No momento, você está visualizando 24 horas sem internet, Pe. Fillion e a Quaresma

Fui pego de surpresa. Meu cel não estava comigo;  ficara na casa de um conhecido. Quando me dei conta, já estava distante. Há males que vem para bem.

Felizmente, eu não sou dependente fanático do celular; se fosse consumidor viciado, meu portão de entrada da casa não abriria, claro, o comando dele estaria no celphone.

Já era noite, não me pareceu conveniente incomodar meu amigo com um telefonema; aliás, impossível telefonar, minha casa já não tem o ultrapassado aparelho telefônico residencial.

Resolvi me beneficiar da ausência do celular. Fiquei sem ler mensagens, sem poder correr os olhos na lista dos vídeos; as “ofertas” sensacionalistas das últimas notícias já não mais estavam a meu alcance.

A primeira constatação, a evidência de furar os olhos, eu estava alheio em grande parte ao mundo moderno, e ao mesmo tempo sentindo falta do celular. Notei a minha dependência à velocidade, ao ritmo da informação, ao tirano que me oprime

Meu aparelho auditivo funcionando, porém os comandos dependiam do celular; eu conseguia ouvir no modo standard.

O ar condicionado regulado pelo celular, o despertador no celular, o acesso bancário no celular … tudo isso ficava simplesmente varrido, inacessível.

Como vou preencher meu tempo?

Restava minha biblioteca. Uma boa leitura, antes de me deitar, em livro físico; uma revista, tudo isso eu ainda tinha.

Descobri; eu voltava a ser um ente totalmente pensante. Estamos na Quaresma, eu sou católico, vou ler algo sobre a Vida de Nosso Senhor. Esse jejum da internet não estava em meus planos; mas, aconteceu. Jejum de sensacionalismo, jejum de intemperança midiática, jejum de sensações.

Tinha ouvido do Prof. Plinio que o Pe. Fillion era muito bom comentarista do Evangelho. Estamos na Quaresma, boa opção: vou ler o Pe. Louis Claude Fillion. O que encontrei?

Desenvolvimento intelectual e moral de Cristo

Jesus Cristo segundo os Evangelhos, peguei o subtitulo: “– O desenvolvimento intelectual e moral de Cristo.” Diz o Pe. Fillion:

«Jesus – diz São Lucas – crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens».

“O desenvolvimento intelectual e moral de Jesus nesta época da sua vida é um problema simultaneamente psicológico e teoló­gico, pois podemos perguntar como podia um Deus feito homem crescer em ciência, em sabedoria e em graça. Claro que não podia tratar-se da ciência do Salvador na sua qualidade de Deus, porque essa nunca podia deixar de ser infinita, mas unicamente da sua ciência humana, como já diziam Santo Ambrósio e outros douto­res antigos.”

Não sou teólogo, nem versado na ciência das Escrituras mas, fiquei encantado com a descrição.

A ciência humana no livro da vida

Ainda o Pe. Fillion: “Desde a mais tenra infância aprendera a ler no livro da natureza e no livro da vida, como mais ninguém soube fazê-lo, e era ali que a todo o ins­tante colhia ideias, comparações, as mais felizes descrições, as mais surpreendentes aplicações que esmaltam e vivificam o seu ensinamento. São extraordinárias as lições das coisas que obteve destas duas fontes.”

Já se abria para mim uma outra via de desenvolvimento intelectual e moral: há também o livro da vida e da natureza: “Os céus narram a glória de Deus e o firmamento é obra de suas mãos”. Lembrei-me de São Boaventura, das inúmeras reuniões de Dr. Plinio sobre a 4a. via.

Considerações que só emergem quando se está longe dos grilhões da mídia sensacionalista.

Continua o Pe. Fillion:  Como parece ter amado a doce e bela nature­za da Galileia e com que inteligência e delicadeza do coração a contemplava! O mundo das plantas e dos animais forneceu-lhe a solução dos mais graves problemas.”

Lição para os ecologistas fanáticos e integrais: amar e desvendar as perfeições de Deus na Criação é o oposto da religião ecológica que cultua a natureza pela natureza. Novamente, recordemos, São Boaventura nos ensina que na Criação temos o homem feito à "imagem e semelhança de Deus" e os seres brutos contém em si os "vestígios" do Criador. Nada, portanto, de panteísmo, de adoração ecológica.

Sigamos os comentários do Pe. Fillion:  “Sobretudo as suas parábolas mostram a que ponto ele estava atento aos mais diminutos por­menores da vida vegetal e animal. Quem não recorda com sim­patia os lírios dos campos e o seu efêmero esplendor, o joio semeado pelo inimigo no campo de trigo, a figueira verdejante mas estéril, as aves do céu que não semeiam nem colhem e que Deus alimenta com liberalidade…”

Leitor, fiquemos por aqui. Se gostou das reflexões do Pe. Fillion, se viu nessas passagens a verdadeira via de formação intelectual e moral, então, faça também, nessa Quaresma, algum jejum de sensacionalismo midiático, de intemperança noticiosa, de mortificação da sensibilidade. 

Afinal, nosso Divino Mestre se prepara para a Paixão, para nos redimir, para reparar junto ao Pai Celeste as nossas ofensas, nossos pecados, nosso culto ao deus moderno que se chama sensacionalismo.

Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, ajude a todos nós.