Luminar da ortodoxia, coluna da Igreja, flagelo das heresias, fundador da aguerrida Ordem dominicana. Sua festa litúrgica é celebrada no dia 8 de agosto.

São Domingos de Gusmão – Claudio Coello (1642–1693). Museu do Prado, Madri.

São Domingos de Gusmão nasceu em Caleruega, Castela a Velha (Espanha), em 24 de junho de 1170. De ilustre estirpe, seus pais Félix de Gusmão e Joana de Aza geraram uma família de santos. Além de Domingos, os dois outros filhos do casal morreram em odor de santidade. O primeiro foi Antônio de Gusmão, que distribuiu todos os seus bens aos pobres, tornou-se sacerdote e se retirou a um hospital para servir Nosso Senhor Jesus Cristo em seus membros sofredores. Manes, o segundo, ingressou na Ordem dominicana, da qual se tornou grande pregador e exemplar religioso. Foi beatificado, juntamente com sua mãe, por Gregório XVI.

         Não admira que numa tal família Domingos se sentisse desde o berço atraído para a virtude. Segundo a tradição, antes de ele nascer sua mãe fez uma novena no santuário de São Domingos de Silos, e no sétimo dia o santo abade lhe apareceu rodeado de glória para lhe anunciar que o filho que trazia no ventre seria a luz do mundo e a consolação de toda a Igreja. Pouco depois ela viu em sonhos que dava à luz um pequeno com uma tocha na boca, com a qual começou a incendiar o mundo.

Maturidade precoce, exemplo de virtude

A prova do fogo: os livros dos hereges pegam fogo, mas os de São Domingos voam, sendo preservados (Quadro de Pedro Berruguete, séc. XV – Museu do Prado).

Domingos possuía precocemente na infância a sabedoria dos anciãos. Sempre foi sério, maduro, modesto, recolhido, humilde, devoto, temperante e obediente. Aos sete anos foi aprender as primeiras letras com seu tio, que era arcipreste em Gumiel d’Yzan, e aos catorze ingressou na universidade de Castela, em Palência. Durante 10 anos brilhou nos bancos escolares e deu exemplo de virtude.

         Seu primeiro biógrafo afirma: “As verdades que ele compreendia, graças à facilidade de seu espírito, regava-as com o orvalho dos afetos piedosos, para que germinassem os frutos da salvação. Como um silo, sua memória se enchia da abundância das riquezas divinas, e suas ações exprimiam no exterior o tesouro sagrado que enchia seu peito”.[1]

         Os pobres, órfãos e viúvas encontravam nele amparo e auxílio. Acorriam às suas luzes os sacerdotes com dificuldades em teologia, casos de consciência ou pontos da Escritura. Nessa época ele dava lições públicas de Sagrada Escritura na Universidade de Palência.

Dedicação heroica à salvação das almas

         Tendo o bispo de Osma reformado sua diocese, convidou os cônegos da catedral a viverem em comunidade, observando a regra de Santo Agostinho. Convidou também Domingos a se mudar para lá e vestir o hábito de cônego regular. Pouco depois o nomeou vice-prior dos cônegos, que era o mais alto posto, porque o prior era o próprio bispo, cargo que acumulava com seu múnus episcopal. Domingos passou assim nove anos numa vida de contemplação e união com Deus, raramente ultrapassando os limites da casa canonical. Estremecia-se, contudo, ao saber que tantos se perdiam por falta de pregadores, e implorava a Nosso Senhor que lhe desse um meio de se consagrar por inteiro à salvação das almas. E foi ouvido:

“Já tinha trinta e três anos, e terminara sua formação física, intelectual e moral. Sem ele dar-se conta, Deus vinha temperando sua natureza heroica com um caráter essencialmente combativo: possuía ampla educação eclesiástica e universitária; a cátedra deu solidez a seus conhecimentos; a vida regular do cabido o iniciou nas vias da perfeição religiosa; e seu cargo à frente dos cônegos abriu-lhe as perspectivas da administração temporal e do regime das almas”.[2] Estava pronto para a grande odisseia espiritual de sua vida.

Heresia albigense incentivou o zelo apostólico

No ano 1203, o rei de Castela Afonso VIII pediu ao novo bispo de Osma, D. Diego de Acevedo, que fosse à corte da Dinamarca para negociar o casamento de um dos príncipes com uma princesa dinamarquesa, cuja formosura havia sido celebrada na corte pelos trovadores. Com ele iria Domingos de Gusmão. Era um longo caminho. Deviam atravessar os Pireneus e entrar no sul da França, passando por Toulouse, então capital dos hereges cátaros, uma seita maniqueísta que estava fazendo muitos prosélitos, inclusive atraindo os condes de Toulouse.

         A vista dessa região devastada pela heresia impressionou sensivelmente os dois viajantes. Como diz um dos biógrafos de Domingos, ele sentia o cheiro dos inimigos da Fé, do mesmo modo como Santa Catarina de Siena sentia o dos pecadores. Foi aí que Domingos se deu conta da necessidade de uma congregação de pregadores apostólicos para opor-se às heresias.

