Embora não pareça ser um ambiente religioso, foi nesse lugar (um galpão ou depósito de fábrica?) que se realizou a 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Mediante documento intitulado “Mensagem da 56ª Assembleia Geral da CNBB ao povo brasileiro” do dia 7 de abril, a entidade tomou posição sobre as próximas eleições. Durante a leitura tive uma surpresa e me veio à mente, nem sei por que, título de artigo do prof. Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em Catolicismo, abril de 1964: “Pensando, criticando, matizando, e esperando na borrasca do século 20”. Sempre gostei da frase, reflete postura séria e proveitosa do espírito; diante de qualquer assunto, refletir, analisar, confrontar. E só então agir.

É o que pretendo fazer com o importante documento da entidade que congrega os bispos do Brasil. No geral, uma borrasca, mas há uma fresta de luz no meio. Verão abaixo o motivo da surpresa.

No seu primeiro ponto, o documento episcopal traz forte condenação do aborto; de outra forma é advertência contra candidatos que o propugnem: “[Bispos católicos do Brasil] preocupados com a defesa integral da vida”. Não é novo, a CNBB sempre se manifestou louvavelmente contra o aborto provocado e demais medidas que são assassinas ou favorecem o assassinato.

O texto coloca ênfase na construção do bem comum. Cinco vezes ali aparece a expressão. Em si, normal, até imprescindível em documento dessa índole. Infelizmente, em muitas das posições abaixo analisadas, ele foi desconsiderado, para dizer o mínimo. Assim o definiu João XXIII na “Mater et Magistra”: “o conjunto das condições sociais que permitem e favorecem nos homens o desenvolvimento integral da personalidade”. Simples e denso.

O desenvolvimento inteiro da personalidade, objetivo do bem comum (e do Estado) se faz bafejando liberdades naturais cujo desabrocho enérgico é o único fator que pode efetivamente gerar uma sociedade protetora dos direitos humanos, dessa forma harmonicamente desigual. Se quisermos, proporcionadamente desigual. Neste contexto, o aumento das desigualdades em todos os âmbitos da vida é bem a ser desejado. E se torna claramente contrária ao bem comum a sociedade igualitária.

Embora não pareçam Prelados da Igreja Católica, pois não se vê nenhuma batina, a foto é de bispos reunidos na 56ª Assembleia Geral da CNBB. Lamentavelmente, abandonaram o traje eclesiástico com os ventos modernistas soprados no Concílio Vaticano II.

Com harmonia, proporção, razoabilidade, quanto mais desiguais os homens, nos mais diferentes domínios, mais rica de valores e bens será a sociedade, e assim mais perfeitos e felizes seus componentes. A CNBB aqui, fiel a seu longo passado de subserviência ardente ao ideário petista, propugna como objetivo “a construção de um país justo, ético e igualitário”. Justo e ético, no caso quase uma redundância, está bem. Igualitário? Os bispos se esqueceram de nomear como objetivo — num país outrora intitulado de Terra da Santa Cruz —, que seja verdadeiramente cristão, fiel às suas origens.

Ainda a deplorável contumácia na posição da companheira de viagem do petismo, cujos setores decisivos sempre foram furibundamente favoráveis ao aborto e a medidas contrárias à família, agora especialmente a ideologia de gênero: “A carência de políticas públicas consistentes no país está na raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência”. Todos sabem, é o que afirma falaciosamente o PT e assemelhados.

O aumento do desemprego tem raiz, mais proximamente, no intervencionismo estatal amalucado do governo Dilma Rousseff, que afundou o Brasil. Mais longinquamente, em boa medida na opressão coletivista que impede o desabrochar da liberdade natural de empreender, protegida pela garantia ao direito de propriedade e à livre iniciativa. Houvesse mais respeito ao princípio de subsidiariedade, menores seriam o desemprego e menos agressiva a violência.

Continua o documento na trilha esquerdista: “A perda de direitos e de conquistas sociais, resultado de uma economia que submete a política aos interesses do mercado, tem aumentado o número de pobres”. Nem vou comentar. Os Estados Unidos, despreocupados com as tais conquistas sociais, é o paraíso terreno sonhado pelos pobres de países, verdadeiros infernos sociais, lotados das tais conquistas, como Cuba, Venezuela, Nicarágua. É triste, mas a CNBB, queira ou não, trabalha para que o Brasil tenha destino semelhante a eles. De passagem, conquista social, expressão enganosa, virou mantra político. Serve para tudo, significa nada de sério.

Agora, a surpresa. Para as eleições, a CNBB defende fazer valer “a Lei 135/2010, conhecida como ‘Lei da Ficha Limpa’, que torna inelegível quem tenha sido condenado em decisão proferida por órgão colegiado”. Lula virou ficha-suja. A CNBB aqui advoga claramente medida que o coloca fora das próximas eleições. Sabia que estava causando uma trombada na agitação petista. Pelo histórico deprimente, sempre alinhada com as últimas demagogias esquerdistas, não era de esperar. Já é alguma coisa, um golinho d’água para quem está sedento.

Curiosamente, as batinas que não vimos na foto acima, aqui elas aparecem… Se não usam mais batinas nos ambientes religiosos, por que usá-las numa manifestação comunista?

Convém notar que a atitude acima vai na linha do que dias atrás mandou divulgar dom Odilo Scherer sobre a pantomina (oficialmente, ato ecumênico) pró-petista de dom Angélico Sândalo Bernardino [foto ao lado] em frente do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo: “Sobre o ato religioso realizado ontem na frente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a assessoria de imprensa da Arquidiocese de São Paulo esclarece que: 1. Não se tratou de Missa, mas de um ato ecumênico; 2. Foi iniciativa pessoal de quem promoveu o ato; 3. Não houve participação da CNBB nem da arquidiocese de São Paulo; 4. O ato aconteceu fora da jurisdição e responsabilidade do arcebispo e da arquidiocese de São Paulo; O arcebispo de São Paulo lamenta a instrumentalização política do ato religioso”.

Aliás, não é a primeira vez que dom Odilo Scherer sai publicamente contra setores extremados episcopais, ligados à CNBB. Em 22 de junho de 2017, a CNBB defendeu o CIMI, de orientação muito conhecida, em disputa que aqui não vou relatar (está relatada no meu artigo A CNBB, mais uma vez, agrava a exclusão social’, 25-6-2017). Dizia o documento da entidade episcopal: Tenha-se em conta ainda que as proposições da CPI se inserem no mesmo contexto de reformas propostas pelo governo, especialmente as trabalhista e previdenciária, privilegiando o capital em detrimento dos avanços sociais. Tais mudanças apontam para o caminho da exclusão social”.

Na ocasião, o cardeal-arcebispo de São Paulo de público deixou ver o desacordo com a CNBB: “Penso que de toda maneira há necessidade de reformas tanto na lei trabalhista como na lei da Previdência. Sim, acho que é necessário fazê-las e fazê-las bem”. Parece, o Purpurado não está só entre seus pares.

Concluo. Exausto de esperar, qual lamparina com paviozinho bruxuleante na borrasca, como católico filho espiritual do Episcopado, ainda tento entrever uma migração célere — cada vez menos provável — rumo a posições como as do Cardeal Jószef Mindzenty, antigo Primaz da Hungria. Rezo para que aconteçam; entrementes, sigo o que julgo dever, de forma matizada expressar, com respeito, desvios demolidores.

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