No mundo paganizado em que vivemos, poucos se interessam em ler a vida dos santos. Ora, essa leitura costumava ser outrora diária, recomendada por todos os diretores espirituais aos seus penitentes, e de obrigação em quase todos os mosteiros e casas religiosas do mundo.
Mas supunha que fossem escritas por hagiógrafos idôneos, dignos de serem lidos. O que é raro em nosso tempo, porque em geral encontramos apenas biografias adocicadas, tipo água com açúcar, que procuram omitir tudo o que nos santos possa chocar a sensibilidade do leitor amolecido de hoje, como grandes penitências, macerações e imolação contínuas.
Visando preencher essa lacuna, vamos apresentar aqui alguns fatos da vida de Santa Bernadete Soubirous, vidente de Lourdes, baseados em suas próprias palavras e em depoimentos de seus contemporâneos, que nos mostram à saciedade a heroicidade de suas virtudes e porque lhe mereceram a honra dos altares.
Baseamo-nos no excelente livro do renomado hagiógrafo francês, Pe. René Laurentin, em sua edição americana com o título Bernadette Speaks – A Life of Saint Bernadette Soubirous in Her Own Words (Bernadete Soubirous fala: uma vida de Santa Bernadete Soubirous em suas próprias palavras), Pauline Books & Media, Boston, USA, 1999.
Confidente e porta-voz da Virgem

Quase todos os católicos praticantes têm uma noção pelo menos superficial dos principais fatos da vida dessa Santa. Quem, dos nascidos nas décadas dos 50 ou 60, não assistiu com deleite ao filme A Canção de Bernadete, que tanto sucesso fez? Ou tiveram a graça de ir em peregrinação a Lourdes? Ou estão a par das inúmeras curas lá operadas pelas águas da fonte milagrosa surgida por intermédio de Bernadete?
Em linhas gerais, Bernadete, nascida em 7 de janeiro de 1844 e falecida no dia 16 de abril de 1879, foi beatificada em 12 de junho de 1925 pelo Papa Pio XI, que a canonizou em 8 de dezembro de 1933. Seu corpo incorrupto repousa até hoje na capela do convento das Irmãs da Caridade de Nevers, França.
De família muito pobre, analfabeta e muito limitada culturalmente, Bernadete era tão séria e virtuosa na adolescência, que a Mãe de Deus a escolheu para sua confidente e mensageira, aparecendo-lhe 18 vezes na gruta de Massabielle.
Nossa Senhora lhe disse que era a Imaculada Conceição, confirmando o dogma promulgado quatro anos antes pelo Beato Pio IX em 1854. Revelou também a Bernadete o local na gruta onde ela deveria cavar com as mãos, o que fez surgir a fonte cujas águas foram e são responsáveis por inúmeros milagres até os nossos dias.
Infância dolorosa

Essa predileta da Virgem Maria conheceu o sofrimento desde seus verdes anos. Sua mãe afirma que “a partir dos seis anos a saúde de Bernadete declinou”. Ela teve “problemas de estômago”, “desordem no baço” e “dores de dente”. Posteriormentefoi cruelmente golpeada pela epidemia de cólera que dizimou Lourdes no outono de 1855. Seu delicado estômago rejeitava o pão de milho e comê-lo era um sacrifício diário. Quando podiam, compravam-lhe pão de trigo. Apesar de tudo isso, uma condiscípula sua no primário afirmou que “embora ela fosse criança, nunca reclamou da comida que lhe era servida”.(7)
Mais tarde, com a ruina dos negócios do pai, a família Soubirous conheceu a mais negra miséria, só encontrando abrigo, e ainda assim por caridade, numa velha prisão (le Cachot, uma masmorra) [foto acima], composta de um único aposento, no qual se amontoava toda a família. Seu primo, André Sajous, que os abrigara anteriormente, comenta que “muitas vezes minha mulher lhes deu [aos filhos de Francisco Soubirous] pão de milho Os pequenos nunca pediam algum. Preferiam antes morrer de fome”. (7)
Em julho de 1858, o advogado Charles Madon teve a ventura de visitar Bernadete no Cachot. O que mais o impressionou ao entrar foi a “abjeta pobreza” dos Soubirous. “No entanto, ninguém foi capaz de fazer os pequenos aceitarem a menor soma de dinheiro, mesmo para seus pais”. (124)
No dia 4 de março desse ano de 1858, médicos que visitaram os Soubirous no Cachot, advertiram: “Se vocês querem manter seus filhos vivos, não podem permanecer aqui”.(120) Por isso, dois meses depois da terceira aparição da Virgem, no dia 16 de julho, os Soubirous encontraram uma casa apara alugar e para ela se mudaram.(120)
“Intensidade no olhar, claridade e autoridade nas palavras”
