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Crédito: Editorial

 

Um discípulo de Jesus Cristo pode servir e lutar no exército? Numa guerra, um católico virtuoso e temente a Deus pode matar sem pecar?

Essas perguntas intrigam muitos fiéis, especialmente em nossa época eivada de pacifismo, na qual muitos pregadores apresentam a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo como a de um pregador humanitário e pacifista.

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Para tais pregadores — e os católicos influenciados por eles — as Cruzadas constituem uma mancha na História da Igreja, um passado obscuro do qual todos deveríamos nos envergonhar.

Porém, esses católicos parecem esquecer que a Santa Igreja reconhece como santo o pregador oficial da 2ª Cruzada: São Bernardo de Claraval. E também venera como Beatos os Papas que convocaram as duas primeiras cruzadas: Beato Urbano II e Beato Eugênio III.

Ainda mais: a Igreja canonizou o Rei São Luís IX, que pessoalmente comandou a 7ª e a 8ª cruzadas! Um guerreiro apresentado pela Igreja como modelo de virtude aos fiéis.

Dito isso, podemos então perguntar: o que a Igreja ensina sobre a guerra?

A Igreja e o militarismo Desde o tempo das catacumbas, esse era um problema que se apresentava à discussão.

Afinal, parece que Cristo defendeu o pacifismo, quando Ele mandou aos seus discípulos dar a outra face se recebessem uma bofetada. Entretanto, o mesmo Cristo já havia dito: “Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada” (Mt 10,34).

Embasados nos Padres da Igreja, sabemos que a espada que Cristo trouxe à Terra é a palavra de Deus (Ef 7, 17) que Ele traz em sua boca (Ap 19, 15) para armar os cristãos em seu combate espiritual contra os três inimigos da nossa salvação: o demônio, o mundo e a carne.

Entretanto, há momentos em que esse combate espiritual também assume a forma de uma luta material: diante de inimigos da Cruz de Cristo, cujas ações ultrajam a Deus, escandalizam os pequeninos e prejudicam a Igreja, lutar torna-se um dever. Pois a omissão torna-se cumplicidade com o mal.

Nesse exemplo, a luta espiritual do cristão contra o mundo adquire também o aspecto de uma luta física, na qual o cristão pode e deve empunhar a espada.

Nos primórdios do cristianismo

No tempo das catacumbas, os Padres da Igreja viam a vida militar sob uma ótica negativa, pois ela facilmente constitui uma ocasião de pecado grave, e nenhum fiel pode se expor a tais ocasiões sem uma razão igualmente grave, sob pena de pecar.

Que ocasião era essa? No Exército Imperial Romano, os soldados deviam tomar parte nos cultos aos deuses do Império, algo taxativamente proibido aos católicos que sabiam que “todos os deuses dos gentios são demônios” (Sl 95, 5).

Mas a Igreja não deixou de pregar aos soldados, e, reconhecendo que tais homens não poderiam abdicar dos seus deveres de estado, não exigiu que abandonassem a vida militar, até porque o período de serviço de um legionário romano não era de apenas um ano, como no exército brasileiro contemporâneo, mas 20 anos!

Assim, a vida militar era tolerada — mas não louvada.

Os soldados cristãos deviam se abster de tomar parte nos cultos pagãos do exército e, nos momentos de perseguição, muitos foram martirizados por esse motivo. Dentre os exemplos mais célebres encontramos São Maurício e os milhares de soldados da Legião Tebana, martirizados na Suíça por volta do ano de 287 por se recusarem a tomar parte em cultos pagãos antes de uma campanha contra uma rebelião de camponeses.

Outros exemplos de mártires mortos sob Diocleciano foram São Sebastião, capitão da Guarda Pretoriana (ca. + 287), São Jorge da Capadócia (+303), nobre executado por se recusar a perseguir seus irmãos na Fé, e o Centurião Santo Expedito, da Armênia (+303).

A guerra justa

A conversão do Imperador Constantino, no ano de 312, impulsionou o desenvolvimento da doutrina católica acerca da guerra justa. Enquanto o Imperador Constantino lutava pela hegemonia do poder no Ocidente, nas vésperas da batalha de Ponte Mílvia, teve uma visão do Cristograma (sinal composto pelas iniciais do nome de Cristo em grego ‘X’ E ‘P’) e, à noite, Nosso Senhor lhe apareceu em sonho, dizendo: “sob este sinal vencerás”.

O Imperador pintou nos escudos de seus soldados o Cristograma e obteve uma vitória decisiva. Seu rival Maxêncio morreu tentando fugir e, no ano seguinte, Constantino promulgou o Edito de Milão, acabando com as perseguições aos cristãos.

Nas décadas seguintes, as instituições romanas foram gradualmente sendo cristianizadas até que em 380 o Imperador Teodósio estabeleceu o Catolicismo como a religião oficial do Império Romano.

Diante do Império Cristão, e da necessidade de suas fronteiras serem guardadas contra os bárbaros pagãos, os Padres da Igreja deste período, como Santo Ambrósio e Santo Agostinho, se debruçaram sobre a questão da moralidade da guerra e desenvolveram uma série de princípios, dispersos em vários dos seus princípios, que posteriormente serviram de base para a ‘doutrina da guerra justa’.

