O que é a ecologia? parte 3

    O ecologismo no cerne do nacional-socialismo

    continuação do post anterior: O extremismo do fundador superado pelos discípulos

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    Walter Darre, ministro de Agricultura de Hitler, ecologista, promoveu o “retorno à terra”

    Johann von Thunen (1785-1850), economista e geógrafo alemão, autor do livro “O Estado Isolado” foi considerado o mentor intelectual dos Nacional Socialistas alemães e dos comunistas alemães-orientais do pós-guerra.

    Os ecologistas ainda o citam hoje em dia.

    Defendia a vida rural camponesa numa estrutura social na qual “o Estado não pode existir enquanto determinante da vida moral, econômica e social.”
    Queria a imigração em massa para a América do Norte, onde o solo fértil poderia realizar sua utopia.

    “A natureza revela seus segredos ao camponês que traz modificações para a vida social”. A consequência desta filosofia econômica esquerdista na reforma agrária foi mais tarde assumida pelo socialismo de Estado.

    Reestruturando o planeta em clave anárquica

    A geografia, aparentemente a mais positivista das ciências, suscitou numerosos reformadores sociais, precursores dos ecologistas. De fato, era pequeno o passo que separava a descrição do uso do solo e sua estrutura da recomendação de reformas específicas.

    A geopolítica, disciplina inventada por Halford Mackinder e Karl Haushofer, elaborou o conceito de Raubwirtschaft ou da “economia exploradora”.

    Já em 1905, Elisée Reclus, anarquista francês, escrevera uma obra em 19 volumes para provar o “efeito quase exclusivamente destrutivo do homem sobre o meio ambiente”.

    O estudioso franco-russo, Eduard Petrie, escreveu em 1883 que acolonização de estilo ocidental destruiu não apenas o ambiente físico, mas a cultura e o espíritoetocídio das tribos primitivas.

    dfdf4Outro importante radical destas primeiras correntes ecológicas foi Patrick Geddes (1832-1932), defensor encarniçado da volta-ao-solo descentralizadora.

    Geddes esperava que a sociedade moderna iria abandonar a produção industrial e o uso de energia, passando para o uso “biológico” de energia tendo a aldeia como modelo social. Desejava fundar uma nova sociedade descentralizada com base no binômio camponês-aldeia.

    O planejamento de casas e aldeias, de regiões e nações era o objetivo de Lewis Mumford, discípulo de Geddes.

    Em 1940 advogou o estabelecimento de um governo mundial para reordenar a população da terra de modo mais belo e eficiente. A principal tarefa do século XX seria reestruturar o planeta…

    A despeito dos repetidos fracassos do planejamento social, a ecologia política caiu no paradoxo de manter a crença de que o homem é capaz de interferir benevolamente na vida de outro homem.

    A importância dos ecologistas energéticos reside no fato de que eles estabeleceram as bases para o cálculo do futuro das sociedades humanas. Embora muitos fossem ainda eurocêntricos, alguns já eram tão universalistas e anti-ocidentais quanto os ecologistas de hoje.

    Alguns deles foram socialistas libertários, inspirados por Morris ou Ruskin, defensores da aldeia e da sociedade camponesa.

    Todos eles acreditavam em reformas baseadas em cálculos científicos e em sua própria visão de decadência e desastre.

    Todos eram racionalistas, todos rejeitavam as instituições políticas vigentes, advogando um governo mundial por meio de instituições apolíticas.

    Quando a crise do petróleo ameaçou o Ocidente no início da década de 70, reapareceram os mesmos argumentos acerca dos recursos finitos, bem como os mesmos planos para reestruturar a sociedade, de molde a fazer o uso mais econômico possível do solo e da energia.

    Reforma agrária e utopia ambientalista

    O ecologismo do início do século XX defendia a ideia de que trabalhador rural deve possuir a terra em que trabalha.

    Porque a reforma agrária significa a partilha das grandes propriedades, era vista como um movimento de esquerda. Na Inglaterra, os grupos pró reforma agrária eram constituídos de pessoas provenientes da classe média alta.

    Rudolf Steiner e o III Reich

    Que importância as ideias ecológicas tiveram para o III Reich?

    É difícil avaliar como o nazismo foi visto em diferentes épocas por seus apoiadores.

    Existe um corpo de discursos e livros que esboçam a ideologia nazista, mas longe de serem completos.
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    Os discursos de Hitler nunca foram colecionados e publicados na íntegra, mesmo no original alemão. Do que existe, pode-se porém deduzir uma ideologia.

    Felizmente, não é preciso esticar um mosquito para mostrar que havia um veio de ideias ecológicas entre os nazistas.

    A prova é ampla; ela existe nos arquivos ministeriais e pessoais do III Reich.

    Uma discussão sobre as ideias verdes e ecológicas, presentes no nazismo, está fadada a ter um efeito explosivo. Há também possíveis consequências políticas.

    O Partido Verde na Alemanha de hoje é popular entre muitos intelectuais descontentes, por parecer puro e não tisnado pelo passado. É um potencial aliado do SPD, e portanto opositor da Democracia Cristã de direita.

    Os verdes adotaram as posições da extrema esquerda: feminismo, igualitarismo e agitação anti-nuclear.

    Uma ligação entre as ideias verdes em moda atualmente e o nazismo poderia suscitar incômodos e até mesmo vitupérios.

