São Domingos de Gusmão na perspectiva de Plinio Corrêa de Oliveira

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No post de ontem reproduzimos a Parte I

da matéria principal da revista Catolicismo deste mês

[800 anos da morte de São Domingos de Gusmão ]

neste post de hoje segue segunda parte.

Catolicismo já publicou a vida de São Domingos de Gusmão em algumas edições (vide, por exemplo, o nº 632, de agosto/2003), mas para esta efeméride especial do oitavo centenário de seu falecimento, pesquisamos em conferências do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira comentários sobre o destemido santo dominicano, de quem era grande admirador. Encontramos muitos, e oferecemos aos nossos leitores uma seleção extraída de quatro conferências (de 4-8-64, 4-8-65, 4-8-67 e 12-1-70). Fizemos apenas ligeiras adaptações da linguagem falada para a escrita e inserimos subtítulos. Os comentários que seguem foram extraídos de gravações em fita magnética, sem revisão do autor.

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Missão de perseguir as falsas doutrinas e extirpá-las

Tal é a crise na Igreja, corroída pelo progressismo dito católico, que se São Domingos de Gusmão tivesse alguma vez na vida parado o seu cavalo diante de um herege, tivesse dele apeado e dado ao herege um pouco de pão para comer e um pouco de água para beber, haveria muitos quadros e poesias a respeito desse gesto. Isso estaria mencionado pelos progressistas na liturgia, haveria iluminuras, falariam ao máximo sobre esse gesto de caridade do santo. Mas ele enquanto fundador da Inquisição é um capítulo sobre o qual não se fala.

 Como seria bom se tivéssemos um artista capaz de representar São Domingos estudando e meditando a fundação da Inquisição. Por exemplo, se tivéssemos uma boa reprodução daquela pintura, obra de Fra Angélico [foto acima], do santo sentado revestido com o hábito dominicano, pensativo, puro, casto, direito, fazendo a leitura de um livro, e publicássemos com o título: “São Domingos medita a fundação da Sagrada Inquisição contra a perfídia dos hereges”.

Fra Angélico, na sua pintura de São Domingos, faz notar os traços característicos da gravidade e da concentração que o mostram inteiramente aplicado no que está lendo, revelando a capacidade de transcender o concreto. Percebe-se a dificuldade que o espírito do santo encontra em compreender determinada coisa. Sua mente está embrenhada num labirinto e quer resolver um ponto que oferece resistência. A gravidade é acentuada e completada pela inteira serenidade do seu ser. Um esforço sério, sem agitação, sem estar representando para si mesmo. Ele está sozinho aos olhos de Deus, e almejando encontrar a verdade.

A Ordem Dominicana teve exatamente essa missão de perseguir as falsas doutrinas e extirpá-las. Daí a missão dos tribunais da Santa Igreja, o Santo Ofício, que, conforme revelação recebida por Santa Catarina de Siena, tinha a missão de ser o gládio de duas lâminas para converter e castigar.

São Domingos é o santo da Inquisição, mas também o santo pregador do rosário de Nossa Senhora. Esse é capítulo da vida dele muito importante de se focalizar, que é o seguinte: o bom católico contra-revolucinário reza o rosário; e as pessoas que rezam o rosário se tornam bons contra-revolucionários.

Há uma espécie de ordem especial do demônio contra a devoção ao rosário, pois há uma capacidade especial do rosário de incutir terror aos demônios. Também há uma espécie de zelo especial pelo rosário de quem é bom católico e o reza todos os dias. Em sentido contrário, quem vai abandonando o uso diário da sua recitação está no caminho de se tornar tíbio e deixar de ser autenticamente católico.

Assim se compreende a beleza de ver que o santo da Inquisição, nascida da Igreja Católica e das Ordens de Cavalaria, tenha sido ao mesmo tempo o grande pregador do rosário.

Aquele que verdadeiramente ama a Deus, odeia o mal

Auto de Fé presidido por
São Domingos de Gusmão (c. 1493-1499)
– Pedro Berruguete, séc. XV.
Museu do Prado, Madri.

