São Luiz Grignion de Montfort, 1673, França, já previra que seu Tratado sobre Nossa Senhora frutificaria bem mais tarde.

Quase 150 anos após seu nascimento, “o famoso convertido inglês e abalizado teólogo do século XIX, Pe. Frederico William Faber (1814-1863), no prefácio da edição inglesa do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, traduzido por ele, afirma: “Poucos homens, no século XVIII, trazem em si mais fortemente gravados os sinais do homem da Providência do que esse novo Elias, missionário do Espírito Santo e de Maria Santíssima.” https://ipco.org.br/28-04-sao-luis-maria-grignion-de-montfort-confessor-3/

A devoção pregada por São Luiz renovará a face da Terra

Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição

Ainda no século XIX o grande e imortal pontífice, Papa Pio X, proclama o dogma da Imaculada Conceição. Novo triunfo de Maria Santíssima, nova glória para Grignion de Montfort.

A esta criatura dileta entre todas, superior a tudo quanto foi criado, e inferior somente à Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus conferiu um privilégio incomparável, que é a Imaculada Conceição.

No centenário da proclamação do dogma, comenta o Prof. Plinio, em 1954: “Em virtude do pecado original, a inteligência humana se tornou sujeita a errar, a vontade ficou exposta a desfalecimentos, a sensibilidade ficou presa das paixões desregradas, o corpo por assim dizer foi posto em revolta contra a alma.

“Ora, pelo privilégio de sua Conceição Imaculada, Nossa Senhora foi preservada da mancha do pecado original desde o primeiro instante de seu ser. E, assim, nela tudo era harmonia profunda, perfeita, imperturbável. O intelecto jamais exposto a erro, dotado de um entendimento, uma clareza, uma agilidade inexprimível, iluminado pelas graças mais altas, tinha um conhecimento admirável das coisas do Céu e da terra. A vontade, dócil em tudo ao intelecto, estava inteiramente voltada para o bem, e governava plenamente a sensibilidade, que jamais sentia em si, nem pedia à vontade algo que não fosse plenamente justo e conforme à razão. – Imagine-se uma vontade naturalmente tão perfeita, uma sensibilidade naturalmente tão irrepreensível, esta e aquela enriquecidas e super-enriquecidas de graças inefáveis, perfeitissimamente correspondidas a todo o momento, e se pode ter uma idéia do que era a Santíssima Virgem. Ou antes se pode compreender por que motivo nem sequer se é capaz de formar uma idéia do que a Santíssima Virgem era.’

Mais uma glória de Maria Santíssima, mais uma prova do acerto do grande santo marial: São Luiz Grignion de Montfort.

O Movimento Católico no Brasil: devoção mariana

O século XX presenciou no Brasil e em outros paises um renascimento da devoção mariana. Esse seria, a nosso ver, o segundo triunfo de São Luiz Maria Grignion de Montfort: a pujança das Congregações Marianas.

Comenta o Prof. Plinio na Folha de São Paulo: “Naqueles anos havia uma grande e luminosa realidade que se chamava o “movimento católico“. Nessa designação genérica se compreendia o conjunto formado, de norte a sul do país, pelas associações religiosas. É claro que neste, como em todos os vastos conjuntos, havia certa heterogeneidade. Assim, a par de entidades inertes, esclerosadas pelo tempo ou abortadas por fatores vários, havia outras de uma vitalidade incontestável, e algumas até de uma pujança extraordinária. Entre estas últimas, refulgiam as Congregações Marianas. O movimento mariano, que começara a se expandir no período de 1925 a 1930, chegava então ao seu apogeu. Prestara ele à Igreja o incomparável serviço de – num país como o nosso, em que a religião só era praticada pelo sexo feminino e por uma minoria de homens de idade madura – atrair para a vida de piedade e para o apostolado legiões inteiras de jovens de todas as classes sociais.

“Todo este mundo de associações novas e antigas – pois pela quantidade se tratava de um mundo – caminhava para a frente unido filialmente a um clero no qual eram numerosas as personalidades de valor e prestígio, e a um episcopado coeso e profundamente venerado.

“A força do movimento católico se provara em mil conjunturas. Assim, em 1933, o mais jovem dos candidatos à Constituinte Federal foi ao mesmo tempo o mais votado do país. Tinha 24 anos, e obteve 24 mil votos (o necessário para se eleger era 12 mil). Tal votação, deveu-a ele exclusivamente ao apoio das entidades católicas de São Paulo. O teste surpreendeu e impressionou tanto, que a partir desse momento a Liga Eleitoral Católica passou a ser reputada uma das maiores potências do País. Hoje, transcorridos mais de 35 anos, é com alegria e gratidão para com Nossa Senhora que o eleito de 1933 lembra estes fatos para os leitores da “Folha de S. Paulo”. https://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP%2069-02-15%20Kamikaze.htm

A reação católico-conservadora do século XXI

Passemos, então, ao terceiro triunfo de São Luiz Maria Grignion de Montfort: a reação conservadora-católica antipetista está profundamente marcada pela devoção a Nossa Senhora segundo o Tratado de nosso grande Grignion de Montfort. Grupos, por todo o Brasil, leem o Tratado, se persuadem das teses Montfortianas e se consagram à Virgem Santíssimo como escravos de amor.

Essa, seria, a nosso ver, a nota tônica do rejuvenescimento mariano entre os jovens. Sejam eles convertidos do protestantismo à Santa Igreja, sejam católicos indiferentes que recebem uma graça Montfortiana e se tornam escravos de amor da Santíssima Virgem.

In hoc signo vincis! disse uma voz ao imperador Constantino. Nesta Devoção Marial vencerás! Vencerá o Brasil, vencerá a Santa Igreja, e com Ela o Ocidente se se abrir ao ensinamento de São Luiz Grignion.

É o que mais almejamos e pedimos à Santíssima Virgem seguindo as palavras de fogo de Montfort: “Vossa divina Fé é transgredida; vosso Evangelho desprezado; abandonada vossa Religião; torrentes de iniqüidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre?” https://www.pliniocorreadeoliveira.info/1955_055_CAT_O_Reino_de_Maria.htm

Que venha logo o dilúvio de fogo do puro amor que transformará a Terra!

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Que venha o Reino do Imaculado Coração de Maria previsto por Nossa Senhora em Fátima!

São Luís Maria Grignion de Montfort

O famoso convertido inglês e abalizado teólogo do século XIX, Pe. Frederico William Faber (1814-1863), no prefácio da edição inglesa do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, traduzido por ele, afirma: “Poucos homens, no século XVIII, trazem em si mais fortemente gravados os sinais do homem da Providência do que esse novo Elias, missionário do Espírito Santo e de Maria Santíssima. Toda a sua vida foi uma tal manifestação da santa loucura da cruz, que os seus biógrafos são concordes em classificá-lo com São Simão Salus [monge sírio do século VI, chamado o “Santo Louco de Cristo” porque, para não ser tido por santo, simulava loucura, fugindo de todas as regras humanas, para levar os homens ao arrependimento e livrá-los do pecado] e São Felipe Neri [1515-1595, que também era notado por suas aparentes singularidades]. (…) Será difícil achar, depois das epístolas dos Apóstolos, palavras tão ardentes como as doze páginas de sua ‘Prece’ pelos missionários de sua Companhia. (…) Suas prédicas, seus escritos, sua conversação eram impregnados de profecias e de visões antecipadas das últimas eras da Igreja”. Isso o Pe. Faber escreveu ainda muito antes de Luís Grignion ter sido beatificado, o que mostra qual era já sua fama de santidade.

Luís nasceu no dia 31 de janeiro de 1673, em Montfort-la-Cane (hoje Montfort-sur-Meu) na Bretanha. Foram seus pais João Batista Grignion, senhor de Bachelleraie e advogado do município de Montfort, e Joana Roberto, senhora de Chesnais. O santo dirá que seu pai era um cristão convicto, que educou sua família como patriarca, “no temor de Deus”. Entretanto, tinha um gênio muito difícil, com explosões de ira incontroláveis, pelo que sua esposa, amável e bondosa, e os filhos, tinham que suportar com paciência o mau gênio do marido e pai.

O filho herdou o temperamento paterno. Por isso afirmará que “custava-lhe mais vencer sua veemência e a paixão da cólera, que todas as demais juntas”. Mas conseguiu, e se tornou um santo doce e amável como São Francisco de Sales.

Um dos seus biógrafos afirma que ele “é um santo de legenda, que ultrapassa a mediana humanidade”. Bebeu, com o leite materno, a devoção a Nossa Senhora, e desde muito cedo “retirava-se para um canto da casa para dedicar-se à oração e rezar o rosário diante de uma pequena imagem da Virgem”.

Quando Luís Maria completou doze anos em 1685, seus pais o enviaram para o colégio São Tomás Becket, dos jesuítas em Rennes, onde o estudo era gratuito. Nele o Santo permanecerá oito anos completos, mostrando-se um aluno brilhante, e colocando-se à frente de seus condiscípulos.

