Os ritmos da vida e horários ditados pelos sinos religiosos e públicos

    Nas ruidosas cidades medievais, onde fervilhava uma população incessantemente atarefada, a voz dos sinos contava as horas, e também isso fazia parte do “fundo sonoro”.

    O ângelus — de manhã, ao meio-dia e à noite — marca as horas de trabalho e de repouso, desempenhando o papel das modernas sirenes de fábrica.

    O sino anuncia os dias de festa, chama por socorro em caso de alarme, convoca o povo para a assembleia geral, ou os almotacéspara o conselho restrito, toca a rebate de incêndio, dobre de finados, carrilhões de festas.

    Pela sua voz, pode-se seguir a vida da cidade durante todo o dia, até soar à noite o recolher.

    Na noite

    Extinguem-se então as luzes das lojas, os clarões dos assadores; recolhem-se os telheiros, fecham-se os portões; quando se teme qualquer surpresa, fecha-se a cidade e as suas portas, levantam-se as pontes levadiças e baixam-se as grades.

    Por vezes é suficiente colocar correntes atravessando as ruas, o que tem igualmente a vantagem, nos bairros mal afamados, de cortar a retirada aos malandros.

    Clique para ouvir o carilhão das horas da catedral de Paris :

    Só permanecem iluminados os pavios que dia e noite pestanejam diante das estatuetas da Virgem e dos santos abrigadas em nichos na esquina das casas, e diante dos Cristos no cruzamento das ruas.

    Fora da cidade, nos portos, irradiam os faróis que marcam a entrada do ancoradouro e os principais recifes.

    Os viajantes retardatários só têm direito de circular munidos de uma tocha.

    Nas cidades marítimas, toleram-se as idas e vindas dos que estão à espera de embarque.

    Clique para ouvir os sinos da abadia de Ettal, Alemanha:

    Em tempo de alarme, ou quando se declara um sinistro qualquer — incêndio, avaria grave num navio, perigo de naufrágio — as autoridades mandam colocar tochas na equina das ruas, para permitir socorros rápidos e prevenir os acidentes.

    A corte do senhor retira-se então para o interior da casa, cujas paredes teve-se a precaução de construir bem espessas, servindo de muralhas contra o frio, o calor e os ruídos importunos.

    (Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)