Na vida de qualquer santo, escrita na concepção mole e sentimental, adocicada e relativista que eu costumo denominar concepção “heresia branca”, figura sempre isto: foi muito bom, perdoou muito, curou muitos doentes, agradava muito as criancinhas etc. Ou seja, segundo tal concepção, a santidade quer dizer ser dulçuroso no trato. E nunca os seguintes elogios: que ele velou pela doutrina, odiou os hereges e extirpou a heresia. Porque isto parece uma cogitação de caráter intelectual, e não moral. Os adeptos da concepção sentimental não consideram a firmeza nos princípios como virtude. Acham que isso é antipático. Para eles, é antipático combater a heresia, rejeitar os hereges.

Havia um alto personagem da Igreja aqui no Brasil que deu ao seu secretário o seguinte conselho: “Padre Fulano, o senhor tome como norma de santidade o seguinte: qualquer ato que lhe pareça bom na vida, mas que possa fazer alguém sofrer, não o faça porque não é bom.” Segundo ele, o bem nunca faz sofrer a ninguém. Esta é a mentalidade estritamente molenga e sentimental, pois não compreende nem de longe a necessidade de defender a doutrina, de corrigir aqueles que erram e, menos ainda, a necessidade de combater aqueles que erram na doutrina.

Entretanto, a verdade é que o amor de Deus tem como expressão necessária o amor a Ele como Ele é, como Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, ensinou. E aquele que verdadeiramente ama a Deus, odeia o mal. Ser catolicamente ortodoxo sem odiar o mal é outro absurdo. Seria como pretender ter virtude sem ter ortodoxia.

Por isso vemos a boa doutrina cantando as glórias de São Domingos de Gusmão, dizendo que ele foi um extirpador das heresias; um dom que Nossa Senhora lhe deu foi a virtude da combatividade. Quanto mais uma pessoa é combativa, mais ela é ortodoxa, mais ama a Deus.

Amor de Deus que pode também ser manifestado defendendo a legitimidade da Inquisição, a legitimidade das guerras santas, a legitimidade da polêmica, que o irenismo tanto quer negar.

Sempre que se dá ao erro a possibilidade de se alastrar, está-se apoiando uma perseguição à verdade. Sempre que se dá ao mal a liberdade, apoia-se uma perseguição ao bem. Porque está na índole do erro de ser contagioso. Depois do pecado original, o homem tem uma apetência de erro. O filósofo espanhol Donoso Cortés (1809-1853) dizia que o milagre da Igreja não consistiu em se impor à aceitação dos homens por ser boa e santa, mas apesar de ser boa e santa. Isto porque os homens têm uma enorme atração pelo erro e pelo mal. Se deixamos o erro e o mal livres, nós permitiremos que eles dominem os homens. Portanto, não há pior tirania e crueldade do que advogar a liberdade para o erro e para o mal.

Nobreza da cavalaria que combate o erro e o mal

O que é mais importante: defender almas ou defender corpos? Evidentemente é defender almas. Dom Prosper Guéranger (1805-1875) comenta muito bem: o que fazia o cavaleiro andante? Ia de um lado para o outro para defender as viúvas, os órfãos e os fracos. Ora, todos os homens, em consequência do pecado original, têm maus pendores e estão expostos ao erro. De maneira que toda a nobreza de uma cavalaria andante em nossos tempos dever-se-ia concentrar naqueles que combatem o erro e o mal denodadamente.

Nos presentes dias, essas reflexões são muito oportunas. Outrora tínhamos a combatividade da Ordem Dominicana, mas hoje, para exemplificar com o Brasil, temos frades do convento dos dominicanos (em São Paulo) que rejeitam aquela combatividade do fundador que foi São Domingos. Constatamos então a enorme decadência das melhores instituições em nosso século.

O pior mal de nosso tempo não consiste em que os comunistas sejam o que são e que tenham o poder que têm. Mas que aqueles — como no caso dos dominicanos — que deveriam combater o comunismo sejam o que são e adotem as posições erradas, como a doutrina igualitária comunista. O que diria São Domingos se ressuscitasse e aparecesse diante de seus pobres filhos espirituais hoje!