Bernadete sempre impressionou os que estiveram com ela pela sua tocante inocência. Os visitantes e investigadores que a conheceram “são unânimes [em louvar] a intensidade [de seu olhar], a claridade, inteligibilidade e autoridade [de suas palavras] e o charme [de sua pessoa]”.(541)
Por isso, só de vê-la alguns incrédulos passaram a acreditar nas Aparições. O Pe. Cross, que a visitou em 1864,comenta que “ela própria já é uma aparição” (129), e muitos já a consideravam santa em vida, como ele escreveu em carta a um amigo: “Bernadete está muito doente, e provavelmente morrerá em breve. Tudo nessa jovem de vinte anos reflete inocência.” E, mais adiante, afirma: “Alguns sacerdotes se ajoelham diante dela e lhe pedem a bênção. Mulheres roubam maços de seus cabelos ou pedaços de suas vestes. Camponeses exclamam: ‘Que santa! Que doce virgem!’ Qualquer um pode ver que ela é uma santa”.(248)
“Face inteligente, sem malícia”

Em seu primeiro encontro com Bernadete, o célebre jornalista católico Louis Veuillot, diretor do L’Univers, observou que ela tem uma “face inteligente e sem malícia, belos olhos”. Depois de pressioná-la de todos os lados para ver se ela se contradizia, ele disse ao Pe. Peyramale [foto ao lado]: “Ela é ignorante, mas vale muito mais do que eu. [Diante dela] eu não valho nada”.(129)
Como a vidente reagia diante desses louvores? Bernadete não se deixava contaminar por eles, como comentou em 1872 com a Irmã Aurélia: “Quando eu morrer, eles dirão: ‘ela viu a Santíssima Virgem, é uma santa’; e todo esse tempo eu estarei me fritando no purgatório”.(439)
Simplicidade, nobreza e modéstia

Um dos testemunhos mais entusiasmados sobre a vidente foi o de Dom Bertrand Sévère Laurence, bispo de Tarbes [foto], a que pertencia Lourdes. No dia 18 de janeiro de 1862 ele publicou uma Carta Pastoral reconhecendo a autenticidade das Aparições, e com sua autoridade episcopal comunica, do modo mais conciso e laudatório, a impressão geral que teve de Bernadete:
“Quem, aproximando-se dela, não pode deixar de admirar a simplicidade, a nobreza e a modéstia dessa criança? Enquanto todos falavam sobre as maravilhas que tinham sido reveladas, somente ela permaneceu em silêncio. E falou só quando questionada; então, relatou tudo sem afetação, com uma tocante inocência; e, às muitas perguntas que lhe fizeram, deu sem hesitação claras e precisas resposta, no ponto, e marcadas por uma forte convicção. Sujeita a testes severos, ela nunca vacilou diante de ameaças. Às mais generosas ofertas ela respondia com nobre indiferença. Sempre fiel a si mesma, nos vários interrogatórios a que foi sujeita, constantemente se apegava ao que já tinha dito, sem nunca acrescentar ou retratar nada. A sinceridade de Bernadete está, pois, inquestionada. Seus oponentes, se é que os teve, deram-lhe esse cumprimento.”

Ao que acrescenta o Pe. Laurentin: “E Bernadete nada fez para merecer a perda de algo dessa estima de 1862, ano em que o Bispo Laurence escreveu essas palavras, até 1879, quando expirou.”(541-542) [foto da capa]
Outro louvor a ela veio do médico da Casa Mãe, Dr. Saint-Cyr, quem afirmou sobre Bernadete quando esta estava lá como enfermeira:
“Ela é uma enfermeira que faz seu trabalho à perfeição. Pequena, parecendo frágil, ela tem 27 anos. Possuindo uma natureza calma e gentil, ela cuida dos pacientes com grande inteligência, não omitindo nada do que lhe foi ordenado. Desse modo, ela goza de grande autoridade e, de minha parte, a minha completa confiança.” (406)
Essas opiniões tão favoráveis eram provocadas por sua inocência, pureza ilibada e, sobretudo, ardente amor de Deus, porque, como Nosso Divino Salvador afirmou: “Se alguém me ama, observará minha palavra, e meu Pai o amará; e nós viremos até ele e nele faremos a nossa morada” (Jo. 14-23). Era Nosso Senhor quem vivia em Bernadete, pois ela jamais manchou sua veste batismal, como afirmou. Um dia, comentando o sermão que o novo capelão da Casa Mãe tinha pronunciado sobre o pecado, disse à Irmã Casemiro: “O capelão disse que, quando não escolhemos pecar, não pecamos. Assim, eu nunca escolhi cometer um pecado. Portanto, eu nunca cometi um.”(492)
Vítima expiatória do Sagrado Coração de Jesus
Os sofrimentos de Bernadete, principalmente depois que professou em Nevers, são tão espantosos, que não se os compreende senão por um especial desígnio de Deus e uma ajuda muito especial da graça.