Decidido a ser sacerdote, Luís Maria ingressou no seminário de São Sulpício, em Paris, em 1692. Uma senhora amiga custodiou seus estudos. Ele será ordenado sacerdote no dia 6 de junho de 1700.

Desde o início do seu sacerdócio, o Pe. Montfort, como era conhecido, traçou seu programa de vida: ir de paróquia em paróquia catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor de Jesus, a devoção à Santíssima Virgem, e reclamar, em alta voz, uma Companhia de missionários a fim de abalar o mundo através de seu apostolado.

Em Poitiers, ficou no Hospital Geral. Essa instituição não estava destinada ao serviço dos enfermos, mas a manter encerrados os mendigos que molestavam à boa sociedade da cidade.        Os pobres, vendo aquele sacerdote mais pobre que eles, se cotizavam para dar-lhe uma esmola. E escreveram ao Bispo a fim de pedi-lo como capelão.

O Santo fundou no hospital uma associação de internas, que “dedicou à Sabedoria do Verbo encarnado, para confundir a falsa sabedoria das pessoas do mundo ao estabelecer nela a loucura do Evangelho”. Era formada por 12 internas, doentes, coxas, aleijadas, e à sua frente colocou uma das mais inteligentes e virtuosas, mas cega. Deu à associação o nome de Sabedoria.

No seu trabalho apostólico, o santo evangelizou várias cidades, sendo sempre perseguido pelos jansenistas, essa espécie de protestantismo no seio da Igreja, que o tachavam de exagerado e inovador.

Pelo que, encontrando tantas dificuldades para fazer o bem na França, decidiu ir a outra parte em busca de uma colheita mais abundante. Resolveu então ir a Roma consultar o Santo Padre.

         Clemente XI (reinou de 1700 a 1721), inspirado pelo Espírito Santo, respondeu-lhe: “Vós tendes, em França, senhor padre, um grande campo para exercer vosso zelo; não vades algures, e trabalhai sempre com perfeita submissão aos bispos nas dioceses que vos chamarem”. Para isso, concedeu-lhe o título de “missionário apostólico”. Acontece que, na França, somente três bispos o acolheram; e uma vez ele teve que viajar a lombo de cavalo para chegar antes do meio-dia numa dessas dioceses para poder dizer Missa, pois não se podia na época celebrar missa vespertina.

Um fato muito conhecido e doloroso na vida de São Luís foi o do calvário de Pontchâteau, na Bretanha, construído com o auxílio de nobres e plebeus, e que era seu orgulho. Na manhã de sua inauguração, veio ordem real de o destruir “por questão de segurança”, pois os inimigos do Santo conseguiram convencer o rei de que aquela construção no litoral, poderia ser utilizada como base para um ataque vindo do mar.

São Luís Maria foi grande pregador da devoção ao rosário, que ocupa um posto importante em sua atividade apostólica. De modo que o povinho o chamava o Padre do rosário grande. O Santo o considerava como um dos meios mais eficazes para “renovar o espírito do cristianismo entre os crentes”.

Por toda parte onde evangelizava, “o bom Pe. Montfort”, como era carinhosamente chamado, fundava associações de Amigos da Cruz, com o fim de venerar especialmente esse instrumento de nossa redenção.

Em sua missão em La Rochelle, o santo foi vítima de envenenamento da parte dos protestantes calvinistas. Ele tomou antídotos, o que lhe salvou a vida, mas o mal estava feito: sua saúde ficou abalada, encurtando seus dias.

Assim, no dia 28 de abril de 1716, esse batalhador incansável entregou sua bela alma a Deus aos quarenta e três anos de idade. Escravo de Jesus em Maria, expirava com os braços, o pescoço e os pés, rodeados de cadeias de ferro; na mão direita segurava o crucifixo indulgenciado por Clemente XI e, na esquerda estreitava uma pequena imagem da Santíssima Virgem que trazia sempre consigo; com ternura contemplava estas imagens queridas, e beijava-as, invocando os nomes de Jesus e de Maria.

O Martirológio Romano diz dele neste dia: “Na aldeia de Saint-Laurent-sur-Sèvre, São Luís Maria Grignion de Montfort, confessor, fundador dos Missionários da Sociedade de Maria e das Filhas da Sabedoria. Era insigne pelo caráter de sua vida apostólica, a pregação e a devoção mariana”.

Reproduzimos artigo do Prof. Plinio publicado no Legionário (1939) — Pro Maria fiant maxima! — anunciando o projeto de construção da nova basílica de Aparecida. Prestamos aqui nossa homenagem à Rainha e Padroeira do Brasil.

O Instituto esteve presente em Aparecida, nesse domingo, dia 10, a fim manifestar à Nossa Senhora Aparecida a devoção filial que anima seus membros.

Terço em reparação à Nossa Senhora Aparecida, 10 de outubro

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“É um fato ao mesmo tempo curioso e edificante na vida da Igreja que, sendo esta depositária das verdades teológicas as mais altas e complexas, a massa dos fiéis, servida, entretanto, por uma especial acuidade de visão, penetra e vive estas verdades ainda mesmo quando seu nível cultural pareceria vedar-lhe o acesso a qualquer atividade intelectual de ordem superior.

“Em tudo que se relaciona com a devoção a Nossa Senhora, esta observação se comprova com toda a clareza. Em dois artigos anteriores (De Grignion de Monfort e Grignion de Monfort (II)), expus sucintamente a doutrina espiritual do Bem-aventurado Grignion de Montfort (*) a respeito da verdadeira devoção a Nossa Senhora, e procurei mostrar aos leitores todo o vigor e toda a profundeza dos argumentos em que a Santa Igreja alicerça sua doutrina marial.

Ação do Espírito Santo nas almas

“Como os leitores tiveram ocasião de ver, doutrina marial e a devoção a Nossa Senhora, se tem crescido constantemente, desenvolvendo-se, porém, não à moda de hipérboles afetivas e meramente literárias que se vão ultrapassando umas às outras, mas como uma torre de raciocínios, firme como o granito, à qual cada geração de teólogos acrescenta mais alguns andares solidamente esteados no esforço diligente desenvolvido pela razão a fim de descobrir todo o alcance e extensão das verdades reveladas. Entretanto, é tocante observar como a piedade popular, ignorando muitas vezes os argumentos da Teologia sagrada, e deixando-se guiar em grande parte pela finura de sua sensibilidade, desce até o âmago profundo das verdades teológicas ensinadas pela Igreja e sabe viver tais verdades com uma autenticidade de convicções e de sentimentos que se não poderia explicar sem a ação do Espírito Santo.

“Grignion de Montfort mostra que as grandes verdades da maternidade sobrenatural de Nossa Senhora em relação aos homens e de sua mediação universal são corroboradas pela extensão do culto a Nossa Senhora em todas as regiões do globo. Realmente, não há um único povo que não se afirme particularmente amado por Nossa Senhora, e isto com plena razão, porque é próprio do coração materno, por mais numerosos que sejam os filhos, dedicar a cada qual um amor especial, baseado em títulos particulares. Não há um povo que não tenha ao menos um grande Santuário nacional erigido em honra de Maria Santíssima, no qual a Rainha do Céu faça chover sobre os homens, com abundância, as graças espirituais e temporais. Mais ainda, em cada região há uma Igreja ou Capela particularmente venerada pelos fiéis, e em cada Igreja ou Capela há ao menos uma imagem de Nossa Senhora. E esta regra se aplica sem exceção às mais variadas nações do globo, desde a Polônia até a jungle africana, e desde o Brasil até a China.

Universalidade e espontaneidade da devoção marial

“Qual a razão da universalidade absoluta deste culto, universalidade esta que, se bem que rigorosamente conforme ao ensinamento da Igreja, se distingue pela singular espontaneidade das manifestações através das quais se exprime? A Igreja nunca mandou que cada povo erigisse um Santuário particularmente dedicado a Nossa Senhora, com foros de Santuário nacional, nem que em cada Igreja Nossa Senhora tivesse um altar próprio. Jamais uma autoridade eclesiástica se lembrou de obrigar os fiéis a prestar a Nossa Senhora todos e cada um dos atos de piedade com que Ela é venerada. A Igreja se limitou a definir as verdades mariais e, na maioria dos casos, a piedade espontaneamente entusiástica da massa dos fiéis tem seguido seu curso, de tal forma que se pode sustentar que quase todas as festas de Nossa Senhora e quase todas as formas de piedade com que Ela é honrada nasceram na massa dos fiéis espontaneamente ou por meio de revelações particulares, sendo posteriormente sancionadas pela Igreja.

“Por que tudo isto? Porque a piedade popular sente viva e profundamente que Nossa Senhora é, na realidade, a Mãe de todos os homens, e especialmente aos que vivem no aprisco da Igreja de Deus. E sente, ainda, que a mediação de Nossa Senhora é a porta segura, direta, certa, para se ter acesso junto ao Trono do Criador. 

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“Fazendo estas reflexões, lembro-me invencivelmente de Aparecida do Norte, e das impressões profundas que tenho colhido sempre que ali vou rezar aos pés de Nossa Senhora.

