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Com auditório lotado e mais de uma centena de participantes, conferência promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira reuniu Antonio Cabrera, Dom Bertrand de Orleans e Bragança e convidados para uma reflexão sobre agricultura, liberdade, tecnologia e a vocação histórica do Brasil

Há ocasiões em que os números, por si sós, parecem exigir uma explicação.

Como pôde um país que há poucas décadas importava alimentos tornar-se uma das grandes potências agrícolas do mundo? Como uma agricultura submetida às limitações do clima tropical, às distâncias continentais, à precariedade de infraestrutura e a numerosos entraves administrativos conseguiu atingir níveis de produtividade capazes de disputar os mercados mais exigentes do planeta? E, sobretudo, que princípios tornaram possível esse desenvolvimento — e quais ameaças podem comprometê-lo?

Essas perguntas estiveram no centro da conferência “IA, Agronegócio e o Futuro do Brasil”, promovida pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira no dia 16 de setembro, em São Paulo.

O auditório do Hotel Transamérica Higienópolis recebeu mais de cem participantes, ocupando todos os lugares disponíveis. O conferencista principal foi Antonio Cabrera Mano Filho, médico veterinário, produtor rural, empresário e ex-Ministro da Agricultura. Entre as presenças de destaque encontrava-se Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que encerrou a noite com palavras sobre a vocação histórica do Brasil, além de amigos, colaboradores e convidados do Instituto. Sonaira Fernandes também compareceu e fez uma breve intervenção durante o programa, na qual chamou a atenção para a presença crescente das mulheres na administração e no trabalho das propriedades rurais.

Ao término da conferência, formou-se ainda uma longa fila para os autógrafos de Dom Bertrand, que assinou exemplares de Psicose Ambientalista, obra cuja presença no evento proporcionou aos participantes a oportunidade de prolongar, por outra vertente, a reflexão sobre propriedade, produção e meio ambiente.

Do Porto de Santos aos mercados do mundo

Antonio Cabrera iniciou sua exposição olhando para trás.

Para compreender o que o campo brasileiro se tornou, explicou, é necessário recordar uma realidade que muitos brasileiros mais jovens sequer conheceram. No início da década de 1990, o Brasil figurava entre os grandes importadores de alimentos. Cabrera recordou que, naquela época, costumava dizer que “a maior fazenda do Brasil” era o Porto de Santos — imagem destinada a representar a quantidade de arroz, carne e outros produtos que entravam no País por via marítima.

O contraste com a situação atual serviu-lhe como fio condutor.

Segundo os dados apresentados durante a conferência, a expansão agrícola não resultou simplesmente de um aumento proporcional das áreas cultivadas. O fator decisivo foi a produtividade. A ciência agronômica, o desenvolvimento realizado pela Embrapa, o aperfeiçoamento das técnicas de plantio e a capacidade empresarial do produtor encontraram, a partir de determinado momento, condições mais favoráveis para produzir seus efeitos.

Cabrera insistiu em uma distinção fundamental: tecnologia sem liberdade econômica não basta.

Recordando o sistema de preços tabelados, cotas e controles estatais do passado, ele sustentou que o salto de produção brasileiro ocorreu quando o conhecimento técnico pôde encontrar maior espaço para a iniciativa de quem estava efetivamente no campo. Em sua exposição, contrapôs o aumento expressivo da produção ao crescimento bem menor da área plantada e apresentou a produtividade como uma das chaves para compreender a moderna agricultura nacional.

É um ponto que merece atenção.

A terra fornece as possibilidades; a inteligência humana as ordena. Uma nação rica em recursos naturais pode permanecer pobre se suas energias forem sufocadas. De outro lado, a liberdade não significa ausência de ordem. Significa permitir que a responsabilidade, a propriedade e a iniciativa atuem no âmbito que lhes é próprio.

Foi essa conjugação que, segundo Cabrera, transformou de modo tão profundo o campo brasileiro.

Quando a inteligência artificial chega à porteira

O título da conferência poderia sugerir que a inteligência artificial seria o assunto predominante da noite. Não foi assim — e precisamente aí estava um de seus aspectos mais interessantes.

A IA apareceu não como uma realidade independente, muito menos como um substituto do homem, mas como mais uma ferramenta dentro de uma longa história de aperfeiçoamento técnico.

