O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?

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François Mitterrand comemora no dia da sua eleição, em 1981

Há exatos 40 anos Plinio Corrêa de Oliveira redigiu com este título o histórico e magistral manifesto que marcou a década 1980 e repercutiu intensamente nos anos seguintes em diversos países.

Em 1981 o Partido Socialista Francês vencia pela primeira vez o pleito eleitoral. O novo presidente, François Mitterrand (1916-1996), aproveitando o sucesso nas eleições, lançou sua política exterior tendo como meta “exportar” para o mundo inteiro o expansionismo ideológico e o intervencionismo político do “socialismo autogestionário” [vide explicação no final].

Era uma nova cara, “maquilada”, para substituir a carranca decrépita dos regimes comunistas, que fracassavam a olhos vistos. Mudar-se-ia o rótulo da garrafa, mas o líquido (a “sociedade autogestionária”) continuaria o mesmo comunismo, e até mais envenenado. Esse era o novo modelo de regime “rejuvenescido” que, a partir da França — servindo-se da evidente irradiação cultural do país — seria exportado para governar muitos países, inclusive o Brasil, mas com certo charme que o PT nunca teve…

Foi então que Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP brasileira, lançou uma campanha que se alastrou por vários países. Ela representou “um dos supremos esforços empreendidos ‘in signo Crucis’, a fim de evitar à civilização ocidental agonizante o soçobro final para o qual esta se vai deixando rolar”.1

Esse monumental documento-denúncia do “socialismo autogestionário” de Mitterrand — que passaremos a nomear apenas como Mensagem — foi publicado pelas Sociedades de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) em seis páginas de 187 jornais de 52 países. Suscitou repercussões em 124 nações e teve uma tiragem total de 33,5 milhões de exemplares em 14 idiomas [ver, no final, exemplo de uma das repercussões].

O extraordinário lance foi tão ousado, que causou assombro e temor nos movimentos esquerdistas mundiais. A partir de então, a rosa, símbolo do Partido Socialista Francês, começou a murchar. À medida em que a estrela do “socialismo autogestionário” se apagava, a própria sede daquele partido ia a leilão…

*   *   *

            Em memória desse manifesto-bomba contra o socialismo de Mitterrand, reproduzimos a seguir excertos do capítulo 12, da parte II, do livro Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs (1989), inserindoapenas os subtítulos. Esse livro encontra-se disponível integralmente no site abaixo indicado.E nossos leitores encontrarão a íntegra da Mensagem das TFPs no site de Catolicismo ou em nossas edições de janeiro/fevereiro de 1982.3

Da Redação de Catolicismo

Socialismo autogestionário: denúncia da TFP atinge 33,5 milhões de exemplares e é publicada em 52 países

O socialismo havia triunfado na França. Mas seu programa autogestionário teve de ser arquivado logo nos primeiros meses de governo

Por ocasião da vitória socialo-comunista ocorrida na França em meados de 81, primeiro nas eleições presidenciais e, logo depois, nas legislativas, as caixas de ressonância da propaganda da esquerda colocaram Mitterrand e suas ideias no auge da notoriedade no mundo inteiro. O socialismo autogestionário, preconizado pelo Partido Socialista (PS), tornou-se de repente a esperança de todas as esquerdas, que até então estavam desanimadas pelas recentes e dolorosas derrotas eleitorais do socialismo na Suécia, Alemanha, Inglaterra e em outros países.4

Plinio Corrêa de Oliveira apresenta um exemplar do primeiro jornal que publicou a “Mensagem” no mundo: o “Frankfurter Allgemeine”, da Alemanha

O PS francês se proclamou internacional por natureza e por vocação, e afirmou sua determinação de colocar a serviço do objetivo socialista autogestionário o prestígio e a irradiação cultural que a França exerce no mundo.

Fiel a esta declaração de intenções, Mitterrand — favorecido pela grande aura publicitária que envolvia sua vitória — elabora uma política exterior de expansionismo ideológico e de intervencionismo político. A América Latina é, em pontos nevrálgicos, um dos primeiros objetivos visados. O apoio aberto dado aos movimentos guerrilheiros da América Central — nos quais a “esquerda católica” se engajara a fundo — e em particular a provocante proteção diplomática e militar concedida ao sandinismo da Nicarágua, atestavam que as pretensões imperialistas do socialismo francês não eram simples figuras de retórica.