Em Aparecida Nossa Senhora fala às almas

“Onde, no Brasil inteiro, um lugar para o qual, com tanta e tão invencível constância, se voltam os olhos de todos os brasileiros? Qual a palavra que tem entre nós o dom de abrir mais facilmente os corações? Qual a evocação que mais ardentemente do que a Aparecida nos fala de toda a sensibilidade brasileira retificada em seu curso e nobilitada em seus fins sobrenaturais? Quem, ao ouvir falar em Nossa Senhora Aparecida, pode não se lembrar das súplicas abrasadoras de mães que rezam por seus filhos, doentes, de famílias que choram no desamparo e na miséria o bem-estar perdido e se voltam para o Trono da Rainha da clemência, de lares trincados pela infidelidade, de corações ulcerados pelo abandono e pela incompreensão de almas que vagueiam pelo reino do erro à procura do esplendor meridiano da Verdade, de espíritos transviados pelas veredas do vício, que procuram entre prantos o Caminho, de almas mortas para a vida da graça, e que querem encontrar nas trevas de seu desamparo as fontes de uma nova Vida?

“Onde se pode sentir de modo mais vivo o calor ardente das súplicas lancinantes, e a alegria magnífica das ações de graças triunfais? Onde, com mais precisão, se pode auscultar o coração brasileiro que chora, que sofre, que implora, que vence pela prece, que se rejubila e que agradece, do que na Aparecida? E sobretudo, onde é mais visível a ação de Deus na constante distribuição das graças, do que na vila feliz, que a Providência constituiu feudo da Rainha do Céu?

“Nada, no ambiente de Aparecida, impressiona a imaginação pela grandeza das linhas arquitetônicas ou pela riqueza do acabamento. Mas o ar está tão saturado de eflúvios de prece e de orvalhos de graça, que qualquer pessoa sente perfeitamente que Aparecida foi designada, pela Providência, para ser a capital espiritual do país. 

* * *

A construção da nova basílica

“A esta capital, entretanto, muita coisa falta. E quem vai a Aparecida sente perfeitamente que paira sobre o lugar um grande anelo coletivo, uma grande aspiração anônima, por uma obra de construção e de Fé que exprima e traduza na ordem das realidades naturais e sensíveis todas as realidades sobrenaturais e insensíveis de que o ambiente está saturado.

“A maternidade de Maria e a onipotência de Sua mediação universal precisam ser promulgadas em mármore e bronze, depois de terem sido proclamadas com lágrimas, com preces e com sorrisos de gratidão, pelo Brasil inteiro.

“A futura Basílica deve ser como aqueles documentos de bronze dos tempos antigos, em que se gravavam para a posteridade fatos, leis ou nomes já imortalizados na memória dos povos. A consagração afetiva não basta: ela tem no interior de sua essência uma força que o leva a se exteriorizar em monumentos de arte e de Fé.

(…)

* * *

“Este monumento se fará, volente Deo, tendo como condição de sucesso a persuasão firme e tranquila de que não se trata de uma grande obra a se realizar de modo amesquinhado graças à exiguidade dos recursos e do tempo. Os anos poderão correr, assistindo ao desenvolvimento lento e prudente da obra. Nem por isso, entretanto, ela se fará menor, ou deixará de se fazer.

“E se ela exceder os limites da existência desta geração, uma coisa ao menos se poderá dizer: que o Brasil teve a glória de, exceção honrosa em um século frívolo e imediatista, argamassar com o fator tempo um monumento que por isto mesmo o tempo não destruirá.”

***

Nada mais oportuno do que essas palavras do Prof. Plinio aplicadas a 2021: as dilacerações familiares aumentaram; a crise de Fé, os problemas morais, o aborto e a agenda lgbt, a ideologia de gênero. E, sobretudo, a crise na Santa Igreja.

Nossa Senhora Aparecida rogue por todos nós.

Fonte: 1939-12-17 – Pro Maria fiant maxima / 1° anúncio da construção da nova Basílica em Aparecida (pliniocorreadeoliveira.info)

(*) Nessa época ainda não elevado à honra dos altares.

O Prof. Plinio foi um ardoroso devoto de São Luiz Maria Grignion de Montfort. Conheceu o Tratado da Verdadeira Devoção por volta de seus vinte anos.

Transcrevemos, do Legionário, seu primeiro artigo em louvor do grande santo marial, em novembro de 1939, quando a Santa Igreja ainda não o tinha elevado à honra dos altares:

        

“Das mãos de uma editora católica, recebeu o “Legionário”, ultimamente, a obra traduzida do Bem-aventurado Luiz Maria Grignion de Montfort, sobre a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Entre estas edições, chama atenção por suas qualidades a da Vozes, de Petrópolis, que teve a feliz ideia de traduzir, também, em apêndice, as orações que o Autor recomenda no seu livro.

As obras do Beato Grignion de Montfort já se impuseram, no seio da Santa Igreja, por seu excepcional valor e hoje em dia o Tratado da Verdadeira Devoção é geralmente reconhecido como um dos mais importantes trabalhos que jamais se tenha escrito sobre Nossa Senhora. Dados os extremos de respeito e de amor para com a Santíssima Virgem a que a obra do Beato Grignion de Montfort conduz seus leitores, alarmou ele, aliás sem o menor fundamento, alguns pensadores católicos receosos de que o autor tivesse chegado a exagerar o culto da hiperdulia que a Nossa Senhora se deve. A Santa Sé, a fim de acalmar os espíritos timoratos, e permitir às almas piedosas que singrassem sem receio os oceanos de piedade contidos no Tratado da Verdadeira Devoção, declarou, entretanto, de forma expressa, explícita e oficial, nada ter aquele livro que colida com o pensamento da Igreja. É, pois, com apoio nessa garantia de supremo valor que se deve considerar e examinar a grande obra daquele grande Santo.

       * * *

Ler, meditar e viver a devoção marial

       Não tenho, evidentemente, o propósito que, partido de mim, seria descabido e temerário, de produzir um comentário que apresente algo de novo ou original a respeito de obra de tão grande importância teológica. O meu intuito, neste artigo, é apenas de apontar ao público algumas das qualidades daquela obra que mais facilmente lhe possam levar a obter leitores capazes de a ler, meditar e viver.

* * *

       Muito se tem escrito, em nossa época, por pena de leigo, sobre piedade. Entretanto, cumpre observar que raramente os livros dessa natureza, ao menos no Brasil, apresentam aquela solidez de pensamento sem a qual a piedade corre grave risco de se extraviar.

       No fundo, essa deficiência decorre de uma concepção incompleta do que seja a piedade. Raciocinando de um modo simplista, pensa muita gente que como o anelo supremo de toda a vida espiritual deve ser a intensificação do amor de Deus, e como o amor que os Santos tiveram a Deus na vida terrena se manifestou por extraordinárias provas de sensibilidade afetiva, em última análise o amor será tanto maior quanto mais aguçada e mais viva for a sensibilidade. De sorte que a obra de um livro de piedade deve consistir em despertar a maior sensibilidade afetiva possível. Quanto mais terna a linguagem, quanto mais imaginosa, quanto mais rica de adjetivos, tanto mais eficaz.

       Com isto, evidentemente, toda a estruturação doutrinária da obra sofre um sério prejuízo. A preocupação literária predomina sobre a clareza e a ortodoxia do pensamento, e o trabalho inteiro, se consegue uma vez ou outra tocar o leitor por um artifício feliz de linguagem, não deixa no fim uma única convicção sólida e profunda, uma única daquelas idéias claras e substanciosas, capazes de guiar uma vida e determinar uma reforma espiritual.

       Nisto, como em tudo, a Santa Igreja deve ser nossa Mestra. Ninguém mais do que Ela se esforça por estimular e formar a sensibilidade humana, nutrindo-a com todas as impressões capazes de lhe dar uma verdadeira elevação. Pelas imagens, pelos cânticos, pela música, pelos esplendores da Sagrada Liturgia, a Igreja fala incessantemente à sensibilidade dos fiéis, e, auxiliada pela graça de Deus que nunca lhe falta, bem como pelos recursos de grandes talentos humanos, tem Ela conseguido tais resultados neste terreno, que bem se pode dizer que ninguém, em toda a história, tem conseguido propor à sensibilidade humana temas tão altos e tão nobres, ao mesmo tempo tão fortes e tão suaves, quanto Ela. Ao par disto, ninguém tem conseguido, ao mesmo tempo, comunicar a essas manifestações sensíveis um cunho tão apuradamente artístico quanto os grandes talentos inspirados pela Igreja.

       Longe, e muito longe de nós, portanto, está a preocupação de ignorar o papel da sensibilidade na vida da piedade. Deixemos esta triste tarefa aos protestantes, e continuemos dóceis aos maravilhosos ensinamentos que, a este respeito, nos dá a Santa Igreja.

       Entretanto, se não queremos reduzir em nada o papel da sensibilidade, também estamos muito longe de lhe atribuir na vida de piedade uma importância que ela não tem.

