Petição

louisxvi_1775Ó Maria Santíssima, tendo em consideração tudo quanto esse pobre Rei teve de sofrer por ter sido mole, nós Vos pedimos que nos obtenhais a graça de jamais sermos moles em face da Revolução, de não perdermos uma só ocasião de a combater, e de a combater implacavelmente! Obtende-nos a graça de empregar todos os meios para conter o ímpeto da Revolução, para aniquilá-la e para fazer vencer por toda parte a Santa Igreja e a Civilização Cristã. Para que com isto vençais Vós, ó Maria, Rainha do Céu e da Terra, e vença o vosso Divino Filho. Vós sim, ó Maria, cuja vitória é necessariamente e esplendidamente vitória de vosso Divino Filho.

Ó Maria, venha a nós o vosso Reino, para que a nós venha o Reino de Jesus. Mandai que se acelerem os acontecimentos por Vós previstos em Fátima, a fim de que a presente época de reinado da Revolução satânica e igualitária –– da qual a execução de Luís XVI foi um lance característico e pungente –– cesse o quanto antes, e sobre nós desça o vosso Reino. Não para ser o Reino dos preguiçosos, dos moles –– que, em última análise, se venceram terá sido só porque Vós interviestes, com vossos Anjos, a favor deles ––, mas para ser o Reino dos heróis que lutaram como gigantes, porque a graça e as virtudes cristãs, e sobretudo as virtudes da pureza, da fortaleza e da humildade, os nimbaram como uma coroa, e eles souberam ser, ao mesmo tempo, terríveis na hora da batalha e despretensiosos e desapegados na hora da vitória.

Como a Nosso Senhor, ataram as mãos do Rei

Os ajudantes do carrasco Sanson se aproximam de Luís XVI, e querem amarrar-lhe as mãos.

–– Amarrar-me? Não, jamais consentirei nisto! –– atalha ele.

O sacerdote lhe sussurra:

–– “Sire, nesta nova afronta não vejo senão um último traço de semelhança entre vós e o Deus que será o vosso prêmio”.

Estas sublimes palavras do sacerdote alentaram a piedade do Rei. Luís XVI estende as mãos.

–– “Fazei o que quiserdes!”

E os asseclas de Sanson –– bem dignos da Revolução à qual serviam de cúmplices –– ataram as mãos do Rei. E foi assim, com a intenção de imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, cujas divinas Mãos foram atadas pelos seus algozes durante a Paixão, que o Rei escalou, passo a passo, as escadas do patíbulo e se dirigiu de modo decidido para a guilhotina

Suas últimas palavras

Ele faz então um sinal aos tambores que se acham em frente dele. Impressionados, os soldados param de bater:

“Franceses –– brada o Rei com voz audível até à extremidade da praça ––, eu morro inocente. Perdôo aos autores de minha morte, e peço a Deus que o sangue que va i ser derramado não caia jamais sobre a França! E vós, ó povo desafortunado… ” *.

O Rei pretende continuar sua objurgatória, mas um homem a cavalo, em uniforme da guarda nacional, desfere a espada sobre um dos tambores e força-os a cobrir a voz do Rei como seu ruído. Nesse instante supremo, a um passo da guilhotina, os revolucionários ainda temem que as palavras do soberano comovam a multidão e todo o processo revolucionário retroceda!

*    *    *

1793-execution-of-louis-xviOs algozes estendem o Rei sobre a plataforma da guilhotina. A lâmina cai pesadamente sobre a nuca do Rei, e sua cabeça rola pelo chão.

O infame carrasco toma-a enquanto ainda gotejava sangue e dá a volta por todo o patíbulo, para que o povo inteiro tome conhecimento de que o Rei estava decapitado. Para Luís XVI, a luz do sol não brilhará mais neste mundo, a não ser no dia em que todos ressuscitarmos.

Foi no momento em que o Rei estava sendo estendido para receber o golpe fatal que, segundo algumas narrações, o Abbé Edgeworth de Firmontteria exclamado as sublimes palavras: “Filho de São Luís, subi ao Céu!”

Várias testemunhas afirmam a autenticidade dessa apóstrofe. O sacerdote irlandês, entretanto, sempre negou tê-la pronunciado. De onde se pode pensar que, ou o Abbé de Firmont fez essa exclamação movido por uma inspiração divina, e depois dela se esqueceu (fato facilmente compreensível, na emoção em que se encontrava), ou a frase foi criada por outrem a fim de exprimir –– aliás de modo muito feliz –– a realidade profunda desse instante histórico **.

Do Céu, Luís XVI contempla a França de hoje

Quem pode de fato duvidar de que uma morte consumada nessas condições tenha sido seguida da abertura de par em par, das portas celestes para a alma deste comovedor filho de São Luís?