Pois ela, segundo relata o Pe. Febvre, capelão da Casa Mãe das Filhas da Caridade de Nevers: “Sempre, desde depois de seus votos perpétuos (22 de setembro de 1878), as dores[de Bernadete] se tornaram mais intensas, e só terminaram com sua morte. Seu desejo, que ela manteve em segredo tanto quanto pôde, era o de ser uma vítima para o Coração de Jesus”.(518)
O que significa isso? Pois essa atitude tão heroica precisa ser bem entendida. Para isso nos reportamos ao que explica o renomado teólogo espanhol Pe. Royo Marin em sua Teologia da Perfeição Cristã:
“As almas que se oferecem como vítimas são para Cristo como uma nova humanidade que é somada a Ele, como se refere a Irmã Elizabete da Trindade. Nessas almas Ele pode renovar o inteiro mistério da redenção. O Senhor costuma aceitar essa heroica oferta, e conduz essas almas a um terrível martírio de corpo e alma. Só com a ajuda de graças extraordinárias elas podem suportar por determinada duração de tempo os incríveis sofrimentos e dores; essas almas sempre terminam no alto do Calvário, totalmente transformadas em Cristo crucificado” (Pe. Antonio Royo Marin, O.P., Theology of Christian Perfection, The Foundation for a Christian Civilization, Inc., New York, 1987, p. 219).
Se o martírio do corpo já é “terrível”, pior ainda é o da alma, como disse Bernadete a Júlia Garros: “É realmente doloroso não poder respirar, mas é muito mais agonizante ser torturado por angústia espiritual. Isso é aterrador!”.(441)
Nosso Senhor queria que sua filha predileta sofresse sem nenhum consolo. Assim, como conta a Irmã Jollet: “Já nos últimos dias de sua vida, ou seja, na segunda-feira da Páscoa, 13 de abril de 1879, Bernadete tossia continuamente. Depois do almoço, algumas de nós fomos vê-la. Com toda simplicidade, ela nos contou: ‘Esta manhã, depois da Santa Comunhão, eu pedi ao Senhor que me desse uma pausa [nos sofrimentos] para que eu pudesse conversar confortavelmente com Ele. Mas Ele não me quis dar. Minha paixão durará até que eu morra”.(524)
Por isso, já em seus últimos dias, a Irmã farmacêutica lhe perguntou se ela tinha experimentado algum alívio com o remédio que lhe tinha dado. Bernadete respondeu: “Oh, não! Eu não tenho alívio. O capelão me disse que o bom Senhor quer que eu ganhe méritos enquanto estiver na Terra. Eu tenho que me resignar.”(524-25)
“E se eu errei?”
Num momento de angústia espiritual pela qual Santa Bernadete passava, ela começou a ter dúvidas até na veracidade das Aparições. Isso se manifestou quando o bispo Bourret, que teve a graça de questioná-la no dia 1o de setembro de 1877, pediu-lhe que falasse sobre as Aparições. Ela, que estava relutante, disse-lhe: “Isso está já tão longe… muito longe … todas essas coisas eu já não me recordo. Eu realmente não gosto de falar disso porque, bom Jesus! E seu eu errei?”.(465) E a levou a comentar com a Irmã Natália: “Querida Irmã, estou com medo. Eu recebi tantas graças e aproveitei tão pouco…”.(525)

“Nunca pensei que fosse necessário tanto sofrimento para morrer”
Os sofrimentos dessa vítima aumentavam cada vez mais: “Suas dores pesavam grandemente nela nesse dia. Podia-se ler em sua face sua exaustão […]. Ela disse à Irmã Villaret: ‘Eu estou sendo moída como um grão de trigo. Nunca pensei que fosse necessário tanto sofrimento para morrer”.(525)
Esses sofrimentos — não só espirituais, mas também físicos — foram tremendos. Durante os interrogatórios do final do inverno de 1879, as Irmãs descreveram as condições de Bernadete:
“Um tumor produzia rigidez em seu joelho […] sofrimentos […] joelho inchado, perna atrofiada. Elas (as Irmãs) não sabiam como movê-la; às vezes isso demorava uma hora para se chegar a uma boa posição. Sua face tinha mudado; tomou uma aparência cadavérica; ela, que tinha sido tão forte no sofrimento, está agora vencida pela dor. Mesmo quando dormia, o menor movimento de sua perna provocava um grito dela e esses agudos gritos impediam as outras doentes de dormir. Em seus sofrimentos ela perdeu peso e ficou reduzida a nada”. (513)
Em sua exaustão, ela procurava ter algum alívio. Assim, “durante a Semana Santa (6-13 abril 1879), Bernadete pediu à Irmã Pagés, farmacêutica em outra das comunidades de Nevers: ‘Se pudésseis encontrar alguma coisa em vossa farmácia para aliviar minha dor lombar, porque eu estou toda assada…”.(523), pois as chagas provocadas em suas costas por estar longamente deitada tinham ficado intoleráveis.