       Como a vida de piedade se destina a santificar o homem, a importância que têm respectivamente a inteligência, a vontade e a sensibilidade é proporcionada à magnitude das funções de cada uma no homem.

       Ora, se o papel da sensibilidade é grande, ninguém poderá, por pouco que reflita, deixar de reconhecer que a ação da inteligência e da vontade ainda é muito maior.

       Assim, pois, a verdadeira formação de piedade não se deve contentar com ministrar à sensibilidade estímulos sobre estímulos. Ela só será sólida se se alicerçar sobre verdades claras, substanciosas e fundamentais, ministradas e assimiladas a fundo pela inteligência. E só será real se se servir destas verdades como meio para disciplinar vigorosamente a vontade, em um combate árduo e duro que, se bem que a alma seja espiritual, com toda a propriedade de expressões se pode chamar de sangrento.

       De nada vale a vida espiritual se ela prescindir de uma instrução religiosa sólida, e de uma luta efetiva, disciplinada, constante e intransigente conosco. Um exemplo que não me farto de repetir, e que aliás é corriqueiro, explicará tudo. Conheci uma pessoa que vivia em estado de pecado mortal habitual, e que, entretanto, cada vez que fazia uma Via Sacra, chorava copiosamente pelas dores de Nosso Senhor. Tentei mostrar a esta pessoa como deveria aproveitar esta compunção sensível para se afastar do pecado. Foi tudo inútil. A sensibilidade era viva, mas a vontade não era reta. O epílogo desta situação foi uma decadência moral que chegou até às últimas raias do que pode um homem fazer. Sensibilidade, não faltava. Mas, e o resto?

* * *

       É raro encontrar um livro que, de modo mais patente, tenha os dois predicados, o de esclarecer a inteligência, e o de estimular a sensibilidade, do que o do Beato Grignion de Montfort. Seu Tratado é uma verdadeira tese, com lampejo de polêmica. A argumentação é sólida, substancial, profunda. Jamais se nota nele que um arroubo de amor venha perturbar a indefectível serenidade e justeza do pensamento. Sua profundidade chega a ser tal que frequentemente os leitores não iniciados na Teologia – e é este meu caso – têm de fazer um sério esforço de inteligência, para o compreender. Mas em compensação não há uma só frase inútil ou sem sentido em seu livro. Todas as palavras têm seu valor exato e calculado. E todos os conceitos geram convicções claras e profundas, que não despertam apenas sobressaltos de sensibilidade em momentos em que nosso temperamento se mostra propício a isto, mas idéias luminosas e substanciosas, que geram aquele amor sério e sólido, capaz de sobreviver heroicamente às mais implacáveis aridezes da vida espiritual.

       Entretanto, não se julgue que o Tratado da Verdadeira Devoção é uma fria exposição de princípios. Em cada ponta de frase, o Beato Grignion de Montfort deixou gotejantes o suor de sua inteligência e o sangue de seu coração. Sua argumentação, se é lúcida, está longe de ser fleumática. Pelo contrário, é apaixonada, ardente, comunicativa. A cada demonstração vitoriosa, seu escrito toma acentos de gritos de triunfo e de júbilo. Sua linguagem lembra a de São Paulo. E por isto o grande Faber disse da obra de Grignion de Montfort que depois das Escrituras Sagradas, nada se escreveu de mais candente do que sua famosa oração pedindo missionários de Maria (a “Oração Abrasada”, n.d.c.).

       Se há um trabalho em que se compreende aquela luz intelectual cheia de amor, de que fala Dante, esse é o de Grignion de Montfort.

       Lê-lo é facilitar poderosamente o progresso na vida espiritual. Difundi-lo é acumular coroas de méritos no Reino dos Céus.”

Fonte: https://www.pliniocorreadeoliveira.info/LEG%20391126_DEGRIGNIONDEMONTFORT.htm#.YIiy9bVKiMo

Nada mais adequado do que transcrevermos, nesse mês de maio, comentários do Prof. Plinio sobre o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora de São Luís Grignion de Montfort.

Estamos numa hora de orfandade espiritual e uma pressão preternatural que envolve a histeria midiática sobre o coronavírus. Saibamos recorrer a Maria, terrível como um exército em ordem de batalha.

***

“No “Tratado da Verdadeira Devoção” interessam-nos alguns aspectos principais, que convém destacar no início de nossos comentários.

Em primeiro lugar, podemos notar o aspecto estritamente teológico da obra, na qual São Luís Maria Grignion de Montfort analisa a devoção a Nossa Senhora, os meios de A honrarmos, de Lhe darmos graças pelos benefícios recebidos, etc.

Em segundo lugar, podemos destacar o papel de Nossa Senhora na luta contra o demônio e os inimigos da Igreja. São Luís Grignion adota e enriquece a idéia, já exposta por Santo Agostinho e desenvolvida posteriormente por Mons. Henri Delassus, sobre a existência de uma luta entre duas cidades – a Cidade de Deus e a cidade do demônio – como sendo o âmago de toda a História. Em seguida apresenta o papel de Nossa Senhora na Cidade de Deus.

No que se refere ao papel da Virgem Santíssima na luta contra os agentes da Revolução, ele não fala explicitamente nem uma só vez. No entanto, toda a teologia dessa luta encontra suas raízes no livro de São Luís Grignion. Ora, é muito importante acentuar tudo isto, por ser este livro uma confirmação da mentalidade da família de almas de “Catolicismo”, e portanto uma garantia de que seguindo estas idéias permanecemos unidos ao espírito e à doutrina da Igreja.

Em terceiro lugar, interessa-nos a obra a título histórico. Como sabemos, São Luís Grignion viveu no tempo de Luís XIV, que, sob certos aspectos, representa um ápice da História, a partir do qual a Humanidade não fez outra coisa senão descer. Ele faz uma descrição da sociedade do seu tempo, na qual se vêem já ferver os germens da Revolução Francesa.

Vemos então um grande santo, que foi ao mesmo tempo um grande contra-revolucionário, apontando, já naquela época, a existência da mesma Revolução que então se formava nas entranhas da sociedade francesa.

Nexo entre São Luís Grignion e a Revolução (*)

nexo entre São Luís Grignion e a Revolução é, aliás, muito interessante. Ele foi vítima de uma oposição irredutível dos bispos jansenistas franceses. De excomunhão em excomunhão, de suspensão de ordens em suspensão de ordens, acabou reduzido a pregar apenas em duas dioceses da França. Essas dioceses foram justamente aquelas em que mais tarde não penetraria a Revolução Francesa; em que o povo lutaria ao lado do clero contra os insurretos; em que os católicos marchariam de encontro às hostes revolucionárias ao cântico de hinos religiosos, que seus antepassados tinham ouvido de São Luís Grignion.

Pode-se assim delinear no mapa da França: a parte vacinada contra a Revolução foi a região por ele evangelizada; na zona dominada pelos jansenistas, que resistira à sua evangelização, a Revolução teve livre curso.

O aspecto profético do Tratado

Por último, interessa-nos o “Tratado da Verdadeira Devoção” pelo aspecto profético que o santo lhe imprimiu. São Luís Grignion é profeta no sentido restrito que esta palavra tem depois de encerrada a Revelação oficial, isto é, as suas profecias não são oficiais e obrigatórias como as da Escritura. Mas sem dúvida ele é dotado por Deus do carisma da profecia, e isto se percebe pela leitura de seu livro. Ele profetiza acontecimentos que fazem antever a Revolução Francesa e a crise de nossos dias, e afirma também com antecipação a imensa vitória da Igreja Católica através de uma nova era do mundo, que será uma era marial. São Luís Maria Grignion de Montfort previu um reino de Maria que virá, e este reino será a plenitude do reino de Cristo.

Entretanto, São Luís Grignion não escreveu quatro tratados sobre estas quatro matérias, mas um só. E os tópicos referentes a estes quatro aspectos não aparecem na ordem em que os mencionamos, mas estão dispersos pela obra. Na medida das possibilidades, explicaremos segundo estes quatro critérios cada capítulo que formos comentando”.  https://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_1951_comentariosaotratado01.htm

 

(*) O conceito de Revolução está exposto na obra https://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR01.pdf

Chegamos à festa de São Luiz Grignion de Montfort, nestes 300 anos de sua ordenação sacerdotal.

“Entre seus escritos, assinala-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma das mais altas obras da mariologia em todos os tempos, e talvez a mais alta delas. Este livro admirável foi deixado por ele em manuscrito, e desapareceu misteriosamente depois de sua morte, reaparecendo de maneira providencial em nossos tempos”, escrevia o Prof. Plinio em 1955.

Doutor, Profeta e Apóstolo da Crise Contemporânea: o vírus do igualitarismo

Um recuo histórico se faz necessário para compreendermos a obra profética de São Luiz Grignion e sua aplicação a nossos dias:

Mostra o “Santo Padre Leão XIII na Encíclica “Parvenu à la 25ème Année”, que a Revolução Francesa foi uma conseqüência do protestantismo. E por sua vez produziu o comunismo. Ao igualitarismo e liberalismo religioso do frade apóstata de Witemberg, sucedeu o igualitarismo e liberalismo político-social dos sonhadores, dos conspiradores e dos facínoras de 1789. E a este segue-se o igualitarismo totalitário, social e econômico, de Marx.”

