O sol se manifesta à maneira de Deus, e a lua à maneira de Nossa Senhora. Recebendo a luz forte e variegada do sol, a lua a devolve atenuada, como consolação para os que lamentam a retirada do astro-rei.

O percurso feito por um homem durante a vida pode ser comparado ao curso do sol ao longo de um dia.

Na aurora o sol emite raios suaves, que contemplamos com encanto, e seu brilho se intensifica gradativamente à medida que ilumina todo o panorama. Da mesma forma que o sol, a criança de tenra idade irradia frescores primaveris, reluzentes de encantos que lembram os da aurora. São graciosos atrativos, que não mais se repetem ao longo das idades.

Ao se aproximar o meio-dia, o sol brilha em seu auge. Persistente e imutável, dardeja sem nenhum esforço aparente, parecendo tirar de si todas as energias, para iluminar todas as regiões do universo aonde sua luz deve chegar. Sem parecer fatigar-se com esse esforço colossal, ele se empenha em mostrar uma generosidade imensa. Sua potência incomparável parece fazer a oblação de si mesmo, e nisto simboliza metaforicamente o esforço, a operosidade e a glória de um homem na maturidade.

Quando o sol começa a se pôr, vai aos poucos perdendo o brilho, o que pode ser comparado, na vida do homem, com a fase em que ele já deu o máximo de si, já pode alegrar-se por ter atingido seus objetivos. Diante da missão realizada, do opus factum, ele pode ir-se retirando com dignidade e deixando as coisas deste mundo. Assume uma gloriosa diminuição de si mesmo, como quem diz: Tendo chegado a este ponto, não consigo cessar de repente, e de agora em diante me dedicarei à gloriosa contemplação. Vou sumindo gradualmente, pois foi gradualmente que subi até o mais alto. Combati o bom combate e chego à última etapa, que é a do ocaso.

Bem próximo ao anoitecer, e antes de desaparecer completamente, o sol emite uma última luzinha, que ainda é a glória de si mesmo. Não entra na escuridão, mas o mundo é que perde a luz por ter ele se retirado. A vida do homem justo tem algo disso, quando vai deixando de irradiar luz para entrar na luz da eternidade.

São estes os vários estágios do sol, e em cada um deles temos uma representação da existência de um homem.

Na observação das inúmeras variedades de pôr-do-sol, é interessante considerar também sua semelhança com a história dos impérios, das culturas, da Igreja ou das eras. Sua linha histórica é parecida com a sucessão dos dias: alguns têm suas manhãs magníficas, seguidas de variações diversas ao longo do dia, até que vem a noite.

A noite representa aspectos inteiramente diferentes.

A lua não tem a potência iluminadora do sol. Ao subir no horizonte, sua luz contrasta com as trevas e as trevas vão crescendo em torno dela. Ela se destaca da escuridão, mas sem crescer em luminosidade. Não visa destruir as trevas, não é essa a sua função. Não visa dominar, nem se impõe como o sol. Não estando ele presente, ela devolve amigavelmente parte da sua luz.

Diante dos homens que estão sós e órfãos do sol, o luar entra na intimidade deles e os consola, dando uma ajuda, um lenitivo, uma esperança. Aos que ficaram atemorizados com o esplendor do sol, a lua tranquiliza: Você não interpretou bem o sol. Eu também sou luz, e se você observar como é a luz em mim, amanhã entenderá melhor o brilho do sol. Graças a essa ação benéfica da lua, de Maria Santíssima, homens assim amanhecem reconciliados com o sol. E sob o sol benfazejo eles recomeçam suas jornadas.

Como consoladora, a meia-luz da lua também atenua o que é feio, tosco, defeituoso, bem ao modo de Nossa Senhora. E o sol prossegue sua ação grandiosa, à maneira de Deus Nosso Senhor.

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 12 de junho de 1981. Esta transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte: Revista Catolicismo, Nº 830, Fevereiro/2020.

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