O mártir chouan

Combatentes chouans aguardando para atacar as tropas de Napoleão

Pierre Michelot retornava de uma longa jornada junto à tropa dos chouans1 de Ille-et-Vilaine.

Muito jovem ainda, e no vigor da idade, medira em toda a sua extensão, a maldade intrínseca da Revolução — a mesma que prometera a “liberdade” aos franceses. Como outrora os irmãos Macabeus, de sua alma partira o grito de indignação: “É preferível morrer no combate, a ver nosso povo perseguido e nosso santuário profanado”.2

Assassinado o Rei Luís XVI — pai de seu povo — e perseguidos os verdadeiros pastores, destruídos os templos onde se adorava o verdadeiro Deus, não lhe restava senão lutar sem tréguas contra os celerados que pretendiam arrancar do fundo da alma dos franceses a fé neles infundida por séculos de ação benfazeja da Igreja.

Toussaint du Breil, visconde de Pontbriand

Alistara-se na tropa de Monsieur de Pontbriand, senhor das terras de Princé, seu vilarejo natal. E depois de várias semanas de uma guerrilha sem quartel às forças revolucionárias, retornara furtivamente à casa paterna para rever os seus e curar-se das feridas da luta.

Entretanto, os bleus3, servidos por uma vasta rede de informantes — muitos deles, hélas, traidores da boa causa —, ao saberem de sua presença logo sitiaram a casa, apoderando-se não só dele, mas de toda a família e criadagem.

O jovem é, então, longamente torturado4, sendo seus pés assados sobre as brasas que ardiam na chaminé; tão logo ameaçava desfalecer, era reanimado para continuar a sofrer.

Para os carrascos a cena perderia todo o seu tétrico sabor, se o pai e a mãe do pobre rapaz, bem como todo o pessoal da casa, não fossem obrigados a assistir ao bárbaro espetáculo.

A defesa de Rochefort-enTerre – Alexandre Block, 1885. Museu de Belas Artes de Quimper, na Bretanha (França).

Durante as seis horas que durou o suplício, o jovem chouan não cessava de repetir: “Meu Deus, meu Deus, é por Vós que tenho lutado, é por minha religião! Meu Deus, tende piedade de mim! Jesus, Maria, José, eu Vos ofereço meus sofrimentos.”

Ao amanhecer, uma ideia sacrílega vem à mente dos verdugos. Não longe dali, no caminho de Dompierre-du-Chemin, elevava-se uma cruz que a sanha laicista da Revolução não tivera tempo de abater, e que fora certamente erguida pelo zelo apostólico de São Luís Maria Grignion de Montfort ou de algum de seus companheiros. Um soldado mais exaltado sugere, em tom sarcástico: “Este bandido5nos fatigou a noite inteira repetindo que combatia por seu Deus. Que ele morra, então, como seu Deus! Crucifiquemo-lo!”.

O supliciado é então levado até o calvário, e logo começam os preparativos para cravá-lo na cruz, a despeito das súplicas dos parentes aí arrastados para presenciar a execução. Não fosse a chegada de um oficial republicano, que ordenou o imediato fuzilamento do chouan, tê-lo-iam crucificado.

Representação de um chouan

Uma hora mais tarde, chegavam a toda pressa Monsieur de Pontbriand e sua tropa, encontrando o cadáver atado à cruz. Não podiam crer no que seus olhos viam…

Perderam assim um devotado e fiel companheiro de tantas batalhas. Mas, com seu martírio, patenteou-se ainda mais para eles a maldade daquela Revolução, mascarada sob a idílica trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade. E cresceu a certeza da santidade da luta a que se tinham consagrado.

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Na atualidade, também vivemos sob o tacão de uma Revolução ateizante. Seus métodos não são — ao menos por ora… — principalmente os cruentos; sua maldade, entretanto, não é menor. Com o uso de possantes “anestésicos”, vem ela arrancando do Ocidente ex-cristão o que ainda lhe resta do seu mais precioso bem: a verdadeira Fé.

Que nosso mártir obtenha para os que resistem bravamente como ele ao cetro diabólico dessa Revolução, a convicção da santidade da causa que defendem e a certeza da vitória!

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Notas:

  1. Nome dado aos camponeses do noroeste da França que se levantaram em armas contra a Revolução Francesa.
  2. I Mc 3,59.
  3. Os soldados revolucionários eram assim denominados em alusão à cor azul predominante em seu uniforme. Os contra-revolucionários, dada a cor de seu estandarte, eram “les blancs”, os brancos.
  4. Fato narrado por Anne Bernet, em seu livro Histoire Générale de la Chouannerie (Paris: Éditions Perrin, 2016, p. 440-1). O nome atribuído aqui ao personagem é fictício; a história parece não ter registrado seu nome real.
  5. Os revolucionários chamavam os chouans de brigands (bandidos), para desprestigiá-los junto ao povinho. Por esta narração, vê-se quem é o verdadeiro merecedor de tal título…