         Continuaram a viagem, a qual do ponto de vista humano foi infrutífera, pois a princesa cuja mão eles iam pedir falecera um pouco antes. Porém, quando ouviram falar que havia na Alemanha algumas tribos selvagens, que ninguém conseguira evangelizar, decidiram viajar a Roma a fim de pedir ao Sumo Pontífice permissão para fazê-lo, o que pressupunha a renúncia de D. Acevedo ao episcopado.

         Conhecedor dos méritos do bispo, o Papa Inocêncio III julgou ser muito mais importante para os interesses da Igreja combater a seita dos cátaros, por isso não aceitou sua renúncia, permitindo apenas que ele dedicasse dois anos à conversão dos cátaros antes de voltar à sua diocese. Juntaram-se a alguns monges de Cister, que já estavam pregando entre os hereges, e se entregaram à difícil tarefa de reconduzir a Deus almas extraviadas por aquela perniciosa heresia.

Estupendos milagres durante a pregação

         Muitos milagres marcaram a evangelização de São Domingos de Gusmão entre os cátaros. Um dos mais famosos ocorreu em Fangeux, na diocese de Carcassone. Os líderes cátaros apareceram em grande número, trazendo o livro que continha todas as suas heresias. São Domingos levava um caderno, no qual havia refutado a maioria desses erros. Como não chegavam a nenhum acordo, decidiram apelar para a prova do fogo, e o escrito que permanecesse incólume seria o verdadeiro. Fizeram uma grande fogueira, e nela jogaram o livro dos cátaros, que pouco depois estava reduzido a cinzas. Lançaram então ao fogo o escrito de Domingos, mas este voou ao ar sem se queimar, indo pousar numa viga do teto onde deixou uma marca de fogo. Por três vezes os hereges repetiram o ato, com o mesmo resultado. Mas os hereges não converteram seus corações empedernidos, nem mesmo com esse milagre.

Santo Rosário: antídoto eficaz contra a heresia

Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos

         Em 1207, em Prouille, São Domingos preocupou-se com a sorte de várias donzelas cujos pais não podiam sustentá-las, por causa da carestia que assolava a região. Reuniu-as então no primeiro mosteiro dominicano da Ordem Segunda, a das monjas. Na capela desse convento, como narram alguns dos biógrafos, Nossa Senhora apareceu a São Domingos e lhe disse que, “como a saudação angélica tinha sido o princípio da redenção do mundo, era necessário também que essa saudação fosse o princípio da conversão dos hereges; e assim, pregando o Rosário que contém cento e cinquenta Ave-Marias, ele veria um sucesso maravilhoso em seus trabalhos, e os mais empedernidos sectários se converteriam aos milhares”.[3]

         A santidade de Domingos, seu rigoroso ascetismo, seu zelo inflamado, sua inalterável doçura, sua convincente eloquência começaram a produzir frutos esplêndidos. Muitas conversões se operaram, e em torno dele foi se juntando um grupo de jovens para receber sua direção e imitar seu exemplo. Esse foi o núcleo inicial do que seria depois a Ordem dos Pregadores ou Dominicanos.

Ordem dominicana: pregadores-cavaleiros de Cristo

Relíquia de São Domingos

         Em 1215 tinha São Domingos 45 anos, quando reuniu os seis primeiros discípulos numa casa de Toulouse e lhes deu o hábito dos cônegos regulares de Osma – branco com a capa e capuz de lã negra – que ele continuava vestindo. Entre eles estava seu irmão, o Beato Manes. Esses cavaleiros de Cristo deviam formar um corpo de homens sábios, pobres e austeros, cujos traços essenciais seriam a ciência e a piedade. O trabalho manual foi suprimido, a oração litúrgica diminuída e o estudo prolongado, ficando os exercícios de penitência subordinados às exigências da pregação. São Domingos queria que seus discípulos fundassem casas nas principais cidades universitárias da Europa, a fim de atrair a juventude acadêmica para as suas fileiras.

         Inocêncio III concedeu em 1215 a primeira aprovação à Ordem nascente, e no Concílio de Latrão propôs a todas as igrejas aquele programa de renovação cristã e vida apostólica. Seu sucessor, Honório III, foi um protetor e amigo de Domingos e seus discípulos.

Encontro de dois santos exponenciais

Encontro de São Domingos com São Francisco. Mosteiro Real de São Tomás, Ávila (Espanha).

         Em uma de suas viagens a Roma, Domingos se encontrou casualmente com Francisco de Assis, que procurava obter ali a aprovação de sua obra. Sem se conhecerem, eles se dirigiram um ao outro e se abraçaram, enquanto Domingos dizia: “Somos companheiros e criados de um mesmo Senhor; são os mesmos os negócios que tratamos; os mesmos os nossos intentos; caminhemos como se fôssemos um só, e não haverá força infernal que nos desbarate”.

         São Domingos de Gusmão faleceu aos 51 anos de idade, em 1221, e foi canonizado por Gregório IX em 1234.

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Notas:

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 836, Agosto/2020


[1] Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, vol. III, p. 281.

[2] Id. p. 284.

[3] Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo IX, p. 283.

Outras obras consultadas:

● John B. O’Conner, The Catholic Encyclopedia, Volume V, Copyright © 1909 by Robert Appleton Company, Online Edition, Copyright © 2003 by Kevin Knight.

● Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1945, vol. IV.

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