Todos os dias, mesmo quando estava em viagem, São Geraldo de Aurillac levantava-se às duas horas da madrugada para recitar a primeira parte do Ofício Divino. Depois, assistia à Missa. Essa disciplina de oração não era a de um monge retirado do mundo, mas a de um conde encarregado de extensas propriedades e das obrigações próprias de sua posição.
Nascido em 855, em Saint-Cirgues, Geraldo pertencia a uma família nobre. Durante a juventude, padeceu de uma longa enfermidade. Impedido de se dedicar plenamente aos exercícios militares que se esperavam de alguém de sua condição, empregou grande parte do tempo na meditação, no estudo e na oração. Aquilo que poderia ter sido apenas uma limitação contribuiu, assim, para formar uma vida interior que o acompanharia quando assumisse responsabilidades maiores.
Um conde dedicado à justiça
Após suceder ao pai como conde de Aurillac, na Auvérnia, Geraldo tornou-se senhor de propriedades consideráveis. A mudança de condição não o afastou da vida de piedade. Ao contrário, procurou ordenar o exercício da autoridade segundo os deveres cristãos, distinguindo-se pela justiça e pela eficiência com que administrava seus domínios.
Sua religiosidade não se limitava a práticas exteriores. Vestia-se com modéstia, alimentava-se sobriamente e conservava uma rotina exigente de oração. Ao mesmo tempo, empregava parte substancial de suas rendas no socorro aos pobres. A posição social, para ele, não era uma dispensa dos deveres morais, mas uma responsabilidade acrescida para com aqueles que dependiam de seu governo e de seus bens.
Essa união entre recolhimento e ação constitui um dos traços mais expressivos de sua vida. Geraldo não abandonou as incumbências próprias de um nobre para buscar a santidade. Procurou santificar-se cumprindo-as com retidão, sem permitir que a riqueza, o prestígio ou o poder se tornassem fins em si mesmos.
A fundação da abadia de Aurillac
Depois de realizar uma peregrinação a Roma, Geraldo mandou construir uma igreja dedicada a São Pedro. Por volta do ano 890, fundou também uma abadia beneditina em Aurillac e dotou-a generosamente com seus recursos. O mosteiro alcançaria posteriormente grande fama ao ser assumido pela ordem cluniacense.
A fundação tornou-se a obra mais duradoura associada ao nome do conde. Ela expressava de maneira concreta sua preocupação com o culto divino e com a consolidação da vida religiosa nas terras sob sua influência. Geraldo não se contentou com uma devoção estritamente pessoal: colocou seus bens a serviço de uma instituição destinada a sobreviver-lhe.
Em determinado momento, cogitou tornar-se monge no próprio mosteiro. Gausberto, bispo de Cahors, porém, aconselhou-o a permanecer no estado leigo. O prelado considerava que Geraldo seria mais útil dedicando-se, naquela condição, ao bem de seus próximos e dependentes.
Ele acolheu o conselho. Continuou a governar, a assistir os necessitados e a sustentar a abadia, mostrando que a entrega a Deus não exige de todos o mesmo caminho exterior. Para Geraldo, a renúncia não consistiu em fugir das obrigações de sua condição, mas em exercê-las sem apego desordenado, submetendo os próprios recursos e autoridade a uma finalidade mais elevada.
Os últimos anos e a memória do santo
São Geraldo ficou cego durante os sete últimos anos de sua vida. Morreu em 909, em Cezenac, na região de Quercy, e foi sepultado na abadia que havia fundado em Aurillac.
São Odo de Cluny escreveu posteriormente uma vida de São Geraldo, contribuindo para tornar sua figura conhecida na França medieval. Sua memória permaneceu especialmente vinculada à Auvérnia, da qual é considerado padroeiro na parte superior. Entre seus parentes de gerações posteriores esteve São Roberto de Chaise-Dieu, fundador de outra importante abadia da região.
A vida de São Geraldo de Aurillac mostra uma vocação leiga vivida com seriedade incomum. Sua oração metódica, a sobriedade pessoal, o cuidado com os pobres, a administração justa e o apoio à vida monástica não foram atividades separadas, mas aspectos de uma mesma fidelidade. Permanecendo conde, fez da autoridade recebida um serviço e dos bens temporais um instrumento de caridade e de culto a Deus.