Cabrera apresentou exemplos simples e eloquentes. Máquinas capazes de selecionar produtos agrícolas em grande velocidade; sistemas de monitoramento de rebanhos; sensores e programas que analisam sons, imagens e comportamentos dos animais; recursos capazes de identificar sinais precoces de doença antes que eles se tornem perceptíveis ao observador comum.

O princípio é antigo, embora os instrumentos sejam novos: conhecer melhor para produzir melhor.

Em um dos exemplos apresentados, a automação permitia separar tomates com velocidade muito superior à seleção manual. A consequência, observou Cabrera, é aumento de eficiência e redução dos custos. Também recordou que o uso dessas tecnologias no agronegócio não começou ontem; diversas aplicações já vêm sendo incorporadas há anos.

A novidade tecnológica, portanto, não aboliu o agricultor. Exigiu dele mais formação, mais discernimento e mais domínio sobre ferramentas cada vez mais sofisticadas.

A imagem do campo como uma atividade atrasada — quase uma sobrevivência de outras épocas — torna-se cada vez mais distante da realidade.

O agro que não sabe contar a própria história

Esse foi talvez um dos pontos mais insistentes da conferência.

“O grande problema hoje do agronegócio”, afirmou Cabrera, é que o próprio setor não sabe contar a sua história. Em sua avaliação, muitos dos que formam a imagem pública da agricultura desconhecem o que acontece “atrás de uma porteira”.

A questão ultrapassa a propaganda.

Existe uma diferença profunda entre contemplar a agricultura apenas como um dado econômico e compreendê-la como parte da vida de um país. Atrás de um saco de grãos, de um litro de leite ou de um quilo de carne há famílias, propriedades, gerações sucessivas, ciência, logística, crédito, máquinas, veterinários, agrônomos, transportadores e uma vasta rede de relações humanas.

Há também uma dimensão cultural.

O agricultor não produz no vazio. Ele modifica prudentemente a natureza, recebe um patrimônio de seus antepassados, aperfeiçoa-o e o transmite. A propriedade rural, sobretudo quando atravessa gerações, encerra algo que as estatísticas dificilmente expressam: uma forma de continuidade.

Cabrera chamou a atenção para a dificuldade de traduzir essa realidade à população urbana. Em encontros internacionais, observou, a expressão decisiva muitas vezes não é “agronegócio”, mas “segurança alimentar”. Em termos mais simples: comida no prato e supermercado abastecido.

Talvez esteja precisamente aí uma das chaves para aproximar dois Brasis que não deveriam estar separados: o Brasil das grandes cidades e o Brasil que planta, cria e colhe.

Um país que planta enquanto colhe

Poucas imagens ilustram tão bem as possibilidades brasileiras quanto um episódio narrado pelo conferencista.

Cabrera contou ter estado no Rio Grande do Sul no momento em que agricultores iniciavam o plantio de soja. Pouco depois, viajou para Roraima. Lá, enquanto uma região começava a semear, outra iniciava a colheita.

É o continente chamado Brasil.

Diferenças de latitude, clima e solo permitem ao País uma variedade extraordinária de ciclos produtivos. Primeira safra, segunda safra e, em determinadas regiões, até uma terceira utilização agrícola do mesmo período anual tornam a realidade brasileira dificilmente comparável à de países onde o inverno paralisa extensas regiões durante meses.

Essa riqueza, contudo, traz responsabilidades correspondentes.

Na palestra, sustentabilidade não apareceu como palavra de ordem abstrata. Cabrera procurou relacioná-la diretamente à eficiência: produzir mais utilizando proporcionalmente menos terra, menos recursos e melhores técnicas. Apresentou exemplos de plantio direto, sucessão de culturas e índices de emissão para sustentar que a agricultura brasileira tem argumentos concretos a apresentar no debate ambiental.

A verdadeira conservação não consiste em transformar vastas regiões em museus intocáveis, nem em opor o homem à natureza. Consiste em ordenar o uso dos bens criados de modo racional, responsável e duradouro.

Fragilidades de uma potência

A conferência, entretanto, esteve longe de ser uma celebração sem reservas.

Quanto maior a força agrícola do Brasil, mais graves parecem algumas de suas vulnerabilidades.