Os partidos e correntes socialistas de toda a América Latina, anteriormente tão desprovidos de prestígio, começaram a levantar a cabeça. A última expressão desta perigosa moda francesa, a autogestão, principiava a encontrar eco em certos setores da opinião pública.

Diante desta moda internacional, era preciso a todo preço reagir! Tanto mais que se fechavam em um inexplicável mutismo aqueles que o cargo, a situação ou a influência obrigavam a empreender a contraofensiva.

A histórica e potente reação das TFPs              

Ela veio de onde talvez menos se esperava, e com uma envergadura que deixou estupefatas as esquerdas do mundo inteiro: no dia 9 de dezembro de 1981, em publicidade no “Washington Post”, dos Estados Unidos, e no “Frankfurter Allgemeine”, da Alemanha, um artigo ocupando seis páginas de jornal vibra um golpe monumental no socialismo autogestionário, cavalo de batalha do PS francês.

Sob o título O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?, o documento, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, é assinado pelas TFPs e entidades afins de 13 países: Brasil, Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Portugal, Uruguai e Venezuela.

Logo depois, é publicado no “The Observer”, de Londres; “Il Tempo”, de Roma; “La Vanguardia”, de Barcelona; “Diario de Notícias”, de Lisboa; “The New York Times”, “Los Angeles Times”, “The Dallas Morning News” (Estados Unidos); “The Globe and Mail”, de Toronto; “Folha de S. Paulo”; “La Nación”, de Buenos Aires; “Sunday Times”, de Johannesburg, e em 34 outros jornais de importância pela tiragem e pela influência na imprensa ocidental.

A contraofensiva das TFPs surpreendeu o mundo

O mundo vê, com surpresa, católicos anticomunistas empreenderem uma campanha publicitária de proporções desconhecidas até então.

A extensão da matéria chama a atenção. A esquerda internacional, boquiaberta, exclama: seis páginas!

E a famosa “maioria silenciosa” — esse magma impreciso que opõe uma muda resistência às transformações comunistizantes no mundo contemporâneo — pôde constatar com satisfação que do lado conservador há ainda uma voz que sabe proclamar as verdades oportunas. Embora entrincheirada no seu silêncio, ela se agrada em ouvir essa voz.

O estudo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira impressiona pelo seu conteúdo, por sua análise meticulosa da documentação do PS, por sua lógica férrea em dissecar as proposições socialistas, levando-as até os seus últimos desdobramentos. Demonstra que nelas há uma radicalidade desconcertante, embora disfarçada por um gradualismo puramente tático.

Magistério tradicional da Igreja em oposição ao socialismo

A palavra socialismo, de significados muito elásticos, encobre uma ideologia cujo verdadeiro conteúdo é pouco conhecido do grande público. Quais são a civilização e a cultura realmente preconizadas pelo socialismo? Sobre este tema, uma grande confusão reina nos espíritos.

Esta confusão não existe, entretanto, no que concerne aos princípios professados pelo PS francês. Após sua fundação em 1971, o partido veio publicando regularmente documentos de doutrina e de programa afirmando com franqueza digna de melhor causa todo seu pensamento autogestionário. O PS francês apresentava então de si mesmo uma versão inteiramente palpável e consistente.

Esses documentos circulavam principalmente nas fileiras internas do partido, ou em círculos culturais e políticos próximos dele. O grande público, porém, continuava a ignorar o que era exatamente o socialismo, e para que direção ele rumava.

Considerando essa situação, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, na Mensagem sobre o socialismo autogestionário, analisa minuciosamente tais documentos e organiza, com vistas ao grande público, impressionante quadro de conjunto de seu conteúdo. Todas as afirmações e comentários são apoiados em abundantes citações de textos do próprio PS francês. O autor toma como critério de análise o ensinamento do Magistério tradicional da Igreja, do qual cita os textos pertinentes.

O documento repercute no mundo inteiro

Publicada em seis línguas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano e português), a Mensagem das 13 TFPs é divulgada inicialmente em 19 países (Estados Unidos, África do Sul, Alemanha, Inglaterra, Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, França, Itália, Peru, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela).

Desde sua publicação começam a afluir às diversas TFPs milhares e milhares de promissoras correspondências, provenientes de leitores de todas as condições sociais e de todas as origens étnicas.