“A revolução protestante foi uma forma ancestral da Revolução Francesa, como esta o foi do comunismo hodierno. E cada uma destas formas ancestrais já tinha em si todas as toxinas da que se lhe seguiu. São três moléstias, sucessivamente mais graves, provocadas pelo mesmo vírus. Ou são três fases sucessivamente mais graves da mesma moléstia. Ou três etapas de uma omnímoda e universal Revolução.

Um profeta aparece no curso da Revolução

“Ora, S. Luiz Grignion de Montfort foi, neste processus histórico, um verdadeiro profeta. No momento em que tantos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranqüilos quanto à situação da Igreja, embalados num otimismo displicente, tíbio, sistemático, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente, e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução, isto é, a implantação do laicismo de Estado, o estabelecimento da “Igreja Constitucional”, a proscrição do culto católico, a adoração da deusa razão, o cativeiro e morte do Papa Pio VI, os massacres ou deportações de Sacerdotes e Religiosas, a introdução do divórcio, o confisco dos bens eclesiásticos, etc..

“Mais ainda. Para alento e alegria nossa, o Santo profetizou uma grande e universal vitória da Religião Católica em dias vindouros.”

Martelo da Revolução, inspirador da Chouannerie

“Mas além de profeta, S. Luiz Grignion de Montfort foi missionário e guerreiro. Missionário, causticou ele implacavelmente o espírito neo-pagão, fazendo quanto podia para afastar o povo fiel do mundanismo e de tudo quanto constituía o mau espírito nascido da Renascença. A região evangelizada por ele foi tão profundamente imunizada contra o vírus da Revolução, que se levantou de armas na mão contra o governo republicano e anti-católico de Paris. Foi a Chouannerie. Se S. Luiz Grignion tivesse estendido sua ação missionária a toda a França, provavelmente teria sido outra a sua História, e a História do mundo”. Leia a íntegra em  https://www.pliniocorreadeoliveira.info/1955_053_CAT_Doutor_Profeta.htm

É patente a deformação que uma iconografia mal direcionada fez da fisionomia dos santos. E, também, deformou o conceito de santidade.

O Prof. Plinio mostra como o Tratado de São Luiz Grignion de Montfort esclarece a inteligência, fortalece a vontade  e estimula a sensibilidade.

“A formação da piedade só será sólida se se alicerçar sobre verdades claras, substanciosas e fundamentais, ministradas e assimiladas a fundo pela inteligência. E só será real se se servir destas verdades como meio para disciplinar vigorosamente a vontade, em um combate árduo e duro.

De nada vale a vida espiritual se ela prescindir de uma instrução religiosa sólida, e de uma luta efetiva, disciplinada, constante e intransigente conosco. – É raro encontrar um livro que de modo mais patente tenha o predicado de esclarecer a inteligência e de estimular a sensibilidade do que o seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”.

Nele não há uma só frase inútil ou sem sentido. Entretanto, não se julgue que sua obra seja uma fria exposição de princípios. Em cada ponta de frase, o autor deixou gotejantes o suor de sua inteligência e o sangue de seu coração.

Sua argumentação, se é lúcida, está longe de ser fleumática. Pelo contrário, é apaixonada, ardente, comunicativa. Lê-lo é facilitar poderosamente o progresso na vida espiritual. Difundi-lo é acumular coroas de méritos no Reino dos Céus”.

Acesse o comentário em https://www.pliniocorreadeoliveira.info/LEG_391126_Grignion_de_Montfort.htm#.XcIkJuhKguU

“Catolicismo” Nº 55 – Julho de 1955

Papa Pio XII

O XXVI Congresso Eucarístico Internacional que se realizará neste mês no Rio de Janeiro constituirá uma admirável expressão de pujança religiosa. É o que desde já se pode prever com fundamento no êxito invulgar dos Congressos locais que, por iniciativa dos respectivos Antístites, têm tido lugar nas várias Dioceses de nosso imenso território.

Têm sido de proporções idênticas às que se prevêem para o próximo Congresso os que o antecederam em outros países. O XXXV Congresso Eucarístico Internacional de Barcelona, por exemplo, foi uma apoteose que empolgou todo o orbe católico.

Isto prova que nas profundezas das massas humanas do Brasil e do mundo todo, sopra em nossos dias um poderoso anseio por uma existência mais espiritual, mais digna, mais ordenada. Os católicos sabem que tal anseio não se pode realizar senão pelo Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo. E assim voltam-se eles para o Santíssimo Sacramento, com todo o ímpeto de seus anelos, de sua esperança, de sua adoração.

Mas a devoção ao Santíssimo Sacramento não pode ser dissociada de dois outros elementos essenciais da piedade cristã, isto é, a devoção a Nossa Senhora e à Sagrada Hierarquia.

A Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida será muito visitada nessa ocasião, e é natural. Pois a Eucaristia acende em todos os corações a chama da devoção mariana. E a Sagrada Hierarquia será objeto das mais vivas manifestações de respeito e amor. Pois, se Jesus está realmente presente, no Sacramento do Altar, Ele está representado na terra pela Sagrada Hierarquia. Assim, as vistas dos fiéis se voltam nestes dias com um amor todo particular, para os seus Pastores, para todo o venerando Episcopado nacional, para os três eminentes Purpurados que nas fileiras deste refulgem, os Emmos. Revmos. Srs. D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, Arcebispo de São Paulo, D. Jaime de Barros Câmara, Arcebispo do Rio de Janeiro sob cuja égide e mediante cujo impulso eficiente e fecundo se realizará o Congresso, e D. Augusto Álvaro da Silva, Arcebispo de S. Salvador da Bahia e Primaz do Brasil.

Mas a Sagrada Hierarquia terá entre nós uma representação ainda mais ampla, pela presença de tantos Cardeais, Arcebispos e Bispos. Para todos eles se voltará o ardor de nosso entusiasmo e a homenagem de nossa veneração.

Cardeal Legado, Dom Bento Aloisi Masella

Entretanto, é numa pessoa que estes sentimentos culminarão, isto é, no Emmo. Revmo. Sr. Cardeal Legado, Dom Bento Aloisi Masella, augusto e generoso amigo do Brasil, que representará entre nós a Pessoa sagrada, a autoridade suprema, o ascendente moral incomparável do Vigário de Jesus Cristo, o Santo Padre Pio XII, gloriosamente reinante.

O Sumo Pontífice auscultou a fundo os anelos das multidões, sentiu bem quanto elas aspiram a uma nova ordem, e as conclamou para a realização desta nova ordem, o Mundo Melhor.

Ora, a essência da idéia do Mundo Melhor é a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. E a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é a Realeza de Maria.

Queremos pois neste número continuar [1] a estudar a figura de um Santo que Pio XII elevou à honra dos altares, o qual foi a um tempo profeta do Reino de Maria e em certo sentido mártir em prol deste Reino. É S. Luiz Maria Grignion de Montfort.

 * * *

São Luís Grignion de Montfort depõe o “Tratado” aos pés de Nossa Senhora (Igreja dos Montfortanos em Roma)

S. Luiz Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Durante os 43 anos de sua existência, a Europa viveu a última fase de uma de suas épocas mais brilhantes. O Ancien Régime atravessava um período de grande estabilidade, que não se rompeu senão em 1789 com a Revolução “bruscamente” deflagrada na França. A não considerar as coisas senão em sua superfície, duas forças pareciam principalmente asseguradas de um tranqüilo e glorioso porvir, a Religião e a Monarquia, garantidas uma e outra pelo pulso firme dos Bourbons e dos Habsburg que governavam então quase todo o orbe católico. Desta sensação de esplêndida segurança, participavam não só Reis, príncipes e fidalgos, como muitos Bispos, teólogos e superiores religiosos. Uma atmosfera de distensão triunfante ganhara sobretudo a França, provada é certo pelos revezes militares do ocaso de Luiz XIV, mas largamente compensada pela estabilidade das instituições, pela riqueza natural do país, pelo brilho de sua atmosfera cultural e social, e pela “douceur de vivre” em que estava como que imersa a existência quotidiana.

É de se imaginar, pois, que surpresa, que estranheza, que desprezo certas altas personalidades experimentaram ao saber que nas profundezas da Bretanha, do Poitou e do Aunis, um Sacerdote obscuro, chamado Luiz Grignion de Montfort de eloqüência arrebatadora mas popular, agitava as cidades e os campos predizendo para a França um terrível e estranho porvir. Eco expressivo destas predições, encontramo-lo nestas palavras de fogo de sua oração pedindo a Deus missionários para sua Companhia:

“Vossa divina Fé é transgredida; vosso Evangelho desprezado; abandonada vossa Religião; torrentes de iniqüidade inundam toda a terra, e arrastam até os vossos servos; a terra toda está desolada: Desolatione desolata est omnis terra; a impiedade está sobre um trono; vosso santuário é profanado, e a abominação entrou até no lugar santo. E assim deixareis tudo ao abandono, justo Senhor, Deus das vinganças? Tornar-se-á tudo afinal como Sodoma e Gomorra? Calar-Vos-eis sempre?”

