As catástrofes e as leis da emoção (Eça de Queiroz)

Extraímos um trecho esclarecedor — tirado de comentários do Prof. Plinio ao conto de Eça de Queiroz “As catástrofes e as leis de emoção” — que ajudará nossos leitores a analisarem a si mesmos sobre a importância que dão a fatos que nos tocam de perto, a meia distância ou muito longe de nós.

Pode parecer teórico à primeira vista, mas convidamos o leitor a acompanhar passo-a-passo o raciocínio: será de grande proveito espiritual, um corretivo das emoções, uma lição de espírito de Fé.

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“Se a caridade começa pelos  mais próximos, é natural que a pessoa sinta mais o que acontece em relação aos circunstantes”.

Foto: incêndio do Bazar da Caridade, Paris, século XIX

“Depois, também é natural que, tendo o homem sensibilidade e sendo a sensibilidade algo que se impressiona com o que passa pelos sentidos, que também as coisas que atingem a sensibilidade causam ao homem uma impressão maior.

Primeiramente é preciso distinguir entre a impressão e um juízo

“Mas devemos distinguir o que é a impressão do que é um juízo que se faz a respeito do acontecimento. Devemos distinguir a pura reação emotiva do que é a atitude da inteligência e da vontade diante de um determinado ponto.

“Por exemplo, se eu vir de repente um ônibus passar por cima de um gato e matá-lo, seu sangue jorrar até mim e seus miolos chegarem até meu sapato, evidentemente o fato me causa uma sensação de destruição que é maior do que saber que a esta hora está saindo para o cemitério da Consolação ou do Araçá o enterro de um homem que eu não conheço.

A Razão nos ensina a restabelecer a escala de valores

“Quer dizer, isto está na estrutura do ser humano. É uma coisa razoável. Mas é razoável também que o ser humano dotado de razão e que conhece as limitações e contingências de sua estrutura – sobretudo depois do pecado original – que ele exerça  sobre si mesmo um efeito formativo e que saiba restabelecer, na medida do necessário, a escala dos valores.

“De maneira tal que seja mais capaz de interesses, mais capaz de verdadeira dedicação pelas coisas que não o tocam de perto, mas que tocam a Igreja Católica, que tocam a salvação das almas, que tocam a realização dos planos da Providência, do que os pequenos fatos miúdos que o cercam. Porque, do contrário, nós devemos dizer que esse homem não só é irracional, mas – fato ainda mais grave – que não tem espírito de fé.

O espírito de Fé é uma excelência da Fé

“O que vem a ser o espírito de fé? É exatamente aquela excelência da fé, pela qual a pessoa julga os fatos e as pessoas segundo os princípios da fé. É uma espécie de aplicação da fé no analisar os fatos, as pessoas e as circunstâncias.

“Ora, alguém ouve falar, por exemplo, que haverá uma novena na própria paróquia e se interessa muito, mas ouve dizer, por exemplo, que Nossa Senhora apareceu em Fátima e a pessoa se interessa menos (porque Fátima é longe e é um outro continente), não julga as coisas nem de acordo com a razão, nem de acordo com o espírito de fé.

“Quer dizer, é um ato de perfeita imbecilidade e no fundo de falta de fé, fora de dúvida. Por que? Porque é fato que Fátima está em Portugal, “X” nunca terá estado em Fátima nem saberá localizar Fátima no mapa, não teve nenhuma emoção porque não viu o bailado do sol e as cores que o firmamento tomou por ocasião da aparição de Nossa Senhora, não estava lá nem com Jacinta, nem com Francisco, nem com Lúcia. Mas tem inteligência e tem fé para julgar a importância do acontecimento e para se interessar mais por isso do que por algum fatinho que lhe diz respeito de perto.

É preciso adquirir uma segunda natureza: julgar as coisas na proporção de sua própria importância, e não em função de si mesmo

Lembramos: defeito gravíssimo, especialmente do homem tomado pelo egoísmo, de colocar-se a si mesmo no centro dos acontecimentos.

Continua o Prof. Plinio:

“Entretanto, em qualquer dos casos, o fato é tão menor, que a pessoa tem que retificar, tem que adquirir uma segunda natureza, de acordo com a qual julgue as coisas na proporção de sua própria importância, e não em função de si mesmo. O ceder a esse pendor espontâneo, que ele descreve tão bem e que justifica com argumentos tão ruins, o homem faz o centro do  universo não a Deus, Seus desígnios, Seus direitos, mas a si mesmo, e tudo tem importância na medida em que toca à minha pessoinha, segundo o que à minha pessoa importa.

“Evidentemente isto é uma deformação. E é uma deformação muito grave – como acabo de dizer e é preciso insistir – porque conduz numa virtual negação da catolicidade da Igreja que se define como uma sociedade universal e sobrenatural, o Corpo Místico de Cristo e em que tudo vale na medida em que se relaciona com Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas a Igreja Católica se definiria assim: é uma sociedade que tem vida na medida em que Ela toca a mim e que é inerte, esclerosada, morta na medida em que está longe de mim…!

As Cruzadas mostram que o medieval não era medíocre

“Se o mundo católico fosse medíocre como Eça de Queirós pinta aqui, não teria havido as Cruzadas, por exemplo. Porque as Cruzadas foram libertar o Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estava muito distante de todas as pessoas que para lá caminharam… Não teria havido Cruzadas também para reduzir os bárbaros que atacavam o norte da Europa, ou para expulsar os maometanos…

“Sabemos, por exemplo, que os monges de Cluny se interessaram enormemente pelas Cruzadas na Espanha e que isto foi um fator decisivo para a vitória que elas obtiveram na Espanha.

“Eu pergunto: o que ia fazer ali um francês? Os sarracenos tinham sido esmagados em Poitiers e não voltariam mais. Não era interesse da França, era interesse da Igreja em terras da Espanha, como em qualquer outra terra. Por que? Porque a Igreja é universal!

Por quê Anchieta e Nóbreba vieram evangelizar o Brasil? Bons tempos em que não havia o Sínodo da Amazônia

“Os missionários. Por que vieram evangelizar os índios? Por que vieram acompanhando os portugueses e os espanhóis? Eles vieram por causa de um interesse que era todo ele religioso e que não tinha nada com a emoção próxima,  sensível.

“Quer dizer, toda vida da Igreja Católica seria diversa e seria incoerente com a sua própria missão, se os homens capitulassem diante desse vício, desse estado de espírito”.

(Leia o texto completo em) https://pliniocorreadeoliveira.info/DIS_710827_ecadequeiroz_leis_da_emocao.htm

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  • Recordemos, qual é o vício? Colocar-se no centro dos acontecimentos, vibrar com as emoções, não obedecer à uma escala de valores. E, sobretudo, desinteressar-se do supremo bem em que estão empenhados a luta da Igreja contra a Revolução.
  • Por exemplo, o sensacionalismo midiático em torno do Coronavírus deixa de lado qualquer informação, preocupação ou referência à Salvação eterna dos afetados.

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