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Há uma pergunta que, sob aparência simples, encerra uma profunda meditação:

Se Deus é como o Sol, por que existe a noite?

O sol ilumina, aquece, transforma. Sob sua ação, os campos amadurecem, os frutos se douram, a vida se organiza. Quando ele brilha, ninguém duvida de sua existência. Ele se impõe.

Mas é durante a noite que é belo acreditar na luz.

A noite não destrói o sol. Apenas o oculta aos nossos olhos. Ele continua lá, sustentando o universo com a mesma força. O que mudou foi a posição da terra.

Assim também na vida espiritual — e na história dos povos.

Há épocas luminosas, em que a presença de Deus parece evidente nas instituições, nos costumes, na arte, na própria organização da civilização. A Cristandade medieval foi uma dessas auroras. A ordem social refletia, com todas as suas limitações humanas, algo da luz do Alto.

Mas há também as noites históricas.

São João da Cruz fala da “noite escura” como momento de purificação. Não é abandono; é um ensinamento divino. O que parece ausência e silêncio é preparação.

O mundo moderno atravessa algo semelhante. A descristianização das leis, a confusão moral, a inversão de valores, o obscurecimento da verdade natural — tudo isso compõe uma paisagem crepuscular.

Muitos perguntam: se Deus é luz, por que esta escuridão?

É aqui que devemos nos lembrar da lua.

Podemos olhar para Nossa Senhora como a lua, por excelência. “Pulchra ut luna electa ut sol” – bela como a lua, eleita como o sol. São Bernardo exortava: “Respice stellam, voca Mariam” — olha para a estrela, chama por Maria. E São Luís Maria Grignion de Montfort ensinava que Maria é o meio escolhido por Deus para fazer reinar Cristo no mundo.

A lua não possui luz própria. Reflete a luz do sol. Assim é Maria: tudo nela vem de Deus, tudo aponta para Deus. Ela não substitui o Sol; Ela o transmite para que possamos compreender melhor.

Quando a noite cobre a terra, a lua não elimina a escuridão, mas permite caminhar. Ilumina o suficiente para que não se perca o rumo. Conforta. Guia. Está próxima.

E há mais.

O sol queima, mas transforma. Sob sua ação, tudo pode tornar-se dourado. Ele simboliza a ação direta de Deus na alma — às vezes exigente, sempre vivificante. Não podemos fitá-lo por muito tempo sem perder a visão. Até os serafins, na visão de Isaías, velam o rosto diante da glória divina.

A lua não queima. Mas move as águas. E o homem é, em grande parte, feito de água.

Assim também Nossa Senhora atua na vida interior: com suavidade, mas com eficácia profunda.

Santo Afonso de Ligório dizia que todas as graças nos vêm pelas mãos de Maria. Não por necessidade divina, mas por disposição providencial.

Se há eclipse, não é o sol que deixa de existir. É a sombra da terra que oculta a lua. Enquanto nos apegarmos à sombra terrena, a luz da lua ficará, como que, eclipsada.

É um fenômeno passageiro. Do mesmo modo, as aparentes vitórias da irreligião não anulam a realeza de Cristo.

A noite moderna pode parecer espessa. Mas nenhuma noite é eterna.

São Luís Maria falava de um tempo em que Maria seria mais conhecida, mais amada e mais servida — tempo de renovação espiritual – o Reino de Maria. Não um reino político no sentido vulgar, mas uma era histórica em que as almas, as famílias e as instituições refletiriam novamente a luz de Cristo com maior pureza.

Se hoje atravessamos uma noite, ela não é negação do Sol. É prelúdio da aurora.

E talvez esta seja a grande lição: nas épocas de luz, crer é natural. Mas é durante a noite que é belo acreditar na luz.

Crer quando tudo confirma é fácil.

Crer quando tudo obscurece e vai contra é virtude.

Se Deus é como o Sol, Ele continua a brilhar acima das nuvens da história.

E se Maria Santíssima é como a lua, sua presença na noite do mundo não é acaso — é promessa.

A noite prepara o dia.

E quem ama a luz não teme esperar pela aurora.

Em Fátima, Nossa Senhora prometeu: por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.

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