“Vede, Senhor Deus dos exércitos, os capitães que formam companhias completas, os potentados que ajuntam numerosos exércitos, os navegadores que reúnem frotas inteiras, os mercadores que se congregam em grande número nos mercados e nas feiras! Quantos bandidos, ímpios, ébrios e libertinos se unem em massa contra Vós todos os dias, e isto com tanta facilidade e prontidão! Basta soltar um assobio, rufar um tambor, mostrar a ponta embotada de uma espada, prometer um ramo seco de louros, oferecer um pedaço de terra amarela ou branca; basta, em poucas palavras, uma fumaça de honra, um interesse de nada, um mesquinho prazer animal que se tem em vista, para num instante reunir os bandidos, ajuntar os soldados, congregar os batalhões, convocar os mercadores, encher as casas e os mercados, e cobrir a terra e o mar de uma multidão inumerável de réprobos, que, embora divididos todos entre si, ou pelo afastamento dos lugares, ou pela diversidade dos gênios, ou por seus próprios interesses, se unem entretanto, e se ligam até à morte, para fazer-Vos guerra sob o estandarte e sob o comando do demônio”.

“Ah! permiti que brade por toda a parte: Fogo! fogo! fogo! Socorro! socorro! socorro! Fogo na casa de Deus! fogo nas almas! fogo até no santuário! Socorro, que assassinam nosso irmão! socorro, que degolam nossos filhos! socorro, que apunhalam nosso bom Pai”.

* * *

Ora, entre tantos estadistas triunfantes, entre tantos Prelados otimistas, ninguém teve a clara e profunda visão de S. Luiz Maria. Por detrás das aparências de esplêndida tranqüilidade do mundo de então, uma sede de prazer devoradora, um naturalismo crescente, uma tendência cada vez mais acentuada de domínio do Estado sobre a Igreja, do profano sobre o religioso, a efervescência do galicanismo, do jansenismo, a ação corrosiva do cartesianismo, preparavam os espíritos para imensas transformações. Ainda em vida de S. Luiz Maria, Voltaire e Rousseau nasceram. Antes de terminar o século, as Ordens religiosas estavam fechadas na França, os Bispos fiéis a Roma expulsos, uma atriz era adorada como deusa Razão em Notre Dame. Na guilhotina, corria abundante o sangue dos mártires. E se a História não pode deixar de ser severa com os que não previram a tormenta, não pode recusar sua homenagem ao homem de Deus que tão clarividente se mostrou.

Quais as virtudes que estão na base de uma tão excepcional clarividência?

* * *

Antes de tudo, um grande zelo, um implacável amor à verdade.

Quando se ama a Fé, quando se deseja ter os dois pés bem cravados na realidade objetiva, quando se odeiam as ilusões e as quimeras, a inteligência não se sacia em ver as coisas por alto, ou fragmentariamente, e a vontade não se contenta com esforços esporádicos em momentos de fervor. Um católico que ama verdadeiramente a Igreja quer saber quais são os grandes interesses essenciais desta, e os distingue dos interesses secundários. O nível da moralidade pública e privada, a conformidade das leis, instituições e costumes com a doutrina católica, as tendências implícitas ou explícitas do pensamento nas várias camadas sociais e especialmente na classe culta, a intensidade da vida religiosa, a devoção dos fiéis à Sagrada Eucaristia, a Nossa Senhora e ao Papa, o seu amor à doutrina ortodoxa, seu ódio às heresias, às seitas, a tudo quanto de longe possa macular a pureza da Fé e dos costumes, eis algumas das coisas mais essenciais para a vida religiosa de um povo. Para a sua vida religiosa e pois para a sua vida moral. Para a sua vida moral e em conseqüência para toda a sua vida temporal. Ora, o progresso ou declínio nestes assuntos raras vezes se manifesta por fatos muito perceptíveis. Em geral, ele se traduz em sintomas discretos mas típicos, que é preciso muita atenção para perceber, muito discernimento para interpretar, muito tacto para incentivar ou reprimir.

O QUE OS ESPÍRITOS SEM ZELO NÃO VIAM

No tempo de S. Luiz Maria, os espíritos superficiais viam em toda a Europa as coisas de outro modo. As vocações sacerdotais e religiosas eram numerosas: isto lhes bastava, e pouco se lhes dava de formação e seleção. As igrejas eram muitas e ricas, as festas eclesiásticas brilhantes: pouco se lhes dava de saber se a arte religiosa nessas igrejas estava infectada por inspirações profanas, tão próprias do século, se essas festas eram apenas exterioridade ou se de fato elevavam as almas a Deus. Os detentores do poder davam mostras de fé: pouco se lhes dava de saber se esta fé era ativa, e informava o modo por que conduziam as rédeas do Estado e da sociedade. Havia uma censura contra os livros imorais ou heréticos, e em princípio todo o ensino era estritamente católico: pouco se lhes dava de saber se a censura realmente filtrava a heresia, ou se nos refolhos do que se imprimia ou nas universidades se ensinava, havia implícito algum germe de erro.

COMODISMO, FONTE DE CEGUEIRA

Ver tudo isto dá muito trabalho supõe muita seriedade de espírito, exige dedicação, expõe a lutas, cria o risco de sacrificar amizades.

Quão mais alegre é a postura dos espíritos superficiais. Tem-se o “direito” de dormir bem, viver alegremente, em harmonia com todos. Os católicos nos aplaudem porque somos dos deles. Os não católicos nos aplaudem porque não criamos qualquer obstáculo a suas tramas e progressos. E assim vão transcorrendo as gerações dos despreocupados, enquanto os problemas se agravam, as crises se avolumam e as catástrofes se aproximam. Uns morrem em suas camas, e têm um susto terrível quando vêem que o Céu não é dos de sua congérie. Outros são surpreendidos por uma Revolução como a de 1789.

FEROZ INTRANSIGÊNCIA DOS DESPREOCUPADOS

Se há um homem que não cometeu o pecado da despreocupação, este foi São Luiz Maria. Ele viu tudo. Suas palavras, que transcrevemos, são um quadro completo das realidades religioso-morais da França e de Europa de seu tempo. Claro está que ele não foi o único a ver esses problemas. Não sabemos de quem, em seu país, os tenha visto tão completamente. Menos raros foram os que os viram apenas fragmentariamente. Mas o grande número – e entre estes a maioria das pessoas de responsabilidade – nada viu. Em 1789, já a crise era irremediável. São estes os frutos da imprevidência…

Jacques Cathelinaux – “Saint de l’Anjou” Premier Généralissime de la Grande Armée Catholique et Royale

O imprevidente tem um ponto dolorido na alma. É como o sibarita deitado sobre um leito de rosas, mas terrivelmente incomodado por uma pétala dobrada. Este ponto dolorido é a convicção que o assalta de quando em vez, mas profundamente, de que na vida ele representa um papel, mas não cumpre uma missão.

Quem esbarra neste ponto dolorido é o homem previdente. Pois ele tem por dever prevenir, sacudir, despertar. Ele previne de todos os modos, por sua atitude firme, por seu raciocinar de ferro, por seu porte grave. E por isto o imprevidente o odeia. Odeia-o, e o combate. Combate-o de dois modos. Primeiro, pelo isolamento. Mas os homens previdentes têm imã, e não há quem os isole. Então vem a difamação, o ostracismo, a perseguição declarada. Contra S. Luiz Maria estas armas foram empregadas todas. O terrível é que com isto ele tomou uma auréola de mártir, galgou a escada da santidade, e ficou invencível.

Quando em 1789 a enxurrada levava tudo de roldão, e os imprevidentes choravam, transigiam, fugiam ou morriam, ela só encontrou diante de si um obstáculo. Foi a Chouannerie, flor cavalheiresca e santa, que nasceu do apostolado de S. Luiz Maria. Estes são os prêmios da previdência.

PREVIDÊNCIA NÃO É PESSIMISMO

Ora, este Santo admiravelmente previdente, e que previu acontecimentos tão terríveis, estava longe de ser um pessimista, entendida esta palavra no sentida de uma obstinação doentia em só ver as coisas por seu lado mau.

Eis os dias que prevê em sua oração, para depois da grande crise que chegou hoje ao seu paroxismo:

“Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se? Non est qui se abscondat a calore ejus”.

“Accendatur: Seja ateado esse divino fogo que Jesus Cristo veio trazer à terra, antes que ateeis o fogo de vossa cólera, que há de reduzir tudo a cinzas. Emitte Spiritum tuum, et creabuntur, et renovabis faciem terrae. Enviai à terra esse Espírito todo de fogo, para nela criar Sacerdotes todos de fogo, mediante cujo ministério seja a face da terra renovada, e reformada por vossa Igreja”.

