Marshall Berman
Marshall Berman, autor marxista que apregoava a Revolução cultural. Ele escreveu o livro “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

Pense comigo, leitor. É uma lei da natureza que tudo aquilo que se desenvolve, à medida que progride, se diferencia. Por isso, diferenciação e desenvolvimento são termos correlatos.

A marcha da semente à árvore florida e depois cheia de frutos é a marcha da diferenciação. As sementes de uma mesma espécie se confundem, mas as árvores já formadas, a produzir flores e frutos, são nitidamente diversas umas das outras.

Assim sucede com todos os seres vivos. Marcadamente com os animais superiores. De maneira exponencial com os homens.

Mas o homo sapiens, trabalhado pela revolução cultural hodierna, mergulhado no pirão indiferenciado do belo e do feio, da verdade e do erro, do bem e do mal, das religiões, das pátrias e até dos sexos, vai aos poucos se transformando, por assim dizer, no maior dos invertebrados. Pois, para ele, cada vez mais, “tudo o que é sólido se desmancha no ar” (1).

De prazer em prazer, de bocejo em bocejo, o homem moderno vai afundando numa versão hodierna da massificação. Sua personalidade se deteriora. É o avanço do narcisismo, que em alguns casos vai atingindo as fronteiras do autismo. Pelo menos de um autismo publicístico e metafórico, não clínico (2). Embora não perca todo contato com a realidade, o neo-autista quase não presta atenção nela, preferindo refugiar-se na admiração beata de si mesmo ou da mídia.

Se até a simples descrição desse estado de alma causa mal-estar, como será sentir-se a si mesmo como um conjunto de “retalhos que não se fundem num todo”, e apalpar – por assim dizer – em sua própria alma a apatia, o desencanto, a melancolia?

Alguém poderia objetar: isso não é bem assim. Em comparação com as outras épocas, há não só perdas, mas também ganhos. Basta considerar as proezas da técnica, da Ciência, da Medicina, etc. A “expectativa de vida” do homem é hoje muito maior do que antigamente. Portanto, pelo menos debaixo desse ponto de vista, a Humanidade vem progredindo.

Mas, e o homem enquanto tal? Ainda que o aumento da “expectativa de vida” fosse fato incontestável, ele nada provaria, pois se está falando da natureza humana, da força da personalidade, da inteligência, do equilíbrio psíquico e emocional, e não de aparência, saúde física, longevidade e aspectos congêneres..

Uma primeira conclusão – inevitável – é que no Século XX o gênero humano não avançou, mas retrocedeu. E o século XXI vai acentuando esse mesmo processo.

Muito pessimismo? Pessimismo e otimismo, de certa forma, constituem visões preconceituosas da realidade. É preciso olhar a verdade de frente, sem contaminarmos a límpida percepção dela com nossos desejos (3). E quanto a achar que “no fim, tudo dará certo”, às vezes não é fácil separar essa crença de uma superstição…

Não parece que a análise contida neste artigo seja mal-humorada. Simplesmente, ela não recusa a realidade. E a realidade, vista no conjunto, hoje por hoje, não é promissora, ainda mais no Brasil depois das recentes eleições. Mas Nossa Senhora prometeu em Fátima: por fim meu Imaculado Coração triunfará. E como disse certa vez Dr. Plinio: “E triunfará mesmo!” (4).

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1. Título de um livro de Marshall Berman de 1982.

2. Narcisismo: admiração de si próprio, atenção exclusiva sobre si mesmo (Larousse Cultural, Nova Cultural, São Paulo, 1998). Autismo: desenvolvimento exagerado da vida interior e perda de todo contato com a realidade (Garnier-Delamare, Dicionário de termos técnicos de medicina, 20ª ed. – Org. Andrei Editora, S. Paulo, 1984).

3. Existe no inglês a expressão wishfull thinking: um pensamento cheio de desejos. Trata-se de uma fraqueza a evitar, sobretudo nos assuntos importantes.

4. Discurso no encerramento da VI Semana de Estudos de Catolicismo, 1958.

3 COMENTÁRIOS

  1. Excelente, seu artigo, Sr. Leo Daniele!
    Quanto mais o homem buscou a si mesmo, mais ele se perdeu de si Próprio!
    Lacunas foram criadas dentro de si, verdadeiras fendas que não mais consegue eliminar.
    Penso que só a volta para Deus, permitirá que ele se centralize, novamente.
    Mas, os efeitos do mal que causou a si e aos seus iguais, sempre serão sentidos e exigirão seu enfrentamento constante!
    valeu! Obrigada!

  2. Deus deixa que as guerras existam para reciclar as culturas.
    A eficácia de uma cultura é a guerra.
    Logo veremos que cultura irá ganhar a próxima guerra.
    Sinceramente não acredito no ocidente.

  3. Muito interessante, deveras interessante esse artigo.
    Os homens de grande pensamento, santos em sua vida, quando conversavam entre si assuntos de observação primária, iam tratando desses assuntos, tirando dos próprios temas, respostas para suas indagações, que via-de-regra, eram solucionados na “presença de Deus”. Para quem não tem Fé, e, pior, tripudia sôbre ela, não há solução para nada. Vemos na História muitos exemplos disso.
    O problema é esse que nós vemos o articulista nos mostra bem, não há como não vê-lo, e não ver suas gravíssimas implicações.
    Qual a solução ? O articulista aponta, a Promessa de Nossa Senhora de Fàtima – Ela mesma falou desta Catástrofe caso o mundo não se convertesse, (e não se converteu), Ela mesma prometeu: “Por fim, Meu Imaculado Coração Triunfará”. Plínio Corrêa de Oliveira, um varão de Fé, que sempre viu, e nos ensinou a ver, a realidade tal como ela se apresenta, confirma : ” E triunfará mesmo”.
    O “por fim” da Promessa sugere um tempo de prova duríssima ,,,.(Perdoe-me o tamanho do texto).

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