Vem a propósito rezar e fazer atos de reparação ao Fundador dos Dominicanos por toda a ofensa que essa deformação de sua admirável Ordem sofre em tantas partes, e pedir que ele nos defenda de seus filhos que tenham se transviado.

O começo da misericórdia é a ameaça da justiça

São Domingos e Simão de Montfort
(vitral da igreja dos dominicanos em Washington, D.C.)
– Foto de Frei Lawrence Lee, O.P.

Primeiramente, todas as medidas tomadas por São Domingos contra os albigenses tinham se manifestado baldas. E a heresia tinha manifestado uma resistência que sobrepujava todos seus esforços, apesar de ter operado grandes prodígios.

O santo compreendeu então que, se não obtivesse novas graças de Deus, não haveria conversão, não haveria vitória. Ele, muito aflito pela dor da Igreja, se isolou e passou três dias e três noites em oração, jejuns e penitência. Nossa Senhora teve pena e falou com ele, ensinando-lhe a devoção do santo rosário e incentivando-o a divulgar essa devoção a fim de obter as conversões desejadas.

São Luís Grignion de Montfort comenta — no já citado livro O Admirável Segredo do Rosário — que São Domingos foi para Toulouse, então capital da heresia albigense, faz uma pregação na igreja, há manifestações da cólera de Deus e de Nossa Senhora ameaçando com castigos. Ou seja, a cólera materna. Enquanto alguém é grato pelo menos à sua mãe, tudo vai bem. Mas se ouvirmos dizer que a mãe dele o detesta e lhe tem horror, nós dizemos então que para ele tudo acabou.  

Devido à apatia daquele povo, que não se convertia, Nossa Senhora manifestou a cólera de modo sublime. Mas depois veio a manifestação d’Ela enquanto “Arca da Aliança” — a manifestação de sua misericórdia. A violência da cólera e o temor preparam as almas para receber a misericórdia. E o começo da misericórdia é a ameaça da justiça, de tal maneira a justiça e a misericórdia se ligam.

Como afirma o Livro do Eclesiástico, “O temor do Senhor é o início da sabedoria” (Ecle. 1,16). A maior das misericórdias é a sabedoria, mas ela começa pelo temor; o temor é o primeiro passo para o amor; o temor nos desliga das coisas a que estamos apegados e que nos impede de amar a Deus. Na narrativa de São Luís Grignion, nota-se que esse maravilhoso favor de misericórdia de Nossa Senhora foi o rosário.

Admirável equilíbrio da Igreja no agir: a palavra e a espada

São Domingos de Gusmão foi uma pessoa sobre a qual a Providência velou com um zelo muito especial, desde antes de seu nascimento. Quando ele estava para nascer, sua mãe teve uma visão de um cachorrinho andando e levando na boca uma tocha. Era exatamente o prenúncio do filho que haveria de ser como um cão, símbolo da fidelidade, levando na boca uma tocha que era o símbolo do ardor, do zelo por Deus, pela Igreja na luta contra seus inimigos.

Ele foi um excelente pregador, dotado de lógica e virtude extraordinárias, que arrebatava todas as almas retas. Formou a Ordem Dominicana. Logo que fundada, essa ordem religiosa começou a atrair tanta gente para si, que não pôde receber todos os interessados. Ele formou uma Ordem Segunda para mulheres e uma Ordem Terceira só para receber os leigos que desejavam entrar para a Ordem de São Domingos.

Mas, de outro lado, os hereges albigenses não se rendiam e começaram a discutir com ele, a debicar, a fim de ridicularizá-lo. Sofreu agressões e até mesmo tentaram matá-lo. Assim, o santo suscitou uma verdadeira cruzada contra os hereges, tão exitosa que em pouco tempo levou os albigenses de roldão. Foi uma cruzada de pregadores dominicanos, mas que também contou com o auxílio de senhores feudais do centro e do norte da França, bem como com a força dos soldados de Simon de Montfort, que invadiu o sul dominado pelos albigenses e desmantelou suas fortalezas.