É para apressar a vinda desses dias, que no decurso deste Congresso devemos ardentemente rezar ao SSmo. Sacramento, em união com Aquela que é a onipotência suplicante, a Bem-Aventurada Virgem Maria. Veremos em outro artigo os horizontes que a oração de S. Luiz Maria abre para os que vivem no anseio do Reino de Nossa Senhora.

NOTAS

[1] O primeiro artigo desta série foi publicado em Catolicismo no nº 53, de maio de 1955, sob o titulo de “Doutor, Profeta e Apóstolo na Crise contemporânea”.

A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor.

Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto  se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto,  por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil

* Significado do nome de Nossa Senhora “Aparecida” e analogia com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, do Oratório 

 Hoje é festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira principal do Brasil.

Os senhores sabem que há, antes de tudo, uma espécie de nexo de identidade entre Nossa Senhora de Aparecida e Nossa Senhora da Conceição que se venera no Oratório (1), porque Nossa Senhora de Aparecida é Nossa Senhora da Conceição Aparecida. É uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que se chama Aparecida porque apareceu no Rio Paraíba, recolhida por pescadores em dois lances de redes diferentes: primeiro a imagem de barro e depois a cabeça, e então se chamou Aparecida, quer dizer, a imagem da Conceição Aparecida no Rio Paraíba.

A imagem que nós temos no Oratório é também da Imaculada Conceição e o Brasil é, propriamente, um feudo de Nossa Senhora, enquanto Maria concebida sem pecado, quer dizer, enquanto Imaculada Conceição, Aparecida no Rio Paraíba. O título de Nossa Senhora Aparecida é uma espécie de segunda invocação, ou de segundo título, que se insere sobre o tronco principal à maneira de um ramo no tronco principal. O tronco principal é a Imaculada Conceição. A imagem que nós temos da Imaculada no Oratório é uma imagem da Conceição.

O fato de esta imagem ter aparecido no século XVIII, quando o Brasil ainda era Colônia, tem um significado muito grande para nós: durante séculos, desde o início da Igreja até o pontificado de Pio IX, foi discutido entre os teólogos se se poderia afirmar, como dogma de fé, que Nossa Senhora fora concebida sem pecado original.

Havia muitos teólogos que achavam e sustentavam que isto se deduzia da Escritura e, sobretudo, se deduzia da Tradição da Igreja. Havia, entretanto, teólogos que achavam o contrário, que Nossa Senhora não fora isenta do pecado original, Ela tinha sido, portanto, concebida no pecado original.

Na Igreja, os espíritos mais mariais, os espíritos mais tocados pela devoção a Nossa Senhora, sempre sustentaram que Ela não tinha sido concebida no pecado original. Ao longo dos séculos foi se consolidando a corrente a favor da Imaculada Conceição — objeto de muitas disputas internas na Igreja — a tal ponto que cento e cinqüenta ou duzentos anos antes de Pio IX e da definição do dogma, já a questão estava tão clareada, que todo o mundo que era de bom espírito sustentava a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Enquanto todo o mundo que sustentava que Ela tinha sido concebida no pecado original era gente, em geral, de mau espírito e que não era santa.

Quer dizer, tinham se diferenciado completamente os dois filões dentro da Igreja, e ser a favor da Imaculada Conceição era como que ser ultramontano (2) em nossos dias.

Ser favorável à Imaculada Conceição era um sinal, um distintivo de ultramontanismo daquele tempo, e o Brasil foi colocado sob o patrocínio desta devoção, então ultramontana, exatamente a partir daquele tempo. Isto indica certa vocação ultramontana do Brasil, que nós não podemos deixar de notar, e de notar com reconhecimento a propósito desta festa.

* A devoção a Nossa Senhora como escravo de amor e sua difusão no Brasil. Vida de Frei Galvão

 Uma coisa curiosa que eu soube outro dia é que também no Brasil a devoção a Nossa Senhora a título de escravo dela, como ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, entrou aqui muito mais cedo do que supúnhamos.

Quando eu era pequeno, nunca ouvi falar da escravidão a Nossa Senhora. Só ouvi falar desta escravidão mais moço, e muito mais tarde quando comprei o Tratado da Verdadeira Devoção de São Luís, em francês, vindo da França. Depois conheci algumas pessoas que falavam da escravidão a Nossa Senhora porque tinham lido o Tratado, em francês. Eu tive, assim, uma impressão vaga, difusa, de que no Brasil nunca ninguém tinha conhecido a verdadeira devoção a Nossa Senhora e que Ela não tinha tido no Brasil escravos antes do Grupo (3), ou pelo menos, antes da penetração do livro de São Luís Grignion de Montfort no Brasil, que foi um tanto anterior ao Grupo.

Lendo outro dia a vida de Frei Galvão, franciscano morto em odor de santidade (4), — vida, aliás, muito bonita, muito cheia de pormenores interessantes, etc. — e fundador do Convento da Luz onde está sepultado, dei com a fotocópia de um ato em que ele se constituía escravo de Nossa Senhora, em que trechos inteiros desse ato eram tirados do Tratado da Verdadeira Devoção (5).

Vê-se que ele adaptou um tanto a consagração de São Luís Grignion, mas no essencial é inteiramente aquilo. E há partes enormes, há palavras tiradas de São Luís Grignion de Montfort. É uma consagração muito longa, talvez mais longa que a de São Luís Maria Grignion de Montfort, e que enche na caligrafia muito miúda dele, creio que os dois lados de uma página de papel amarelada, que está exposta, aliás, no museu de Arte Sacra, contíguo ao atual Convento da Luz.

Portanto, tive a alegria de saber que Nossa Senhora teve escravos muito anteriormente a nós e que, neste país onde a propensão sobrenatural para a devoção a Nossa Senhora é uma das bênçãos que existem, talvez tenha tido, desde o início, escravos seus vivendo aqui, e preparando o dia em que o Brasil inteiro seria uma grande nação escrava de sua Rainha, Nossa Senhora.

* Diferença entre o dogma da Imaculada Conceição e a virgindade de Nossa Senhora antes, durante e depois do parto

 Estas considerações feitas de passagem a respeito da festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nos levam entretanto a aprofundar um pouco mais o dogma da Imaculada Conceição, uma vez que amanhã se comemora uma das festas da Imaculada Conceição.

Não sei se todos os senhores têm bem a ideia atualmente do que é a Imaculada Conceição. O público confunde a Imaculada Conceição com outro predicado nobilíssimo de Nossa Senhora, mas que é distinto deste. O público confunde a Imaculada Conceição com a virgindade de Nossa Senhora antes, durante e depois do parto. São coisas diferentes: é dogma de Fé que Nossa Senhora foi virgem antes, durante e depois do parto. A Imaculada Conceição é uma coisa diversa, como veremos.

Tendo Adão e Eva pecado, e sendo eles, na presença de Deus, os pais do gênero humano, contendo portanto todo o gênero humano em si, como por exemplo a semente contém a árvore, aconteceu que os efeitos do pecado recaíram sobre sua descendência, e os castigos que Adão e Eva sofreram, pesaram sobre todos os descendentes que tiveram depois do pecado.

É mais ou menos como, quando o pai ou a mãe contraem uma doença muito ruim e o filho herda a doença. Ele pode não ter culpa que tenha [devido] aos pais esta doença, mas o filho acaba nascendo com esta doença. Assim, nós nascemos com os efeitos do pecado original.

Os efeitos do pecado original no homem são tremendos. Todo prosaísmo que existe na natureza humana, tudo aquilo que no homem causa repugnância, causa asco, por exemplo, é efeito do pecado original. Nós não sabemos como funcionava o organismo antes do pecado original, mas é positivo que nada do que se dava no organismo humano antes do pecado original era nojento como as coisas depois do pecado original.

Os santos acentuam muitas vezes a miséria da condição do homem depois do pecado, como sendo um corpo, ou como tendo um corpo, que de si, continuamente, produz imundícies. Isto é bem verdade, e é uma das notas mais humilhantes da condição humana. Tudo quanto sai do homem é desagradável, nós reputamos sujeira, desde o pranto até o suor, etc., porque tudo isto vem carregado do prosaísmo deste corpo que tem a nódoa do pecado original.

O homem se tornou sujeito à doença depois do pecado original; ele se tornou sujeito à morte depois do pecado original; sujeito à dor depois do pecado original; sujeito ao erro depois do pecado original. O homem não errava antes do pecado original, não havia nele, antes do pecado original, esta oposição entre a sensibilidade de um lado e a inteligência e a vontade do outro.

De maneira que tantas vezes desejamos algo que nossa inteligência mostra que é reprovável, que nossa vontade não deseja, de onde então a necessidade de um combate para recusarmos à nossa sensibilidade aquilo que a nossa inteligência mostra que é ruim e de que nossa vontade deve afastar-se.

Nada disto existia no homem, que era uma criatura absolutamente superior de cuja perfeição nós não temos a menor ideia. Se um homem concebido antes do pecado chorasse, mesmo o seu pranto seria um pranto perfumado e bonito e nunca uma das imundícies da terra. Do seu corpo nada de sujo exalaria; todas as mil misérias que nos afligem, o homem não teria antes do pecado original.

