Católicos em defesa da Igreja no século XIX

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Transcrevemos o artigo do Prof. Fernando Furquim de Almeida, futuro vice presidente da TFP brasileira, publicado em 1951, — O Catolicismo no século XIX — sob o pseudônimo Bertrand de Poulengy. Estudioso e profundo conhecedor de Cluny, do movimento católico do século XIX, publicou ele uma série de artigos sobre a reação católica contra os erros da Revolução Francesa.

A respeito da Contra Revolução no século XIX escreveu o Prof. Plinio: “É por este motivo que, por ocasião da Revolução Francesa, e no decurso do século XIX, houve na França um movimento contra-revolucionário melhor do que jamais houvera anteriormente naquele país. Nunca se vira tão bem a face da Revolução. Baixe o pdf gratuitamente.

Prof. Pinio e Prof. Furquim de Almeida

Sirva de exemplo a nossos jovens do século XXI que lutam pela Santa Igreja (contra o progressismo) pela Civilização católica (contra o comunismo). Essa é a nossa luta para reconstuir o Brasil após décadas de esquerdismo.

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O Catolicismo no século XIX – I

Fernando Furquim de Almeida

Um renascimento católico pujante seria o fruto dos sofrimentos e da bravura dos católicos da era da Revolução. Esse reflorescimento católico foi universal, bastando lembrar os nomes de O’Connell na Inglaterra, Balmes e Donoso Cortés na Espanha e Windhorst na Alemanha. Mas, como não poderia deixar de ser, foi a França o seu berço, e lá serão travadas, durante todo o curso de século XIX, as batalhas mais acesas entre a Igreja e a Revolução, batalhas essas seguidas com interesse por todo o mundo, e cujo resultado era ansiosamente esperado, pois indicaria o curso que seria seguido pela humanidade.

No primeiro capítulo de seu livro “Des intérêts catholiques au dixneuvième siècle”, Montalembert, descrevendo a situação da Igreja em 1800, mostrava em toda parte ruínas e perseguições, e não vislumbrava nesse vasto naufrágio o menor sinal que justificasse a esperança de melhores dias para a Igreja de Nosso Senhor. Uma testemunha dessa época, Joseph de Maistre, respondia a uma carta do Marquês de …(*) com estas palavras: “O Sr. me pede para abrir o coração sobre uma das maiores questões que podem interessar hoje um homem sensato. Quer que eu exponha meu pensamento sobre o estado atual do Cristianismo na Europa. Poderia lhe responder em duas palavras: olhe e chore”. (1)

Realmente tudo parecia perdido. Depois de ter abatido um dos mais fortes e mais gloriosos tronos da Cristandade e aprisionado o Santo Padre, fonte e seiva da Civilização Católica, a Revolução, julgando ter realizado a primeira parte do seu programa, iniciava uma nova fase, na qual, sem os horrores dos tempos iniciais, espalhava suas ideias num mundo atemorizado, o qual buscava nessa pretensa conversão do monstro revolucionário o pretexto para não mais o combater. Por outro lado, as monarquias tradicionais, que deveriam liderar a reação, procuravam se amoldar aos novos princípios, numa ânsia insofrida de não perder seus tronos, ou ressuscitavam os antigos erros regalistas, imaginando opor-se tanto melhor à Revolução quanto mais absolutistas se mostrassem.

Para agravar a calamidade, morto Pio VI em Valença, a Igreja entrava no novo século sem Pastor e com o Sacro Colégio disperso, impedido de voltar a Roma e enfrentando as maiores dificuldades para se reunir a fim de eleger o novo Pontífice. Titubeantes e fracos no início da Revolução, sacrificando tudo quanto era humanamente possível para não enfrenta-la, os católicos, no entanto, haviam suportado o martírio com denodo quando a Revolução quis exigir mais do que eles poderiam conceder. Essa firmeza na defesa de seus princípios transformaria a fisionomia do século, que se iniciava com tão maus prognósticos.

O renascimento católico

Um renascimento católico pujante seria o fruto dos sofrimentos e da bravura dos católicos da era da Revolução. Esse reflorescimento católico foi universal, bastando lembrar os nomes de O’Connell na Inglaterra, Balmes e Donoso Cortés na Espanha e Windhorst na Alemanha. Mas, como não poderia deixar de ser, foi a França o seu berço, e lá serão travadas, durante todo o curso de século XIX, as batalhas mais acesas entre a Igreja e a Revolução, batalhas essas seguidas com interesse por todo o mundo, e cujo resultado era ansiosamente esperado, pois indicaria o curso que seria seguido pela humanidade.