Associações de todo gênero solicitam exemplares da Mensagem para divulgar nos círculos de suas relações. Instituições universitárias de renome tomam o documento das 13 TFPs como matéria de estudo em seus cursos. Muitos desejam informações sobre Plinio Corrêa de Oliveira e sua obra. Contribuições, geralmente de bolsos modestos, chegam espontaneamente à TFP, para a ajudar neste imenso esforço publicitário. Importantes cadeias de televisão de diversos países, como a CBS norte-americana, a CBC canadense, TF1 e Antenne 2 francesas, dão relevo à Mensagem, embora nem sempre mostrando-a sob um prisma simpático.

Grandes jornais como “Washington Post”, agências como a “Associated Press”, revistas como “L”Europeo” se dirigem ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para o entrevistar com exclusividade.

O raio de ação da Mensagem não se limi­ta, porém, aos 19 países onde é publicada. Vê-se também chegar cartas da Oceania (Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia), do Extremo Oriente (Bangladesh, Hong Kong, Malásia, Ne­pal, Cingapura), do Oriente Médio (Arábia Sau­dita, Turquia, Chipre), da América Central (Cos­ta Rica, El Salvador, México) e de outros paí­ses da Europa (Andorra, Áustria, Bélgica, Dina­marca, Escócia, Finlândia, Grécia, Holanda, Irlanda, Irlanda do Norte, Islândia, Liechtenstein, Malta, Mônaco, Noruega, San Marino, Suécia, e até mesmo da Iugoslávia).

Na África do Sul, a Mensagem não somente entusiasma os descendentes dos europeus, como também os originários daquela nação e dos países vizinhos: Lesotho, Swaziland, Transkei, Botswana, Venda e Bofhuthatswana, aos quais é preciso acrescentar a Argélia, Camarão, Ga­na, Malawi, Marrocos, Namíbia, Tunísia, Zim­babwe e Ilhas Maurício.

Expansão da campanha mundial das TFPs 

Essas cartas são como um pedido para a publicação da Mensagem também nessas regiões.

Em maio de 1982, novo esforço publicitário das TFPs é feito sobre quatro continentes. Na Europa, atinge a Áustria e a Irlanda, além de novas cidades da Alemanha e da Espanha. É novamente publicado na Inglaterra. Na América Latina, alcança o Paraguai e a Costa Rica. Na Ásia, as Filipinas e o Nepal. Na Oceania, a Austrália e a Nova Zelândia.

De julho a novembro, estimuladas por repercussões das mais encorajantes, as TFPs vão mais adiante: um quotidiano londrino de renome, “The Guardian”, publica em página inteira um resumo da Mensagem, logo seguido pelo influente “The Wall Street Journal”, de Nova York; mais tarde, o “Excelsior”, principal jornal do México, reproduz integralmente as 6 páginas da Mensagem.

Entretanto, o documento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ia conhecer uma difusão ainda mais vasta.

Enquanto, diante do mundo inteiro, a estrela do socialismo autogestionário acentuava seu declínio, dez milhões de exemplares de “Seleções do Reader’s Digest” — a revista mais lida no mundo — começam, a partir do mês de agosto, a divulgar aos quatro ventos o resumo da Mensagem das 13 TFPs.

Assim, a edição em inglês dessa revista, destinada ao Extremo Oriente, atinge a Coréia do Sul, Japão, Formosa, Tailândia, Cingapura, Filipinas, Malásia, Indonésia, Paquistão, Bangladesh e Sri-Lanka, além da população de Hong-Kong. A Índia é objeto de uma edição especial, igualmente em inglês. Na Oceania, uma edição para a Austrália e outra para a Nova Zelândia. Na África, uma edição sul-africana.

Na Europa, uma edição em Portugal, uma na Espanha, duas na Bélgica (em francês e flamengo), uma para a Grã-Bretanha e Irlanda, uma outra para a Alemanha e Áustria, duas na Suíça (em alemão e em francês), uma na Dinamarca, uma na Noruega e uma na Suécia.

Para as Américas, duas no Canadá (em francês e inglês); duas edições igualmente nos Estados Unidos: uma para a região de Chicago e outra em espanhol. Em seguida o México, com uma edição própria, depois duas outras edições agrupando a Guatemala, a Nicarágua, o Panamá, El Salvador, Costa Rica e Honduras, e outra destinada a Porto Rico e São Domingos.

Na América do Sul, edições para cada um dos seguintes países: Brasil, Argentina, Chile, Uruguai-Paraguai-Bolívia (edição conjunta), Peru, Equador, Colômbia e Venezuela.