    Houve dois níveis de apoio à ecologia no III Reich. O primeiro, a nível ministerial; o segundo, a nível administrativo, nos órgãos do Partido.

    Os dois ministros simpáticos às ideias ecológicas foram Rudolf Hess e Walter Darre, líder camponês e Ministro da Agricultura entre 1932 e 1942.

    Fritz Todt, presidente da Organização Todt, era também um ecologista. Hess era seguidor de Rudolf Steiner e homeopata.

    O escritório de Hess empregava diversos ecologistas, entre os quais Anthony Ludovici, que escreveu largamente sobre a necessidade de um uso planejado da terra, orgânico e ecologicamente equilibrado.

    Havia milhares de fazendeiros bio-dinâmicos alistados na “Guerra da Produção” nazista.

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    Blut und Boden (Sangue e Solo) era a organização de Darre

    Tamanho era o número dos alternativos ligados a Hess na Chancelaria que Martin Bormann fez circular um memorando pedindo o fim dos “círculos ocultos e confessionais”.

    Isto mostra a frincha dentro do Nacional Socialismo entre os homens práticos e os alternativos, individualistas rebeldes contra as estruturas da República de Weimar e que trouxeram suas crenças para o III Reich.

    A Alemanha nazista foi o primeiro país da Europa a formar reservas naturais.

    Foi o primeiro país a insistir na plantação de árvores de espécie mista para conservar o equilíbrio ecológico; a introduzir leis para proteger o habitat da vida selvagem etc.

    Apesar de a Alemanha ter — segundo se acreditava — uma carência aguda de terras, era considerado sacrossanto o solo arborizado.

    Quando parte da Polônia foi incorporada à Alemanha em 1939, 25% de todas as terras aráveis foram reservadas para serem florestadas. Na década de 30, 2/5 de todo o solo alemão estava reservado para florestas.

    A folha de carvalho era o símbolo das SS.

    Houve tensão entre a Alemanha e a Itália quando Mussolini insistiu em continuar cortando árvores no Sul do Tirol.

    A era do camponês integrado na terra

    Entre as duas grandes guerras havia se difundido a ideia de que o campesinato tinha uma missão “especial”.

    Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, inspirou em 1925, uma nova escola de agricultura bio-dinâmica que visava a preservar o espírito do solo e cuidar para que este fosse arado de acordo com sua teoria de forças-vivas e influências magnéticas do cosmos.

    Os fertilizantes artificiais eram rejeitados enquanto coisa morta feita pelo homem.

    A terra era um ser vivo: o solo, seu olho ou orelha. A agricultura deveria fazer parte de uma unidade orgânica mundo-terra.

    Depois do voo de Hess para a Inglaterra, o movimento bio-dinâmico foi perseguido.

    Todos os que estavam ligados às ideias de Hess — homeopatas e naturistas — tornaram-se suspeitos.

    Walter Darre, Ministro da Agricultura, devotou seus dois últimos anos a fazer campanha em prol das fazendas orgânicas, em sentido contrário à vontade de Backe, Bormann e Goering.

    Um terço da liderança nazista apoiou a campanha de Darre; outro terço era favorável às ideias orgânicas, mas negou-se a apoiá-las devido a suas ligações com Rudolf Steiner e as ideias antroposóficas; e o terço restante foi hostil.

    Hermann Goering, proibida a vivisecao
    Himmler exigiu leis contra a vivisecção.

    Himmler fundou fazendas orgânicas experimentais para plantar ervas para os remédios dos SS.

    O diretor do Bureau SS para Raças e Colonização, Gustav Pancke, visitou a Polônia em 1939 para criar fazendas orgânicas.

    Por insistência de Himmler, foram aprovadas leis anti-vivisecção.

    O treinamento dos SS incluía aprender a respeitar a vida animal.

    À maneira dos ecologistas de hoje, os nazistas se opunham ao capitalismo e ao sistema de mercado orientado para o consumidor.


    Com seu programa “Volta à terra” o III Reich alcançou seus maiores sucessos e fracassos ecológicos.

    O programa de colonização era essencial para os planos nazistas de criar uma Alemanha rural.

    Ele iria varrer a antiga nobreza por meio da reforma agrária e estabelecer uma nova nobreza camponesa.

    O ímpeto retórico dos nazistas agrários radicais voltava-se para a formação de uma Alemanha que integrasse uma Internacional Camponesa da Europa do Norte, onde as fazendas seriam dirigidas de acordo com o alvitre dos comitês de conselheiros locais.

    Tal retórica, comportando um ataque em larga escala contra a economia capitalista e o direito de propriedade, defendia que o comércio exterior e a industrialização haviam sido elaborados por capitalistas manipuladores para forçar as populações rurais a confluírem para as cidades.

    O sistema industrial teria sido construído para impedir as autonomias locais e a autossuficiência. O remédio seria a total ruralização da Alemanha.

    O fracasso militar na II Guerra Mundial pôs fim às tentativas, mas não à utopia.

    (Excertos de: Anna Bramwell, “Ecology in the 20th Century, A History”, Yale University Press, New Haven, Ct., and London, 1989).


    continua no próximo artigo – O que é a ecologia? parte 4 – O ambientalismo do pós-guerra trabalha para impor a vida tribal