será que eles não vêem que incentivar a iniciativa privada é gerar mais empregos e, portanto, favorecer o acesso à propriedade? Vejamos o que diz o Santo Padre João Paulo II, em memorável encíclica:

    “42. Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso económico e civil?

    A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por «capitalismo» se indica um sistema económico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de «economia de empresa», ou de «economia de mercado», ou simplesmente de «economia livre». Mas se por «capitalismo» se entende um sistema onde a liberdade no sector da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloque ao serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é sem dúvida negativa.”

    http://www.vatican.va/edocs/POR0067/_INDEX.HTM

    É uma bela e inteligente atualização dos ensimentos dos papas, de Leão XIII a Paulo VI.

    Capitalismo, sim; mas… o que é capitalismo?

    Os totalitarismos comunista e nazista nos quiseram passar uma imagem equivocada da economia de mercado.

    Antes de mais, capitalismo é, única e exclusivamente, um sistema econômico; não é nem uma doutrina política (como a praga do liberalismo), nem um regime político (como a sempre viável democracia), nem uma cultura, e nem tampouco um valor em si mesmo.

    Como deixa claro João Paulo II, o capitalismo só é viável com um sólido arcabouço jurídico e institucional e, sobretudo, só funciona dentro de valores intelectuais, morais e religiosos rigorosa e firmemente cristãos.

    Mas, no Brasil, os trabalhadores, em geral, caíram na falácia socialista, consciente ou inconscientemente; e os empresários, numa constante da história, não abrem a boca enquanto continuam ganhando muito dinheiro (à base de intervencionismo estatal, é claro…)

    Como já disse o filósofo Olavo de Carvalho, “só quem não gosta de concorrência são os comunistas ou o David Rockfeller”; nesse caso, “concorrência” não é dar uma rasteira no outro pra se dar bem na vida, mas unicamente oportunidade para todos (meritocracia, melhor dizendo).

    Foi o que fizeram os nossos bravos militares, a despeito de seus muitos equívocos, de 1964 a 85 (com exceção do pestilento Ernesto Geisel, verdadeiro antípoda de Caxias), bem como Reagan nos Estados Unidos (que, de tal forma reduziu a carga tributária, ao ponto de a arrecadação aumentar), a Dama de Ferro na Inglaterra, o General Pinochet no Chile e, com variantes, o presidente Salazar em Portugal.

    Quem o fará no Brasil? Um Dutra melhor acessorado? Ou o primeiro-ministro de nossos futuros reis, D. Luiz e D. Bertrand?

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