“Não conforto, mas força e paciência”
“Na terça-feira, diz o Pe. Lefebvre, ela recebeu a Sagrada Comunhão outra vez, mas depois sentiu uma grande dificuldade de respirar. Ela me mandou chamar, porque queria receber o sacramento da Penitência. Depois eu lhe dei uma indulgência plenária reservada para o momento da morte. Quando eu lhe disse para renovar com amor o sacrifício de sua vida, ela respondeu com surpreendente energia: ‘Que sacrifício? Não é sacrifício dar uma vida miserável na qual encontramos tantos trabalhos para pertencer a Deus.” (525)
A uma Irmã que lhe disse que ia pedir à Imaculada Mãe que lhe desse um pouco de conforto, ela respondeu: “Não! Não conforto, mas força e paciência.” (530)
Evidentemente, o Pai da Mentira tinha de aproveitar-se da fraqueza física da doente para tentá-la. Eis o que diz o Pe. Lefebvre: “Durante a noite da segunda-feira de Páscoa ela começou sua agonia espiritual, e foi ouvida repetir muitas vezes ‘Afasta-te, Satã!’ No dia seguinte, ela me disse que o demônio tinha tentado assustá-la, mas que ela tinha invocado o Santo Nome de Jesus e tudo tinha desaparecido.”(525)
Seus últimos momentos
Bernadete havia sido removida, a seu pedido, para uma cadeira de rodas. Segundo as Irmãs, certo dia ela pareceu estar experimentando de repente algo extraordinário. Em determinado momento
“ela tentou erguer-se um pouco, pondo sua mão direita no braço da cadeira. Ergueu os olhos para o céu e pôs a mão esquerda na fronte. Seus olhos tinham uma penetrante expressão, e por alguns minutos permaneceram concentrados em um ponto fixo. A expressão de sua face sugeria uma espécie de melancolia pensativa. Então, em um tom de voz difícil de descrever, expressando surpresa mais que dor e, aumentando em volume, ela fez por três vezes a tríplice exclamação: Oh! Oh! Oh! e todo seu corpo tremeu. Então ela desceu sua mão trêmula até o coração, abaixou os olhos, e sussurrou estas palavras: ‘Meu Deus, eu Vos amo de todo o meu coração, toda minha alma, e toda minha força”.(530)
Algumas Irmãs julgam que ela teve aí uma visão e um êxtase.
Uma Irmã, para levantar o ânimo da doente, disse-lhe mais tarde: “A Santíssima Virgem virá para encontrar-vos”. Ao que ela respondeu: “Oh, sim! Assim espero!”
Por volta das 3 horas da tarde, como a paciente parecia estar sofrendo as agonias de uma maneira difícil de definir e muitos sofrimentos interiores, as Irmãs farmacêuticas aspergiram várias vezes sobre a agonizante Irmã, e sugeriram algumas invocações. A paciente pegou então seu crucifixo, olhou-o amorosamente for um momento, e então, vagarosamente, osculou as chagas de Cristo, uma por uma. (530)
Pouco depois, “ela se concentrou uns momentos, com a cabeça inclinada para a Irmã enfermeira à sua esquerda e, com uma expressão de dor e total entrega, ergueu os olhos para o céu, abriu os braços em forma de cruz, e gritou em voz alta: “Meu Deus!”… Encontrando depois nova força, repetiu: ‘Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por mim, uma pobre pecadora.”
Quando se acercava o momento do desenlace, Bernardete não conseguia mais falar.
“A Irmã Natáli a que tinha ensinado aos surdos e aprendido a entendê-los sem o uso de palavras … com isso entendeu o que a expressão de Bernadete queria dizer, e perguntou-lhe: ‘O que está querendo de mim?’. Ela disse com forte voz: ‘que me ajudeis’…”.(531)
“Alguns momentos depois, a agonizante fez um gesto indicando que alguma coisa para beber. Fez então um grande Sinal da Cruz, tomou o remédio que lhe foi dado, engoliu umas poucas gotas e, inclinando a cabeça, gentilmente entregou sua alma.”(531)
Assim foi Santa Bernadete Soubirous, a quem Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, apareceu em Lourdes, abrindo para a humanidade um novo lugar de graças, de perdão e de curas miraculosas.