É supérfluo lembrar aqui quanto este esforço representou como encorajamento para tantas pessoas que viam com preocupação nascer nos respectivos países embriões muito parecidos, de uma forma ou de outra, ao socialismo autogestionário francês.

As edições do “Reader’s Digest” ocasionam novo rio de cartas. Várias dentre elas, com tocante insistência, contêm pedidos de fundação da TFP em diversas nações. O número de países onde o histórico documento do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira é divulgado passa então para 50. 

Tanto o Presidente Mitterrand (esq.) quanto o Primeiro-ministro Pierre Mauroy (dir.), ficaram muito embaraçados e não encontraram resposta significativa às seis páginas da “Mensagem”.

Muita repercussão na França, mas o PS não replica

E na França?

De seu lado, a imprensa esquerdista desata-se, desde logo, em fúria contra “as seis páginas de divagações anti-Mitterrand”,5 verberando o “pavé indigesto” ofertado pelo “professor brasileiro”,6 bem como a “Publicidade de Ditadores” proveniente desse movimento de “iluminados integristas”,7 e outras coisas do gênero.

O “L’Humanité” (11-12-81), órgão do PC francês, saltando de cólera, chega mesmo a perguntar: “Quem permite a não se sabe que associação, mais ou menos brasileira, espalhar, a golpes de bilhões, idiotices destinadas a dar uma imagem repugnante do governo da República francesa? […] É preciso não dramatizar esta barulhenta campanha internacional”.

De fontes do Governo e do Partido Socialista, as reações iniciais são intensas, surpreendentemente intensas. Mas a linha de conduta adotada é — como a de boa parte da imprensa — de se esquivar sistematicamente à análise do denso cerne doutrinário da Mensagem. Uma das fontes do Ministério das Relações Exteriores chega mesmo a declarar que “neste gênero de situações […] sempre é mais conveniente não dizer nada”.8

Um prestigioso diário de língua inglesa, editado em Paris pelo “New York Times” e o “Washington Post”, o “International Herald Tribune”, divulgado no mundo inteiro (só para a França 20 mil exemplares), descreve assim, na edição de 11 de dezembro de 1981, a reação do governo socialista francês a propósito da Mensagem“Em Paris, fontes governamentais autorizadas disseram que não estavam preparadas para responder a esta publicação, mas que elas a estavam estudando. `Absolutamente não há pânico, e nós estamos mais bem interessados em saber quem ou o que se acha por detrás dessa publicação’, declarou quinta-feira um porta-voz do Elysée, acrescentando que `mais tarde’ poderia haver reação”.

Como o ribombo internacional do documento torna impossível um mutismo absoluto, porta-vozes do “Elysée” (Presidência da República), do “Quai d’Orsay” (Ministério do Exterior) e do PS escolhem a via do insulto, da impertinência e do desaforo para, em rápidas declarações a correspondentes de imprensa, recusar um diálogo de elevado nível doutrinário, proposto com dignidade e cortesia.

Assim, as críticas contidas no texto sereno, sério e amplamente documentado das TFPs são, para as fontes do “Quai d’Orsay”, “abusivas”, “excessivas”, “rebuscadas”, de uma mordacidade “profundamente desonesta”. Os responsáveis pela publicação da Mensagem “são uns loucos delirantes”,9 é a tese pouco amena do Sr. Philippe Parrenier, porta-voz do PS, a qual ele procura demonstrar com três razõezinhas de algibeira, de pura escamoteação. Outros expedientes do gênero são empregados por vozes autorizadas do Governo. Assim, declara uma das fontes latino-americanas do Primeiro-ministro: “Uma organização com essa sigla [TFP] já evoca algo que provoca nos franceses uma enorme repulsa, porque lembra `Trabalho, Família e Pátria’, slogan de Pétain”.10 Como se bastasse uma simples e absolutamente fortuita coincidência de siglas entre organizações tão diversas como a TFP e “Trabalho, Família e Pátria” para inspirar no povo francês a tal “enorme repulsa”!

“Temos a alegria de defender contra esse canhestro joguinho de palavras, ou de siglas, o povo francês: ele é inteligente demais para movimentos repulsivos tão primários”, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira pela imprensa.11

É este um joguinho semelhante ao usado pelo próprio Primeiro-ministro francês Pierre Mauroy, que em debate na Assembleia Nacional declara: “Quando a direita quer parecer nova, ela escava o arsenal das doutrinas anti igualitárias e anti cristãs (sic), que produziram ao longo da primeira metade deste século os resultados que todos conhecemos. Tornar-se-ia grave que, por simples hostilidade para com o governo, democratas se deixassem assim enganar por falsas ideias novas”.12

Uma das repercussões e eloquente silêncio 

Bem mais desajeitadas são as declarações da Embaixada da França em Buenos Aires. Em nota oficial,13 acusa a TFP de ter “insultado” o programa do governo francês e a divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, que — segundo o comunicado da representação diplomática — estaria “inscrita” na bandeira de seu país. (Onde? Não consta que haja na bandeira tricolor francesa qualquer inscrição…).