Cabrera destacou a forte dependência brasileira de fertilizantes importados, questão que torna a produção sensível a guerras, bloqueios marítimos, tensões diplomáticas e variações bruscas dos mercados internacionais. Chamou também a atenção para os obstáculos à exploração de reservas existentes no próprio território nacional.

Outro ponto foi a dificuldade na celebração de acordos comerciais capazes de colocar o produto brasileiro em igualdade de condições com concorrentes estrangeiros.

A agricultura, assim, encontra-se no cruzamento de duas realidades. De um lado, produtores capazes de competir em escala mundial. De outro, entraves administrativos, regulatórios e diplomáticos que, na avaliação do conferencista, muitas vezes aumentam o custo de produzir e dificultam a abertura de mercados.

Não se tratava, em sua exposição, de pedir privilégios para o campo. Ao contrário: uma de suas teses recorrentes era justamente que a agricultura prosperou quando diminuiu a tutela que pretendia determinar preços, quantidades e destinos da produção.

A propriedade e a ordem natural

Após a exposição e a sessão de perguntas, Dom Bertrand de Orleans e Bragança dirigiu algumas palavras ao auditório.

Seu comentário colocou os dados apresentados por Cabrera dentro de um horizonte mais amplo.

Dom Bertrand evocou o nascimento do Brasil sob o nome de Terra de Santa Cruz, a Carta de Pero Vaz de Caminha e a celebração da primeira Missa. Em seguida, relacionou o futuro econômico do País a princípios que, em sua opinião, não dependem das circunstâncias passageiras de uma administração: livre iniciativa, propriedade privada e subsidiariedade.

O princípio de subsidiariedade possui particular importância.

Ele determina, em síntese, que uma autoridade maior não deve absorver aquilo que pessoas, famílias, associações e corpos intermediários são capazes de realizar por si mesmos. O Estado tem deveres próprios, necessários e insubstituíveis; mas não lhe corresponde substituir toda iniciativa social.

Aplicado ao campo, esse princípio ilumina a relação entre propriedade, responsabilidade e produção.

Quem cultiva uma terra precisa poder colher os frutos do trabalho, responder por seus atos, conservar o patrimônio recebido e transmiti-lo. A propriedade deixa então de ser vista como mero título jurídico e aparece como uma instituição ligada à liberdade e à continuidade das famílias e da sociedade.

Dom Bertrand recordou ainda sua antiga dedicação à TFP e a defesa da propriedade que aquela entidade desenvolveu, hoje continuada pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Encerrou suas palavras manifestando o desejo de que o Brasil realize plenamente a sua vocação e seja exemplo de desenvolvimento em conformidade com a lei de Deus e suas consequências na sociedade.

Uma vocação que não começou com a tecnologia

Ao final da noite, entre conversas, fotografias e livros apresentados a Dom Bertrand para autógrafo, permanecia uma impressão difícil de traduzir apenas em números.

A inteligência artificial era o elemento mais novo da conferência, mas não o mais profundo.

Muito antes dos algoritmos, existia a terra. Antes das máquinas autônomas, existia o trabalho. Antes dos grandes mercados internacionais, existiam famílias que cultivavam, criavam, transmitiam técnicas e faziam nascer cidades ao redor de suas propriedades.

A técnica pode multiplicar essas forças, mas não pode criá-las do nada.

O futuro agrícola do Brasil dependerá certamente de satélites, sensores, genética, máquinas e inteligência artificial. Dependerá também de portos, ferrovias, armazenagem, fertilizantes e mercados.

Mas dependerá, acima de tudo, da existência de uma ordem social na qual seja possível possuir, trabalhar, empreender, transmitir e conservar.

Foi esta talvez a ideia mais profunda deixada pela conferência: o Brasil possui uma imensa riqueza agrícola, porém sua verdadeira grandeza não se mede apenas pela quantidade que exporta.

Mede-se pela capacidade de fazer com que os dons recebidos produzam frutos — materiais, sociais e morais — sem destruir os princípios que tornaram possível cultivá-los.

E, naquela noite em São Paulo, diante de um auditório lotado, ficou patente que ainda há muitos brasileiros dispostos a refletir sobre essa vocação.

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