Nos últimos três anos, a Ford Motor Company tomou uma decisão muito inteligente. Recontratou engenheiros humanos para corrigir erros causados por sua dependência da inteligência artificial (IA). Os resultados foram notáveis.
Em 2025, segundo o site de tecnologia Fast Company, a Ford “estabeleceu novos recordes pelo maior número de recalls de segurança”. Em contrapartida, em 2026, os veículos da Ford conquistaram o primeiro lugar — depois de ocuparem a décima posição no ano anterior — no Estudo de Qualidade Inicial da J.D. Power. Especificamente, essa pesquisa mede os problemas relatados pelos proprietários após os primeiros noventa dias de posse de um veículo novo. Trata-se de um indicador eficaz de quais empresas fabricam automóveis melhores.
Um produto complexo e dispendioso
O automóvel moderno é uma máquina incrivelmente complexa. Esse fato é evidente para qualquer pessoa que já tenha olhado sob o capô, mas a realidade é muito mais desafiadora. A NAPA, varejista de autopeças, estima em “cerca de 30 mil” o número de peças de um automóvel. O popular site voltado aos entusiastas de carros MotorBiscuit calcula que os veículos elétricos tenham de vinte a trinta por cento menos peças, mas isso ainda representa um mínimo de 21 mil. Cada uma dessas peças precisa funcionar sem falhas; caso contrário, o automóvel não poderá operar de maneira eficiente ou sequer funcionar. Além disso, cada veículo deve atender a extensos conjuntos de normas de segurança e de emissões.
O projeto de cada peça exige profissionais altamente qualificados e experientes. Os serviços desse pequeno grupo de especialistas competentes não são baratos.
A indústria automobilística também é altamente competitiva. Fundamentalmente, todos os automóveis realizam as mesmas tarefas, de maneiras muito semelhantes, o que torna todos os modelos parecidos entre si.
Embora muitos consumidores cultivem preferências por determinada marca ou concessionária, o principal fator na escolha de um veículo específico é o preço. No cálculo desse preço, um dos componentes de maior peso é o trabalho daqueles que projetaram e construíram o automóvel. Economizar em mão de obra pode ajudar o fabricante a reduzir preços e vender mais veículos.
Não era tão bom quanto parecia
Em tais circunstâncias, o uso da IA é atraente. Seu imenso — e sempre crescente — poder computacional pode, sem dúvida, auxiliar em muitas tarefas de engenharia. Assim, muitos fabricantes reduziram suas equipes de engenharia e aumentaram, como compensação, o número de computadores de alto desempenho.
Obviamente, isso não foi bem recebido pelas legiões de engenheiros humanos da empresa. Alguns foram demitidos; outros saíram frustrados e indignados. A perspectiva de deixar de ser um especialista altamente respeitado para receber a função de auxiliar uma máquina era, para dizer o mínimo, desagradável.
O enorme investimento em IA não produziu resultados tão bons quanto a empresa esperava. Embora seja alto o preço de fazer o trabalho corretamente, o custo dos erros é ainda maior. A Fast Company informou que os reparos cobertos pela garantia custaram à Ford US$ 4,8 bilhões somente em 2023.
Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, explicou o problema à gigante de notícias empresariais Bloomberg.
“A inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas será tão boa quanto as informações usadas para treiná-la… Por engano, pensamos que a simples introdução da inteligência artificial e a inserção dos requisitos de projeto que possuíamos produziriam um produto de alta qualidade. Percebemos que, para aperfeiçoar algumas de nossas ferramentas de automação, aprendizado de máquina e inteligência artificial, precisávamos garantir que elas fossem treinadas pelos profissionais mais experientes.”
Em outras palavras, as pessoas que operam as máquinas continuam sendo mais importantes do que as próprias máquinas, mesmo quando a máquina é um supercomputador.
Corrigindo o rumo
O Yahoo Finance resumiu as medidas corretivas: “A Ford mudou de rumo nos últimos três anos e contratou, promoveu ou recontratou 350 especialistas técnicos experientes, como parte de um amplo esforço para reforçar o controle de qualidade dos veículos.”
O resultado foi gratificante. Jim Farley, diretor-executivo da Ford, permitiu-se um momento de júbilo ao declarar ao site de entusiastas de automóveis CarScoops: “Trabalhamos muito durante quatro anos para nos tornarmos um caso de sucesso da noite para o dia. Foi uma jornada incrível ao longo dos últimos anos. Transformamos completamente todas as nossas fábricas e nosso sistema operacional de qualidade.”
Naturalmente, quando se trata de produtos complexos, nem todos os erros de uma década podem ser corrigidos em um único ano. Os problemas persistem, mas as soluções agora estão muito mais claras.
A lição geral é simples. Nem o conhecimento humano nem a inteligência artificial conseguem detectar todos os defeitos possíveis. Ambos os sistemas identificam alguns problemas e deixam outros passar. A IA é uma ferramenta. As ferramentas auxiliam as pessoas a realizar tarefas que, sem elas, seriam difíceis ou impossíveis. Ao mesmo tempo, nenhuma ferramenta é melhor do que a pessoa que a utiliza. A experiência da Ford demonstra de modo conclusivo que a dependência excessiva da IA é desastrosa.
Fonte: The American TFP — https://www.tfp.org/ford-finds-that-artificial-intelligence-cannot-replace-highly-trained-engineers