Em consequência, a TFP argentina desafia (“La Nación”, 24-1-82) a dita Embaixada a que exiba de público as provas correspondentes. Pois não se vê em que lugar, na Mensagem, se encontra o tal “insulto”.

Depois do comunicado da TFP, aquela embaixada, guiando-se por uma prudência que não a havia inspirado na atitude afoita de primeira hora, mantém-se em explicável silêncio.

Tendo esperado cinco dias por uma resposta, a TFP platina, em novo comunicado (“La Nación”, 28-1-82), faz notar quão expressivo é o mutismo daquela representação diplomática. Ao mesmo tempo ressalta que o pronunciamento desacertado da Embaixada da França em nada prejudica o conceito em que é tida na Argentina a ilustre nação francesa.

Campanha da TFP francesa para furar o bloqueio da mídia

Estas reações deixam entrever o embaraço em que se encontrava o governo Mitterrand diante da publicação da Mensagem, e ainda todo o proveito que lhe acarretava a inexplicável recusa dos jornais franceses em publicar o documento.

Com efeito, apesar de todos os esforços feitos pela TFP daquele país, e não obstante o acordo concluído com dois grandes diários para a publicação do documento, confirmado em anúncio estampado nas suas próprias colunas, nas terras do “socialismo… em liberdade” o texto das TFPs teve sua inserção recusada por todos os jornais parisienses de língua francesa com tiragem superior a 100 mil exemplares. Só restou à TFP francesa, assim amordaçada, o recurso de um envio de 300 mil exemplares da Mensagem por mass-mailing.

Tudo leva a crer que não havia outra saída para o PS francês. Uma vez que não pôde refutar o documento das TFPs, a solução estava em impedir a divulgação, recorrendo à poderosa influência que têm os órgãos governamentais num país de governo socialista.

Dito de outra forma, o governo francês e o PS entraram num silêncio contrafeito, e — ao que parece — infligiram arbitrariamente aos propagadores de objeções por eles consideradas incômodas uma inaceitável restrição de liberdade. Tudo dentro do puro estilo soviético…

Na França, o punho estrangulando a rosa. O título é uma alusão ao símbolo do PS francês: um punho — mais bem feito para o boxe — que segura uma rosa. Um punho agressivo e brutal, que parece incompatível com a flor.

A mídia ameaçada pela “espada de Dâmocles” do socialismo

Mas, como explicar esta convergência de atitudes entre o governo socialista e os órgãos de imprensa considerados liberais, e mesmo anti-socialistas? Não é difícil. Como todas as organizações privadas, as sociedades editoras proprietárias desses diversos jornais, naqueles dias de euforia do novo Governo socialista corriam o risco de passar, por simples deliberação da maioria parlamentar socialo-comunista, para o regime de autogestão. Seus proprietários perderiam então suas condições atuais, tornando-se simples gerentes da empresa, cujos novos proprietários seriam os operários. Uma espada de Dâmocles, suspensa assim sobre a cabeça de cada empresário de imprensa, os induziria a não publicar um documento que desagradara o Governo, como era o caso da MensagemEspada de Dâmocles que mostra à evidência como a autogestão é contrária à liberdade.

Diante da impossibilidade de publicar a Mensagem na França, as 13 TFPs divulgam, a partir de 25 de fevereiro de 1982, um Comunicado redigido igualmente pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, intitulado Na França, o punho estrangulando a rosa. O título é uma alusão ao símbolo do PS francês: um punho — mais bem feito para o boxe — que segura uma rosa. Um punho agressivo e brutal, que parece incompatível com a flor. Uma rosa que, se se visse dentro desse punho, no mesmo instante começaria a murchar. Este símbolo, na verdade, exprime bem as relações entre o socialismo e uma autêntica e harmoniosa liberdade. Aquele pode belamente prometer esta, mas acaba sempre por estrangulá-la. É bem isto o que estava sucedendo.

