Em Moscou, Putin inaugura a maior mesquita da Europa
Em Moscou, Putin inaugura a maior mesquita da Europa

A Rússia não só não dispõe dos recursos necessários para realizar o sonho imperial de Vladimir Putin – que já foi o da ex-URSS –, como carece dos meios para se sustentar em prazo médio.

Nessa contingência, nada poderia haver de melhor para o dono do Kremlin do que a Europa ser devorada por atritos internos – sociais culturais e religiosos – mais ou menos insolúveis.

Esta interrogação não implica que Putin inventou as causas da migração em massa.

Mas leva a perguntar se ele não as está exacerbando com vistas a debilitar – e quiçá, no futuro, submeter – o continente europeu, com mais um engenhoso estratagema de guerra híbrida.

Pela Europa Central – Ucrânia, Países Bálticos, Polônia – não deu certo. Era necessário outro frente e outras vestes. Pois não poderiam ser de novo os “homens de verde” que ocuparam a península da Crimeia. Isso já é conhecido demais.

O Kremlin precisava de uma outra estratagema de desconcertar os “quadrados” ocidentais. No contato pessoal com amigos russos de Moscou fiquei surpreso e muito agradado, constatando que o russo sob certos pontos de vista – não todos – é muito parecido com o latino-americano e com o brasileiro em especial.

Eu me dizia a mim mesmo: “estou falando com brasileiros!”. Mas, logo depois, a língua e certas saídas psicológicas me levavam a outra conclusão.

Numa coisa somos quase idênticos: a capacidade infinita de improvisar. De criar um jogo diverso que desconcerta o adversário, e até jeitosamente.

Resumindo, quando aconteceu a entrada súbita do exército russo no conflito sírio os sisudos analistas de Berlim, Londres e Nova York ficaram tecendo hipóteses no ar, aparentemente muito lógicas, mas enormes torres Eiffel do pensamento construídas nas nuvens.

Putin sai do ostracismo e volta ao cenário como 'Carlos Magno' salvador, e da mão do socialista Hollande.
Putin sai do ostracismo e volta ao cenário como ‘Carlos Magno’ salvador, e da mão do socialista Hollande.

Depois de alguns dias, começaram a chegar as notícias de que a entrada russa no conflito foi de um modo que não contribui para dar a vitória a facção alguma em luta. Depois apareceu caotizando essa luta. Caos esse que estimula ainda mais os sofridos cidadãos da Síria a fugirem para a Europa.

Pelos menos quatro mísseis disparados do Mar Cáspio pela Rússia contra território sírio, caíram no Irã, que na teoria é aliado de Moscou na defesa do regime de Bashar al-Assad, noticiou o jornal parisiense “Le Figaro”.

A Rússia diz que sustenta ofensivas do regime de Bashar al-Assad em várias frentes contra o execrável Estado Islâmico.

Mas, eis que seus bombardeios aéreos visam grupos moderados de oposição ao regime de Damasco e provocam a morte de civis alheios ao conflito, segundo a agência Euronews.

Além do mais, o procedimento militar russo visa objetivos que não são os declarados oficialmente.

“Vemos que a Rússia está testando na Síria algumas de suas armas mais modernas”, além de realizar uma impressionante movimentação militar, disse osecretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, em entrevista coletiva na sede da Aliança Atlântica, noticiou o site Terra.

Tinha escrito que o atabalhoamento da ação russa violando o espaço aéreo dos vizinhos pode provocar acidentes ou atritos com as forças ocidentais. E isso só favoreceria a confusão e a ampliação do conflito.

Todo o bombardeio oficialmente foi contra o Exército Islâmico. Foto do Ministério de Defesa russo.
Todo o bombardeio oficialmente foi contra o Exército Islâmico. Foto do Ministério de Defesa russo.
Mas muitas bombas caiam nos inimigos do Estado Islâmico. Na foto, socorristas da Defesa Civil da Síria percorrem locais bombardeados pela Força Aérea da Rússia.
Mas muitas bombas caiam nos inimigos do Estado Islâmico. Na foto, socorristas da Defesa Civil da Síria percorrem locais bombardeados pela Força Aérea da Rússia.

Não demorou muito e um caça turco derrubou um caça-bombardeiro russo com toda a tensão que se seguiu e ainda promete render.

Tinha registrado para publicar neste blog que o secretário-geral da OTAN também havia condenado a “violação inaceitável do espaço aéreo turco” por parte de aeronaves de guerra russas. Ele havia acrescentado que “as ações da Rússia não contribuem para a segurança e a estabilidade da região”.

Poucos dias depois, a derrubada do caça-bombardeiro Sukhoi-24 russo pela aviação turca veio aumentar a tensão com a NATO. Também permitiu ao Kremlin “justificar” ante a opinião pública russa um maior engajamento na Síria.

Jens Stoltenberg também havia sublinhado: “A Rússia não tem como alvo o Estado Islâmico, está atacando a oposição síria e civis.”

Mais de 40 grupos insurgentes sírios, incluindo a influente facção islâmica Ahrar al-Sham, pediram aos países da região que formem uma aliança contra a Rússia e o Irã na guerra síria. Velhos jatos iranianos – de fabricação americana – foram filmados dando cobertura a bombardeiros russos ainda mais velhos sobre a Síria

A Rússia se gaba de ter acertado alvos do Estado Islâmico, sem nada de decisivo que compense a confusão introduzida.

Dessa maneira, o conflito do Oriente Médio não caminha para uma solução, mas para um tumulto maior. E, em consequência, mais êxodo de cidadãos para a Europa.

Resumindo este longo post: essa confusão parece montada por uma mentalidade russa no que ela tem de parecido com a brasileira.

A defesa do Ocidente está sendo driblada, ponto por ponto por um adversário que avança gingando deixando atrás um e outro.

E, isso sim, a mudança surpreendente de fronte e nomes está de acordo com os métodos de “guerra híbrida” pregados pelos estrategistas do Kremlin para pôr de joelhos os adversários sem necessidade de recorrer a grandes investimentos militares.

A guerra híbrida “é uma combinação de meios e instrumentos, do previsível e do imprevisível. Não há fronteiras entre o legal e o ilegal, entre a violência e a não violência.

“Não há uma distinção real entre guerra e paz”, explicou Félix Arteaga, pesquisador de Segurança e Defesa do Real Instituto Elcano, da Espanha.

“É a guerra de Putin”. Ver “A guerra híbrida do século XXI: sem fronteiras entre o legal e o ilegal”, jornal “El País” edição Brasil.

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