ão Tomás de Aquino os tomou como fundamento quando analisou esse assunto na Suma Teológica (II-II, q. 40, a. 1) e, questionado se a guerra é sempre um pecado, ele responde fundamentado numa citação de Santo Agostinho (Ep. ad Marcel.

CXXXVIII):

“Se a disciplina cristã tivesse como culposas todas as guerras, no Evangelho se diria antes, aos que pedem um conselho de salvação, que lançassem de si as armas e abandonassem completamente a milícia. Ora, o Evangelho lhes diz: Não trateis mal pessoa alguma e dai-vos por contentes com o vosso soldo. Aos que mandou ficar contentes com o soldo próprio não proibia guerrear.”

Na mesma questão, São Tomás elenca três requisitos para que uma guerra seja justa — e, portanto, que possa ser travada sem pecado:

1.   A autoridade do príncipe

A guerra é um assunto do interesse comum, portanto, não cabe a ela ser declarada por particulares, e sim pelas autoridades legitimamente constituídas, pois a elas compete velar pelo bem público. São Tomás diz que as autoridades defendem o bem comum “com a espada, contra os perturbadores internos, quando punem os malfeitores […]. Assim também, com a espada da guerra, pertence-lhes defender a coisa pública contra os inimigos externos”.

2.   Causa justa

O segundo motivo talvez seja o mais conhecido de todos: é preciso que haja uma causa justa para se travar uma guerra, em seus dizeres: “que os atacados mereçam sê-lo, por alguma culpa. Por isso diz Agostinho: Costumam definir as guerras justas como as que vingam injúrias, quando uma nação ou uma cidade, que vai ser atacada pela guerra, ou deixou de castigar o que foi iniquamente feito pelos seus membros, ou de restituir o de que se apoderou injustamente”.

O maior de todos os Doutores da Igreja ensinando que um Estado pode declarar uma guerra não apenas defensiva, mas também ofensiva para fazer cessar uma injustiça!

3.   Uma reta intenção naqueles que fazem a guerra

A terceira condição não diz tanto respeito à causa da guerra, quanto ao modo de conduzi-la: que se pretenda promover o bem ou evitar o mal. Novamente, São Tomás fundamenta sua resposta com Santo Agostinho, dizendo:

“Os verdadeiros adoradores de Deus consideram justas também as guerras feitas, não por cobiça ou crueldade, mas por desejo de paz, para que os maus sejam reprimidos e os bons socorridos. Pode, contudo, acontecer que, mesmo sendo legítima a autoridade de quem declara a guerra e justa a causa, ela venha a tornar-se ilícita por causa da intenção depravada. Pois, diz Agostinho: O desejo de danificar, a crueldade no vingar-se, o ânimo encolerizado e implacável, a fereza na revolta, a ânsia de dominar e causas semelhantes são as que, nas guerras, são condenadas pelo direito.”

Não buscamos a paz?

Entretanto, alguém poderia objetar: Jesus Cristo é chamado de Príncipe de Paz, e repetidas vezes os Santos Pontífices falaram sobre a necessidade de se buscar a paz. Aprovar ou mesmo, convocar guerras, não seria uma contradição?

Acontece que a guerra não é necessariamente o contrário da paz. Conforme definiu Santo Agostinho, a paz é a tranquilidade na ordem.

Hoje o Brasil encontra-se em paz? Uma sociedade na qual o pecado é banalizado, a mídia incentiva o uso de drogas, a promiscuidade, o aborto; os costumes são frontalmente contrários à moral católica, trata-se de uma sociedade que não se encontra em ordem. E por isso, ainda que não esteja diretamente atingida por uma guerra, é uma sociedade que não está em paz.

Mas quem trava uma guerra para restabelecer a ordem, luta pela verdadeira paz. Assim São Tomás resolve a questão, dizendo:

“Também os que movem guerra justa buscam a paz. Por isso não contrariam senão à má paz, que o Senhor não veio trazer à terra, conforme a Escritura (Mt 10, 34).

Por isso diz S. Agostinho:

Não buscamos a paz para provocar a guerra, mas fazemos a guerra para alcançar a paz. Por isso, quando fizeres guerra sê pacífico, para, vencendo os que guerreias, os conduzires à utilidade da paz.”

De tal modo a Igreja desenvolveu a doutrina da guerra justa a partir dos princípios ensinados no Evangelho. Ela não contradiz a visão negativa que os primeiros autores cristãos tinham da vida militar, pois a guerra não é intrinsecamente má, e o contexto negativo do exército pagão romano não mais existe.

Desse modo, sim, é possível que existam santos militares que tomaram parte em combates e mataram os inimigos. Como São Luís IX, São Fernando de Castela, Santo Henrique II…

É na Idade Média que o ideal do guerreiro cristão se personifica.


Fonte: Catolicismo — https://catolicismo.com.br/destaque/as-cruzadas-contradizem-o-espirito-cristao

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