O comunicado é estampado grosso modo nos mesmos jornais que divulgaram a Mensagem, aos quais se deve acrescentar o “International Herald Tribune”, o “Luxemburger Wort”, e “Corail”, na Nova Caledônia.14

Estas publicações ocasionam uma nova avalanche de cartas de adesão, de manifestações de simpatia para com a TFP francesa, com o desejo de melhor conhecer as TFPs e o pensamento e ação de Plinio Corrêa de Oliveira.

Órgãos representativos de industriais e de trabalhadores, membros do corpo diplomático, professores universitários de renome, bibliotecas destinadas a altos estudos solicitam em grande número exemplares para a difusão nos meios respectivos.

Qual o efeito de todos esses lances publicitários das TFPs?

Na França, a atitude da TFP é saudada por numerosos aplausos, acompanhados de pedidos insistentes para que sejam divulgados os nomes dos jornais que recusaram a publicação. A TFP francesa teve, entretanto, a nobre preocupação de evitar esta divulgação, pois lhe pareceu incorreto expor assim a uma publicidade desfavorável os jornais que, pelo fato de estarem sob a espada de Dâmocles do socialismo, não dispõem da liberdade necessária para se explicar ao público.

Tudo isto não impediu que plágios da Mensagem, e do comunicado, aparecessem em certos órgãos ocidentais mais ou menos de direita, sem jamais revelarem a fonte…

Uma Comissão de Senadores franceses se vê em dificuldades na Colômbia quando, durante uma conferência de imprensa, jovens colaboradores da TFP local pedem explicações sobre a atitude arbitrária do governo de seu país.

E em dezembro de 1983, em Buenos Aires, é o Primeiro Ministro francês Pierre Mauroy que parece embaraçado quando, em entrevista coletiva, representantes da TFP argentina lhe perguntaram por que em seu país não se pôde publicar livremente a Mensagem. Para Mauroy, a “melhor resposta” (sic) era sua presença na Argentina por ocasião da subida ao Poder do Presidente Alfonsín (Cfr. “Pregón de la TFP”, nº 109-110, janeiro de 1984).

Aí está uma breve história “de um dos supremos esforços empreendidos `in signo Crucis’, a fim de evitar à civilização ocidental agonizante o soçobro final para o qual esta se vai deixando rolar” (Cfr. o comunicado “O punho estrangulando a rosa”).

Indagará alguém: qual o efeito de todos esses lances publicitários das TFPs na marcha posterior da autogestão?

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira tratou do assunto em dois artigos sucessivos para a “Folha de S. Paulo”.15 Deles é extraída a análise que segue.

Documento que evitou a contaminação autogestionária 

Antes da Mensagem das 13 TFPs, a equipe Mitterrand caminhava despreocupada. Baseada nos sucessos eleitorais de 1981, ela se punha em passo resoluto rumo à depredação da propriedade individual no campo interno, e no campo externo à expansão ideológica e ao intervencionismo político, sobretudo no assim chamado Terceiro Mundo. A aura publicitária em torno da autogestão atingia seu zênite.

É bem certo que Mitterrand encontrou vozes de descontentamento dentro da França. Mas são vozes de franceses, que falavam para um público especificamente francês, acerca de aspectos circunstanciais e essencialmente locais da atuação governamental. Vozes, portanto, de limitado alcance para premunir contra a autogestão — considerada em plano doutrinário e universal — a opinião pública do Ocidente.

O primeiro documento que, com publicidade internacional, se ergueu contra a contaminação autogestionária foi a Mensagem das 13 TFPs. Saíra a lume quando ainda os tenores e as prima-donas de esquerda entoavam, por toda parte, a ária da autogestão. Eles e elas logo diminuíram um tanto a voz porque, mais sutis que Mitterrand e sua equipe, perceberam que na matização político-ideológica do Ocidente, tomado como um todo, algo estava mudando. E que, no público, havia gente que já não os ia acompanhando.

Por toda parte começa-se, então, a questionar Mitterrand e seu programa autogestionário “de face humana”. E o interessante é que muitas dessas contestações, até mesmo vindas de conhecidos homens de pensamento e de ação, quer pela imprensa, quer em conferências internacionais de repercussão, são notoriamente inspiradas na Mensagem. Sobretudo os argumentos e as análises mais penetrantes. Uma apreciável quantidade de recortes o prova, sem deixar a esse respeito nenhuma margem à dúvida.