Assim, estudando o movimento católico francês ter-se-á uma visão de conjunto do Catolicismo no século XIX. Esse movimento teve por ponto de partida dois homens, dos quais um é justamente célebre e de renome universal, e o outro injustamente esquecido: Joseph de Maistre e o Pe. Bourdier Delpuits.

Justificando o velho ditado de que Deus escreve direito por linhas tortas, um dos grandes benefícios advindos indiretamente da Revolução, senão o maior, foi ter levado Joseph de Maistre a escrever os seus célebres livros. Senador da Savóia e vivendo num país organizado, sua existência transcorria serena quando arrebentou a Revolução. Obrigado a emigrar, o espetáculo de devastação que presenciou e sua larga visão do futuro levaram-no a tomar da pena para combate-la, advertindo a humanidade dos perigos que correria se seguisse seus princípios e apontando o abismo em que fatalmente viria a cair com sua vitória.

Daí os livros que o fizeram um clássico da literatura francesa, entre eles o célebre “Du Pape”, que o transformou em líder das novas gerações católicas. O livro “Du Pape”, verdadeiro hino ao Papado, restabelece o seu verdadeiro lugar na História, os seus direitos e prerrogativas, e principalmente dá um impulso novo à doutrina da infalibilidade do soberano Pontífice, que o Concílio do Vaticano, em 1870, promulgaria dogma. Foi o livro que mais influiu nos católicos do século XIX.

Católico e ultramontano são sinônimos

Daí por diante foram conhecidos por ultramontanos os que seguiam as suas ideias. Louis Veuillot, respondendo a “Le Siècle”, que apontava o ultramontanismo como uma nova seita, podia dizer que católico e ultramontano eram palavras perfeitamente equivalentes, sendo uma sinônima da outra; pois, a não ser os galicanos, todos os católicos se declaravam ultramontanos.

 O Pe. Bourdier Delpuits entrara muito jovem na Companhia de Jesus. Em 1762, quando esta fora expulsa da França, ainda não tinha ele pronunciado os últimos votos, o que lhe permitiu entrar no clero secular. Durante a Revolução, foi preso e exilado, mas voltou à França antes da queda de Robespierre, por julgar de seu dever exercer ali o sagrado ministério, apesar dos perigos que corriam os padres refratários. Preocupado com a situação dos jovens, e principalmente dos universitários, o Pe. Delpuits, aproveitando a liberdade que Napoleão concedera ao exercício do culto, fundou a 2 de fevereiro de 1801 a Congregação Mariana Santa Maria Auxilium Christianorum, conhecida na história da França simplesmente por “a congregação”.

Uma Congregação Mariana na origem do ultramontanismo

Foi essa Congregação Mariana que deu verdadeira formação religiosa à juventude que crescera sob a Revolução. Dela saíram os primeiros grandes nomes católicos neste século: o Duque Mathieu de Montmorency, o Cardeal Príncipe de Rohan e Félicité de Lamennais. Seus congregados eram incansáveis no serviço da Igreja. Quando Napoleão, depois de tentar subjugar a Igreja, entrou em luta aberta contra ela, foram os congregados que trouxeram a bula de excomunhão do imperador e a publicaram em Paris. No auge da luta, quando Napoleão prendeu o Papa e impediu a comunicação entre os cardeais, foram eles que, burlando a polícia mais bem organizada daquela época, serviram de mensageiros entre os membros do Sacro Colégio que estavam na França.

A congregação (mariana) foi a primeira a ser combatida pelos revolucionários, que no fim da restauração lhe moveram uma perseguição sistemática, até abatê-la, aproveitando-se da fraqueza de Carlos X. Mas, ao desaparecer, a semente já estava lançada: conversão numerosa se anunciava, e Lamennais já liderava um dos mais auspiciosos movimentos católicos que jamais apareceram na França. Napoleão não se iludiu com a pseudo-derrota da Igreja no início do século, e tentou uma retirada dando-lhe aparente liberdade, mas tentando por todas as formas subordiná-la ao Estado. A Restauração mostrou-se incapaz de reconstruir a antiga monarquia francesa.

Aproveitando-se de todas as instituições napoleônicas, tentou se amoldar às novas ideias e restaurar o absolutismo estatal em matéria religiosa. Toda a política eclesiástica de Luís XVIII e Carlos X visava ressuscitar o galicanismo. Se a França não se tornou um país galicano, isso se deve em grande parte a Félicité de Lamennais. Lamennais aliava a uma inteligência genial um dom excepcional de proselitismo. Discípulo de Joseph de Maistre, reuniu em torno de si uma verdadeira plêiade de futuros grandes nomes do Catolicismo, formando-os e difundindo as ideias ultramontanas.