Devemos admirar tanto a mansidão quanto a coragem dos dominicanos daquele tempo, que empregaram as armas da persuasão pela palavra. Mas como os hereges — não tendo como replicar aos argumentos — passaram para a agressão física, chegou o momento da força. Os frades dominicanos se manifestaram como cruzados na extirpação daquela heresia irredutível. Caso contrário, ela poderia do sul da França expandir-se e tomar conta de todo o país, rompendo a unidade da Europa — como três séculos depois aconteceu com a heresia luterana que dilacerou o Ocidente.

Imaginem que, se atacada, a Igreja não tivesse se defendido… O erro teria penetrado em toda a França e contagiado outras nações. Houve tempo de falar e outro de lutar. Primeiro uma luta pela palavra — a tentativa de converter os hereges — depois uma luta utilizando a força. Cada etapa em seu tempo, segundo as normas da moral católica. E deu resultado!

É esse o admirável equilíbrio de todas as coisas que são verdadeiramente da Igreja. É esse o equilíbrio dos santos, de que a Igreja nos dá provas em todas as vidas dos santos. E é esse o equilíbrio que nós devemos admirar. Nada de moleza e covardia diante do adversário. Nada também de exacerbação. Tudo realizado com conta, peso e medida.

Campanha da TFP contra a Reforma Agrária socialista e confiscatória no centro de São Paulo.

TFP — Uma analogia com fatos históricos

Termino esta exposição com uma analogia histórica com as circunstâncias do nosso tempo. Os membros da TFPpercorrem as ruas de todas as cidades do Brasil, apresentam a doutrina católica e dão os argumentos com lógica e seriedade. Toda abordagem é feita com cortesia. Os transeuntes veem a beleza artística de nossas campanhas com as belas capas e estandartes rubro-áureos. O que acontece?

Nessas campanhas — por exemplo, contra a implantação no Brasil da reforma agrária socialista e confiscatória — os adversários não refutam nossos argumentos por meios lógicos. O que fazem? Usam a arma do debique, caçoando de nossas campanhas. Nós refutamos com o contra-debique. Eles partem para a agressão física, como ocorreu em algumas cidades. Nosso contra-ataque não poderia ser outro: a defesa pessoal, reagindo varonilmente às agressões. Agimos com toda prudência, mas com toda valentia que as circunstâncias exigirem. Tudo segundo os princípios da doutrina católica. É o estilo TFP de agir.

Aliás, a respeito escrevi um artigo publicado na Folha de S. Paulo,2 intitulado “Estilo”, no qual mostrei que é notório aos olhos de todos que os jovens da TFP — quer em atividades de propaganda, quer no trato da vida quotidiana — primam pela cortesia. Mas, se agredidos, eles sabem se defender com energia. No final do artigo, escrevi sobre a linha de conduta da TFP: “Um estilo de viver, de agir, e de lutar, que é a versão, em termos contemporâneos, do espírito do cavalheiro cristão de outrora. No idealismo, ardor. No trato, cortesia. Na ação, devotamento sem limites. Na presença do adversário, circunspeção. Na luta, altaneria e coragem. E, pela coragem, vitória”.

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Nossa Senhora fez de São Domingos de Gusmão o apóstolo do rosário, o fundador da Ordem dos Pregadores Dominicanos e da Inquisição, e, por excelência, um extirpador das heresias. Sua vida é um verdadeiro poema da luta contra os hereges. Ensinando o rosário e praticando a virtude da austeridade católica, trouxe de volta à Igreja incontáveis almas. Peçamos a ele uma alma ardente na defesa da fé, um horror a todas as heresias e uma ardente devoção ao santo rosário.

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Notas:

1. A TFP — Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade — foi fundada por Plinio Corrêa de Oliveira em 1960. Para conhecer mais a respeito, recomendamos o livro Um homem, uma obra, uma gesta, disponível no site:https://www.pliniocorreadeoliveira.info/Gesta_0000Indice.htm#.YPjzGOhKjIU

2. https://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2069-09-24%20Estilo.htm

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