Tais repetições pouquíssimas vezes citavam a fonte. Pois hoje são cada vez mais frequentes os autores de ideias dos outros…

Em muitos casos, pode-se conceber que os argumentos tenham entrado nas memórias por osmose, sem que as pessoas se dessem conta de onde os haviam colhido. Se assim foi, nada é mais indicativo de sucesso em matéria de propaganda. A Mensagem justamente se destinava à “criação de opinião”, como reconheceu um jornal italiano (“Il Giorno”, Milão, 20-1-82). E uma opinião diametralmente oposta à maré da grande publicidade.

Grande obstáculo à ação do governo socialista

E Mitterrand teve um caminho difícil o resto de seu governo…

Internamente, na França, o brado de alerta também produziu seus frutos, não se sabe bem por que condutos. Nas eleições cantonais de março de 1982, a opinião pública francesa rejeitou a autogestão socialista, proporcionando ao bloco de centro-direita uma vitória espetacular sobre o bloco socialo-comunista. E o Governo, surpreso, encontrou diante de si a maioria dos franceses barrando-lhe o caminho.

A rejeição da fórmula autogestionária, na própria terra que lhe servia de foco de irradiação, reforçou por sua vez o estado de sobreaviso em que a Mensagem havia colocado extensas áreas da opinião mundial.

 No ambiente assim irremediavelmente transformado, não adiantava às altas cúpulas socialo-comunistas sustentar a nota. A derrota impôs um arrefecimento da força de impacto, dos dinamismos, das audácias, especialmente no PS. E, em consequência, um arrefecimento na ação do Governo.

Se Mitterrand continuasse no caminho dos confiscos, não só levantaria contra si a maioria cada vez mais compacta e mais indignada dos franceses, como ainda daria implicitamente razão à denúncia que as 13 TFPs foram as primeiras a fazer pela voz serena, lúcida, séria, mas retumbante, do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira à opinião mundial, posta até então em profundo letargo.

“A confirmação da Mensagem pelos fatos — dizia o Presidente do Conselho Nacional da TFP — poderia criar em torno dela a atmosfera que a catástrofe de Allende criou em torno do livro `Frei, o Kerensky chileno’, de meu inesquecível Fábio Vidigal Xavier da Silveira. Certamente tal efeito reflexo, de um governo socialista de bravatas, seria coisa a que nenhum governo do mundo haveria de ser indiferente”.16

“Se o governo e as altas cúpulas socialo-comunistas resolverem assim mesmo avançar, ficarão cada vez mais isolados de seus próprios quadros. Isto é, cada vez com menos amigos à retaguarda e mais adversários diante de si. Será a marcha para o abismo. O itinerário de Allende”.17

Água na pólvora do governo socialista

A rosa do socialismo autogestionário de Mitterrand em pouco tempo murchou… Hoje, no ano 2021, o Partido Socialista tem enorme dificuldade de apresentar um candidato sério para as próximas eleições presidenciais. O fracasso que se desatou em 1981 passa fatura até hoje.

Mas Mitterrand foi prudente. Não só não quis avançar, como recuou. Em 1984 substituiu Pierre Mauroy pelo mais discreto Laurent Fabius, no cargo de Primeiro-ministro. Novamente batido nas urnas em 1986, foi obrigado a aceitar um Primeiro-ministro da oposição. Mitterrand teve a habilidade de compreender que, uma vez que o navio socialista vai soçobrando a olhos vistos, ele deve tentar salvar-se, levando a bandeira. Assim, fez ele todo o necessário para ser apresentado como homem talvez socialista, mas de um socialismo tão róseo, tão moderado, que seu socialismo equivaleria a um programa de paz, sem ideologia. Com este artifício, conseguiu se reeleger em 1988, enquanto vai declinando a nomeada de seu Partido.

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Notas:

1. Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Na França, o punho estrangulando a rosa, Catolicismo, nº 376, abril/1982. https://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0376/P01.html

2. https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Gesta_0000Indice.htm#.YPjzGOhKjIU

3. http://catolicismo.com.br/Acervo/Num/0373-374/P01.html

4. O presente histórico foi extraído, com pequenas adaptações, da obra de Plinio Corrêa de Oliveira Autogestion socialiste: les têtes tombent à l’entreprise, à la maison, à l’école”. Edição da Association Française pour la Défense de la Tradition, de la Famille et de la Propriété, Asnières, 1983. 213 pp.

5. “Le Canard Enchainé”, Paris, 16-12-81.

