Continuação do post anterior: Visão apocalíptica fundada em “dogmas” sem base científica

 

Os índios, modelo de respeito ecológico à natureza

O reverso da medalha das críticas ao desenvolvimento é a visão romântica que o Papa Francisco apresenta dos povos indígenas, os quais seriam modelos de sabedoria no seu relacionamento com a natureza: “Para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida”[1].

Em outra passagem, falando das cooperativas e do autoabastecimento, Francisco afirma que assim “é possível gerar uma maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela própria terra”, e acrescenta: “Estes valores têm um enraizamento muito profundo nas populações aborígenes”[2].

Durante sua viagem ao México, em sermão para os índios de Chiapas, após afirmar que vivemos “uma das maiores crises ambientais da história”, ele declarou: “Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos, a ensinar à humanidade. Os vossos povos […] sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como ‘fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano’”[3].

Evidentemente esses elogios não são alheios aos conflitos existentes em várias partes do mundo entre ditas populações e as autoridades nacionais a propósito de projetos hidroelétricos ou extrativos de minerais em terras indígenas. Curiosamente, apesar de reconhecer, no início da encíclica, que “o princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético-social’”[4], esse princípio de subordinação da propriedade privada ao bem comum perde a validade quando se trata de populações indígenas, cujo direito ao território ancestral passa a ser absoluto, ainda que essa santuarização seja prejudicial ao desenvolvimento da respectiva nação e dos próprios povos aborígenes.

Assim, durante uma audiência com os participantes no 3° Fórum dos povos indígenas, organizado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola, o Papa Francisco afirmou que “deveria prevalecer sempre o direito ao consenso prévio e informado”, ao evocar o problema de “como reconciliar o direito ao desenvolvimento […] com a tutela das caraterísticas próprias dos indígenas e dos seus territórios”, especialmente nos casos de atividades econômicas “que podem interferir com as culturas indígenas e a sua relação ancestral com a terra”[5].

O Papa Francisco teve outros encontros com os povos aborígenes durante sua viagem de janeiro de 2018 ao Chile e ao Peru, tendo neste último país visitado a Amazônia.

Falando aos nativos dessa imensa região, após palavras de forte impacto retórico: “Nós, que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar — sem o destruir — no tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do Senhor a Moisés: ‘Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa’ (Ex 3, 5), o pontífice reiterou sua preferência pelo estilo de vida indígena em confronto com aquele do Ocidente, no qual tudo seria condenável: “A verdade é que vós, com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência de um estilo de vida que não consegue medir os custos do mesmo. Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum”[6].

Surge no espírito a seguinte pergunta: — Esta contínua increpação ao modelo cultural e econômico do Ocidente, acompanhada de um simétrico elogio à sabedoria do estilo de vida aborígene, representa uma chave de leitura presumível das orientações do próximo Sínodo Especial sobre a Amazônia, convocado para 2019? A resposta deveria ser categoricamente afirmativa caso se leve em consideração a simpatia pela Teologia da Libertação de alguns dos 18 membros do Conselho pré-Sinodal que colaborará com a Secretaria Geral na preparação da Assembleia Especial, tais como o cardeal Cláudio Hummes e Dom Erwin Kräutler, prelado emérito de Xingu. Além dos preocupantes temas já explicitamente levantados por esses dois prelados sobre a ordenação sacerdotal de leigos casados (viri probati) e a simultânea revisão do celibato eclesiástico — o que inauguraria uma prática que a partir da Amazônia poderia dilatar-se por toda a Igreja —, será preciso acompanhar com atenção se no referido Sínodo não se procurará também impor a todos os católicos a ideologia indigenista promovida por um setor pró-Teologia da Libertação do episcopado brasileiro, a qual já foi objeto quatro décadas atrás de uma documentada denúncia do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Tribalismo indígena: Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI[7].

Continua no próximo post: A “governança mundial” para promover uma “comunhão universal” teilhardiana

O livro pode ser lido na integra na pagina: https://ipco.org.br/a-mudanca-de-paradigma/

O livro A “mudança de paradigma” do Papa Francisco – Continuidade ou ruptura na missão da Igreja? pode ser comprado na livraria Petrus:

http://www.livrariapetrus.com.br/Produto.aspxIdProduto=382&IdProdutoVersao=394&cod=UKZbn


[1] Laudato Sì n° 146

[2] Ibid. n° 179.

[3] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2016/documents/papa-francesco_20160215_omelia-messico-chiapas.html

[4] Laudato Sì n° 93.

[5] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/february/documents/papa-francesco_20170215_popoli-indigeni.html

[6] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2018/january/documents/papa-francesco_20180119_peru-puertomaldonado-popoliamazzonia.html

[7] http://www.pliniocorreadeoliveira.info/Tribalismo_last_corre%C3%A7%C3%A3o.pdf

3 COMENTÁRIOS

  1. […] Durante sua viagem ao México, em sermão para os índios de Chiapas, após afirmar que vivemos “uma das maiores crises ambientais da história”, ele declarou: “Nisto, vós tendes muito a ensinar-nos, a ensinar à humanidade. Os vossos povos […] sabem relacionar-se harmoniosamente com a natureza, que respeitam como ‘fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhar humano’”[3]. […]

  2. […] O reverso da medalha das críticas ao desenvolvimento é a visão romântica que o Papa Francisco apresenta dos povos indígenas, os quais seriam modelos de sabedoria no seu relacionamento com a natureza: “Para eles, a terra não é um bem econômico, mas dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado com o qual precisam interagir para manter a sua identidade e os seus valores. Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida”[1]. […]

Deixe um comentário!