UUÔÔÔOOU… Brada o gondoleiro com sua rude e sonora voz.  Apenas lhe responde o eco das paredes das velhas e artísticas construções. Não é música, mas um sinal: como ninguém retruca, ele pode continuar navegando por aquele estreito caminho aquático, sem risco de colisão: ninguém vem em sentido contrário, no leito daquela estreitíssima rua liquida.

Ele está tranquilo, como de costume, portando seu chapéu característico com uma fita vermelha. Não é um lobo do mar, mas uma raposa das minúsculas ruelas de água salgada de Veneza. Muitas vezes escapa para o Canal Grande – este sim largo e cravejado de monumentos arquitetônicos célebres e donde a certa altura se divisa lendária Basílica de San Marco, a “Torre dell’Orologio” , o grandioso  Palácio do Doges, com seu gótico veneziano; no outro lado das águas, a Chiesa della Salute, etc.

Além disso, há os grandes leões de bronze, os cavalos e outras pequenas obras de arte, que topamos de cá e de lá. E o aroma de mar indissociável de Veneza, do qual se fica privado conhecendo Veneza apenas através dos álbuns de fotografias e dos cartões postais. Admirar Veneza, sem sentir o odor de mar, é não apanhar  todo o seu charme…

“A nostalgia do passado e a tristeza das coisas que dormem, porque morreram e não deveriam ter morrido, se misturam”, exclama Dr. Plinio, [1] e  assim é em Veneza.

Mas o que é uma gôndola? Uma embarcação com mais de dez metros de comprimento,  com um único remador e as linhas elegantes de um instrumento musical. Típico de Veneza, ele é o único do gênero sobre a face da Terra.

A gôndola é ela mesma com muita força. Felizmente, é um objeto típico e não exclusivamente funcional. Por isso, tem história:

“A gôndola atual remonta a 1562, quando um decreto do Senado impôs que fosse pintada de preto. Ela deriva de um tipo antiquíssimo de embarcação; que já teria sido usada em 697 em Eraclea e recordada em um documento de 1094. As técnicas de construção ficaram praticamente as mesmas ao longo do tempo. A construção da gôndola é um ato de paciência e de amor. A embarcação tem a linha sensibilíssima de um instrumento musical, em realidade é estudada para ser lançada na água com o mínimo esforço, e é enriquecida nos detalhes como merece um instrumento perfeito como ela é. O ferro da proa com forma de alabarda serve para compensar o peso do gondoleiro que fica na popa”. [2]

A gôndola é um objeto estuante de personalidade. E nesse sentido segue a “lei do típico”, da estética do universo tal como a expôs Plinio Corrêa de Oliveira:

Para bem entendermos essa lei, vamos servirmos de um exemplo. Tomemos uma sala com vários objetos: Poltronas, lustres, quadros, tapete, cortinas. Aí está a variedade de elementos. Em que condições, entretanto, será autêntica essa variedade? Só o será quando cada objeto for – muito tipicamente, muito caracteristicamente – ele mesmo. Digamos que todos esses objetos fossem feitos de uma única substância – a matéria plástica, por exemplo, tão ao gosto do mundo moderno […]. O característico é, pois, um sinal distintivo da variedade autêntica. É nele que a verdadeira variedade se realiza”[3].

O mesmo podemos admirar no estilo gótico que, sendo cheio de variedade e de unidade, é por isso equilibrado e harmônico.  A civilização moderna, pelo contrário, odeia a variedade e idolatra uma pseudounidade.

“Ela detesta tudo o que é típico e, em geral, ama o que é promíscuo e confuso”. Abolindo a variedade e colocando em seu lugar uma uniformidade sem o menor sentido, a Revolução é igualitária e destrói a semelhança da criatura com o seu Criador.

Enfim, dirá alguém: uma simples gôndola em uma cidade tão rica de beleza e obras de arte, é bem pequena coisa. Um artigo inteiro dedicado a ela não foi perda de tempo? valeu a pena? Respondo com um poeta: tudo vale a pena, se a alma não é pequena![4]

 


[1] Plinio Corrêa de Oliveira, conferência em 10-9-76.

[2] Fulvio Roiter,  Essere Venezia, Magnus ed., Udine, 1977.

[3]  Conferencia pronunciada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em novembro de 1958 e publicada na revista “O Mensageiro Carmelitano”, de 15/5/59.

[4]  Fernando Pessoa, “Mar Português”.

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