6. “Le Matin”, Paris, 11-12-81.

7. “Libération”, Paris, 19-12-81.

8. Jeune Afrique, Paris, 3-3-82.

9. Cfr. “Jornal da Tarde”, São Paulo, 10-12-81; “O Estado de São Paulo”, 11-12-81. “Folha de S. Paulo”, 11-12-81, correspondência de J. B. Natali.

10. Cfr. resposta do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira à correspondência de J. B. Natali, na “Folha de S. Paulo”, 15-12-81.

11. Idem.

12. “Le Monde”, Paris, 18-12-81.

13. “La Nación”, Buenos Aires, 20-1-82.

14. Um ano depois da publicação da Mensagem, por fim um órgão de grande tiragem em língua francesa, o semanário “Minute” (4/10-12-82) com tiragem de 220 mil exemplares, ousou publicar um resumo da Mensagem e do Comunicado das 13 TFPs. Não obstante, os grandes diários franceses continuaram fechados à palavra das TFPs. – Assim, considerando-se conjuntamente a publicação, na íntegra ou em resumo, da Mensagem e do Comunicado, a denúncia das TFPs atingiu 52 países, recebendo ainda “cupons” de muitos outros (114 ao todo).

15. No itinerário de Allende (2-4-82), Jeito, trejeito e estertor (16-4-82).

16. Cfr. Jeito, trejeito e estertor.

17. Cfr. No itinerário de Allende.

Nas terras do “socialismo… em liberdade” o texto das TFPs teve sua inserção recusada por todos os jornais parisienses de língua francesa com tiragem superior a 100 mil exemplares. Só restou à TFP francesa, assim amordaçada, o recurso de um envio de 300 mil exemplares da Mensagem por mass-mailing. Tudo leva a crer que não havia outra saída para o PS francês. Uma vez que não pôde refutar o documento das TFPs, a solução estava em impedir a sua divulgação, recorrendo à poderosa influência que têm os órgãos governamentais num país de governo socialista.

AUTOGESTÃO, O QUE É?

Ao contrário do que muitos talvez imaginem, a autogestão representa a meta mais radical do comunismo, se bem que se pretenda chegar a ela por etapas graduais.

O termo foi sendo empregado, sobretudo a partir de 1961, para significar, em certos países socialistas, a gestão das empresas por comités de trabalhadores. A pioneira em sua aplicação em escala nacional foi a Iugoslávia de Tito.

A empresa autogestionada não terá mais patrão. Sua direção competirá às assembleias gerais de trabalhadores. Os dirigentes das empresas serão eleitos por tais assembleias, soberanas em tudo o que diga respeito às atividades empresariais. Porém, pretende-se uma transformação fundamental não só das empresas industrial, comercial e rural, como também da família, da escola, da Igreja, e de toda a vida social. O objetivo da autogestão é a desagregação da sociedade atual. […]

Segundo teóricos neossocialistas, na sociedade autogestionária o poder não deverá mais residir no Estado, mas sim em corpúsculos, nos quais se esfarele.

E a anarquia, tomada em seu sentido etimológico (ausência de autoridade), imaginada como possível não se sabe por que transformações da própria natureza do homem.

Trata-se, já se vê, de uma reforma total da sociedade e do homem — em frontal contradição com a verdadeira doutrina da Igreja — por meio de nova forma de luta de classes: na empresa, levantando os operários contra os patrões; na família, suscitando a revolta dos filhos contra os pais; na escola, a dos alunos contra os professores; e assim por diante.

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(Cfr. Mensagem das 13 TFPs, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?).

TFP manda Mensagem: Reagan envia carta

ATFP norte-americana, por meio de missiva do Presidente de seu Conselho Nacional, datada de 20 de dezembro de 1981, enviou ao Chefe do Executivo de seu país a Mensagem das 13 TFPs sobre o socialismo autogestionário.

Da Casa Branca, a entidade recebeu a seguinte carta do Presidente Ronald Reagan, através de sua assessora Anne Higgins:

“O Presidente Reagan solicitou-me que agradecesse sua carta que acompanhou a Mensagem das Sociedades de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Ele bem compreende a contradição entre os princípios que estão por trás das várias formas de socialismo e aqueles que sustentam o sistema norte-americano de liberdade. O Presidente considera com apreço a iniciativa dessa publicação, capaz de permitir assim aos outros de ver algumas das dificuldades inerentes ao abandono de nossas noções tradicionais sobre a liberdade humana”.

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