Assim, vemos em La Chênaie, seu quartel general: D. Guéranger, o restaurador da liturgia romana; o Pe. Salinis, que seria cardeal e um dos primeiros jornalistas católicos; o Pe. Rohrbacher, o melhor historiador da Igreja no século XIX; o Pe. Gerbert, que Louis Veuillot considerava um dos mestres da literatura francesa; o Conde de Lacordaire, Montalembert e tantos outros, sem contar os trânsfugas como Lamartine e Victor Hugo.

Um QG contra o galicanismo

De La Chênaie partiam os assaltos contra o galicanismo, quer combatendo os seus erros, quer denunciando suas tramas, quer expondo os verdadeiros princípios do Catolicismo. De lá saíam livros, jornais, novas edições de Joseph de Maistre, obras de puro apostolado. Tendo Chateaubriand aberto as portas do “Le Conservateur” a Lamennais e seus discípulos, as teses caras a Joseph de Maistre eram expostas no melhor jornal da época.

Lamennais não deixava em paz Mons. Frayssinous, Bispo de Hermópolis, Grão Mestre da Universidade e nessa época chefe do galicanismo. A Inquisição, a Liga e os Guises eram exaltados, e, para grande escândalo de alguns galicanos, o Pe. Salinis publicava artigos em honra a S. Gregório VII. Com a queda de Carlos X, toda essa obra tão promissora quase se perdeu, com a reviravolta brusca de seu chefe. De um momento para outro, o líder ultramontano e legitimista Lamennais passa a defender os erros da Revolução. É quando aparece “L’Avenir”, fundado com o objetivo de “reconciliar a Igreja com a liberdade”. Lamennais era uma bandeira, e o alto nível e brilho com que seus redatores apresentavam o jornal assegurou-lhe um sucesso incalculável. Pouco a pouco, porém, não tanto os ataques dos galicanos quanto a verdadeira orientação (liberal), que se tornava clara, foi afastando os católicos. “L’Avenir” foi perdendo assinantes e terreno, até ser forçado a desaparecer em 1832. É bastante conhecida a história do fim de Lamennais.

Fechado o jornal, ele vai para Roma com Lacordaire e Montalembert, pedir à Igreja um pronunciamento sobre as teses do “L’Avenir”. Recebendo-os friamente, Gregório XVI usa de todos os meios para não ser obrigado a lançar uma condenação sobre o antigo campeão da infalibilidade. Lacordaire e Montalembert vêem a partida perdida e se afastam da cidade, mas Lamennais, tomado de um orgulho satânico, se obstina. Quando resolve afinal retirar-se, o faz com um supremo desafio à Santa Sé, declarando ao Inter núncio em Florença que vai reabrir “L’Avenir”, e que não querendo Roma julgá-lo, considerava-se absolvido.

Gregório XVI condena os erros de L´Avenir

Gregório XVI, com a Encíclica “Mirari vos”, condena então todas as teses de “L’Avenir”. Abafando sua revolta, Lamennais submete-se, para pouco depois apostatar. O conhecido agitador italiano Mazzini escrevia por essa época: “Napoleão, aprisionando o Papado, arrastando-o para Paris, ameaçando-o e transigindo politicamente com ele, acabou de o desconsiderar e aviltar. Tombado o gigante, e a inércia política permitindo o renascimento dos estudos filosóficos e pacíficos, aparecem o espiritualismo, o ecletismo, escolas que, embora não reneguem o sentimento religioso, não consideram mais o Papado como um elemento necessário. Em todo o mundo católico não ficava para o Papa senão Joseph de Maistre”. Era cedo ainda para Mazzini cantar vitória.

Lamennais, de fato, comprometera seriamente o movimento católico do século XIX com a aventura de “L’Avenir”. Sua escola cindiu-se. Alguns, como Lacordaire e Montalembert, conservaram as tendências más da segunda fase da época do jornal, e iriam tomar mais tarde o lado dos católicos liberais, enquanto outros, como D. Guéranger, o Pe. Rohrbacher e o Pe. Salinis conservaram a formação antiga. Dentro em breve surgiria aquele que, como Lamennais da primeira fase, seria o sucessor de Joseph de Maistre na defesa do Papado: Louis Veuillot, o maior jornalista católico de todos os tempos.”

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A reação anti progressista, anticomunista no Brasil reproduz, no século XXI a epopeia dos católicos antiliberais do século XIX. Fica ai uma preciosa indicação aos jovens de hoje, como servir à Santa Igreja, ao Brasil levantando uma reação em nome dos princípios católicos, em favor de Tradição, Família, Propriedade

(*) Não cita o nome do marquês

(1) Letrres e opuscules inédits de Joseph de Maistre, 1861, A. Vaton, Libraire – éditeur – II – p. 369 “Catolicismo” n° 1, janeiro de 1951

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