Lá do alto do Céu, ele contempla –– com essa benignidade que deveria ter sido tantas vezes completada pela força –– a França de hoje. E posto que quem está no Céu não sofre o tormento do arrependimento, pois já está perdoado de todos os seus pecados e não tem mais qualquer perdão a pedir, ele olha para a França, essa querida França, essa grande França, essa França que Nossa Senhora não cessa de amar e de favorecer, e que, não obstante, como a maior parte das nações de nossos dias, não cessa de A ofender e de A renegar. Com certeza a Virgem Mãe reza por ela, para que sacuda vigorosa e vitoriosamente o jugo da Revolução.

*    *    *

Entrementes, o Abbé Edgeworth de Firmont foi se afastando aos poucos do patíbulo, onde sua presença não tinha mais razão de ser. Chegado junto à multidão, temia que esta o estraçalhasse. Mas, por um mistério sublime, o sacerdote escapou ileso e sumiu no meio da multidão, sem que ninguém o procurasse agarrar.

No Templo, os tambores da guarda rufam. Sob as janelas do donjon as sentinelas gritam: “Viva a República!”

Maria Antonieta compreende tudo…

Sente-se esmagada pela dor. O jovem príncipe desata em lágrimas. Madame Royale solta gritos lancinantes. Maria Antonieta, o corpo convulsionado pelos soluços, se deixa abater sobre o leito.

De repente, ela se levanta, ajoelha-se diante de seu filho, e o saúda com o título de Rei.

Luís XVII, sucessor de Luís XVI, sumiu misteriosamente da prisão do Templo, ou foi morto por seus verdugos: a questão é discutida até hoje. A rainha Maria Antonieta será condenada à morte dentro em breve. Madame Elisabeth, irmã do Rei, foi igualmente condenada.

Madame Royale, filha dos infortunados monarcas, após três anos de cativeiro solitário na Torre do Templo, foi por fim trocada por revolucionários caídos em poder dos austríacos.

O Abbé de Firmont, com a cabeça posta. a prêmio, permaneceu foragido, escapando de um lugar para outro dentro da França, até que tomou conhecimento da execução de Madame Elisabeth, a quem pretendia servir, se ainda lhe fosse possível. Agora, a fidelidade ao seu monarca lhe pedia algo mais: dirigir-se ao exílio, procurar os irmãos de Luís XVI, o Conde de Provence, futuro Luís XVIII, e o Conde de Artois, futuro Carlos X, e pôr-se a serviço deles. Tendo acompanhado a família real por todos os caminhos do exílio, entregou a alma a Deus em 1807, com a idade de 62 anos.

Símbolos que não morrem

Terminou esta história? Se há uma história que não terminou foi esta. Porque a memória de Luís XVI, como a de Maria Antonieta, continuam vivas. São símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos franceses. Quer por serem amados como merecem, quer por serem odiados como não merecem. Mas, de algum modo, simbolizam a luta entre o Bem e o Mal, a Revolução e a Contra-Revolução. Eles serão sempre lembrados, com profundo respeito e profunda dor, por todos aqueles que têm uma fagulha de Contra-Revolução na alma. E serão vistos com extremo ódio por todos aqueles que, portadores do espírito de Satanás, e odiando todas as desigualdades, odeiam a esse Rei, cujo grande defeito, entretanto, foi o excesso de mansidão (isto se pode dizer também de Maria Antonieta).

Mais uma vez devemos nos voltar para eles e pedir que nos obtenham de Deus força, força, força! Força a favor da Justiça, força a favor do Bem, força a favor da Contra-Revolução. Força a favor vosso, Maria Santíssima, nossa Mãe, a favor de vosso Divino Filho, nosso Salvador e Redentor. Força, enfim, a favor da Santa Igreja e da Civilização Cristã.

Tornai-nos fortes para que, amando-Vos com o amor dos fortes, saibamos servir-Vos com a dedicação e a eficácia dos fortes, a fim de que chegue o quanto antes vosso Reino sobre a terra, ó Maria, ó Jesus!

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NOTAS:

* Cfr. G. Lenotre e André Castelot, Les grandes heures de Ia Revólution Française –– La mort du Roi, p. 295.

**  Cfr. Nesta H. Webster, Louis XVI and Marie Antoinett During the Revolution, Constable and Company Ltd, London, p. 524; Weiss, Historia Universal, Tipografia. La Educación, Barcelona, 1931, vol XVII, p. 98.

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Plinio Corrêa de Oliveira
Homem de fé, de pensamento, de luta e de ação, Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) foi o fundador da TFP brasileira. Nele se inspiraram diversas organizações em dezenas de países, nos cinco continentes, principalmente as Associações em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que formam hoje a mais vasta rede de associações de inspiração católica dedicadas a combater o processo revolucionário que investe contra a Civilização Cristã. Ao longo de quase todo o século XX, Plinio Corrêa de Oliveira defendeu o Papado, a Igreja e o Ocidente Cristão contra os totalitarismos nazista e comunista, contra a influência deletéria do "american way of life", contra o processo de "autodemolição" da Igreja e tantas outras tentativas de destruição da Civilização Cristã. Considerado um dos maiores pensadores católicos da atualidade, foi descrito pelo renomado professor italiano Roberto de Mattei como o "Cruzado do Século XX".

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