Então, por detrás do pecado original e de Nossa Senhora se punha o seguinte problema — que tem um valor não tanto teológico, quanto psicológico — Nossa Senhora, Ela, como era? Nossa Senhora, por exemplo, estava sujeita ao resfriado? Nossa Senhora assoava o nariz? O produto da secreção dEla seria repugnante como o nosso? Ela teria as mil mazelas físicas?

Podemos imaginar Nossa Senhora — não havia dentistas naquele tempo — indo a um dentista, se os houvesse? Nós podemos imaginar Nossa Senhora chegando a um médico — naquele tempo eram pouco mais do que curandeiros, mas já então, se julgavam muito seguros de sua arte — porque tinha, por exemplo, um cálculo nos rins? É inimaginável.

Se nós imaginássemos Nossa Senhora assim, ou nossa ideia de Nossa Senhora diminuía, ou a nossa rejeição em relação a estas misérias do homem diminuiria, e nós sentiríamos menos que isto é efeito do pecado original, e seríamos menos alheios a isto.

Não sei se os senhores compreendem psicologicamente o que é que vai por detrás disto. São dois feitios de espírito.

Eu não quero dizer que todo mundo que foi contra a Imaculada Conceição tinha este mau espírito, mas eu quero dizer que todo mundo que tinha este mau espírito era propenso a ser contrário à Imaculada Conceição, que é uma coisa distinta. Os senhores compreendem aí o problema psicológico que se põe.

Então os senhores compreendem que espécie de família de almas é que combateu tenazmente a Imaculada Conceição até o fim, e os senhores compreendem, então, algo do sentido revolucionário e contra-revolucionário desta luta em seus aspectos [ ininteligível ] este é o comentário vivo do que é este lado do dogma da Imaculada Conceição.

Não sei se consegui ser claro a este respeito ou não?

(Sr. …: Nossa Senhora envelhecia?)

* Nossa Senhora não envelhecia, mas ia tomando com o tempo uma maturidade cheia de esplendor. Ao chegar o momento de sua morte, esta foi apenas uma “dormição”

 Nossa Senhora era imaculada. O corpo humano tinha certo desenvolvimento, por onde ele ia tomando cada vez mais uma certa maturidade que era uma maturidade cheia de esplendor. Nossa Senhora velou externamente, aos olhos dos homens, o fato de Ela ser isenta do pecado original, de maneira que certas manifestações do pecado original, como o envelhecer, Ela teve, mas teve não por causa de sua natureza. E, assim mesmo, teve de um modo esplêndido.

Não podemos imaginar Nossa Senhora enrugada, Nossa Senhora usando óculos, — aliás, não havia óculos no tempo de Nossa Senhora —, Nossa Senhora perdendo os dentes, não podemos imaginar nada disto, é uma velhice como que aparente, e uma maturidade cheia de nobreza, uma coisa da qual nós não conseguimos ter uma ideia.

Dormição e Assunção da Virgem – Orsanmichele, Florence Detalhe do Tabernáculo – Orcagna, 1359

Quando se tratou da ocasião dEla morrer, dEla ser levada aos céus, a linguagem teológica muito sutil e delicada, não fala da morte de Nossa Senhora, mas fala da dormitio de Nossa Senhora — em português diz-se dormição, que vem da palavra dormir —, e que só se aplica para a morte de Nossa Senhora. Quer dizer, uma morte tão leve — se é que se pode dizer assim —, tão tênue — se se pudesse dizer -, uma verdadeira morte mas, se se pudesse dizer, Ela ficou tão viva na morte que se falou da dormição de Nossa Senhora.

Ela teve o que chamamos de dormição: Dormitio Beata Maria Virginis. Até havia, antigamente, um sistema muito bonito de mostrar a dormição de Nossa Senhora, — para dar a idéia do efêmero desta morte, — sempre junto à Assunção. No mesmo altar, embaixo, uma concha com cristal, representando uma imagem de Nossa Senhora toda vestida, sobre coxins etc., deitada em atitude de prece e logo em cima Ela subindo aos Céus, ou não separar a morte da idéia da Assunção.

(Sr. …: Há uma frase que diz: “Não podia uma Mãe eleita à culpa estar sujeita”, isto é se ela foi eleita não poderia estar sujeita ao pecado original.)

* “Potuit, voluit, ergo fecit”

 Foi, no fundo, o argumento do Papa Pio IX a respeito da questão. Ele diz o seguinte: que se Deus podia torná-La isenta do pecado, Ele certamente queria, logo, fez: Potuit, voluit, ergo fecit.

Perfeito! São destas coisas da Teologia… e a Teologia é uma coisa belíssima: condensar em formas cristalinas e de uma concisão que leva o pensamento à última perfeição de si mesmo, tudo isto dito só em três palavras: Potuit, voluit, ergo fecit. Pronto, não se discute mais. Nem grande oratória, nem grande poesia, nem nada. É bonito depois pôr isto em poesia, mas na hora da Teologia é assim: três palavras, três verbos.

(Sr. …: Dr. Plinio eu gostaria de perguntar se Nosso Senhor também não tinha as misérias que Nossa Senhora não tinha.)

 

Não. Ele não tinha. Isto é certíssimo porque a sua humanidade santíssima, a fortiori foi concebida sem pecado original. Ele quis sujeitar-se a algumas destas misérias, por exemplo cansaço, etc., para expiar pelo gênero humano, mas Ele não tinha. De si, Ele não tinha.


(1) Quando mãos terroristas estouraram uma bomba na sede da TFP à Rua Martim Francisco, em São Paulo, imaginavam estar vibrando contra a entidade um golpe rude e intimidador. Na realidade, a Providência se serviria do fato para constituir pouco depois – precisamente naquele local – um foco de graças.

No dia 18 de novembro de 1969, a TFP ali inaugurou o oratório de Nossa Senhora da Conceição, Vítima dos Terroristas, expondo à veneração do público a imagem da Virgem que fora  tingida pela bomba.

Restaurada a sede, e pronto o oratório, cerca de duzentos sócios e cooperadores da TFP reconduziram processionalmente a imagem para o lugar onde hoje é venerada.

A partir de 1º de maio de 1970, os sócios e os cooperadores da TFP deram início a uma vigília diante desse oratório, que se estende das 18 horas de um dia até às 8 horas da manhã seguinte. Ao longo dessa vigília, feita todos os dias do ano, eles rezam pela Igreja, pelo Brasil, por todas as pessoas visadas pela violência ou pela guerra psicológica comunista, e também pelos que pecam, sofrem ou correm algum risco material ou moral.

Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Maio-1970: dois jovens rezam por você, “Folha de S. Paulo”, 26-4-70; E Nossa Senhora sorrirá ao Brasil, “Folha de S. Paulo”, 14-6-70. Cfr. também “Catolicismo”,  235, julho de 1970 234, junho de 1970.

(2) O movimento ultramontano do séc. XIX, aqui referido pelo Autor, defendia firmemente as posições do Papado contra a corrente liberal, a qual procurava não só inovar em matéria de liberdade religiosa como também se insurgia contra as orientações tradicionais da Igreja Católica. O termo Ultramontano tem ainda um significado mais amplo. Para explicá-lo, apresentamos a seguir excertos mais importantes do verbete ultramontanismo, que figura na Enciclopedia Cattolica, Tomo XII, col.724, Cidade do Vaticano, 1954:

“Palavra de significado genérico e impreciso, criada e usada além dos Alpes (França, Alemanha, Inglaterra, Países Baixos) para designar, mais do que uma verdadeira corrente de pensamento, a adesão às orientações e à posição da Igreja Romana em suas relações teológicas e jurisdicionais, ou ainda em seus interesses políticos.

“Eram, portanto, denominados ultramontanos nos mencionados países, os escritores, homens políticos, personagens eclesiásticos católicos que seguiam tal linha de conduta e naturalmente todos os italianos fiéis aos ensinamentos da Santa Sé.

“Começou-se a chamar ultramontanos os leigos ou religiosos que sustentavam na Alemanha o partido do Papa Gregório VII durante a luta pelas investiduras [séc. XI]. No século XVIII, foram chamados com a mesma denominação, na França, pelos jansenistas e regalistas, os juristas e os teólogos que combateram suas doutrinas…. A palavra continuou a ser usada durante o século XIX por todos os liberais e acatólicos que no campo religioso seguiram teorias novas e mantiveram um relacionamento prático vexatório em seus contactos com o catolicismo”.

(3) O Prof. Plinio refere-se à “Escravidão de Amor a Nossa Senhora”, cf. doutrina e método de São Luis Maria Grignion de Montfort. Mais detalhes sobre o conceito podem ser lidos no artigo Obedecer para ser livre, publicado na “Folha de São Paulo” em 20 de setembro de 1980, ou ainda na coletânea de escritos do Prof. Plinio sobre São Luis Grignion na seção “Especial” deste site.

Sobre a questão da “escravidão”, no “Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora”, quando São Luis Maria Grignion de Montfort trata da “escravidão de amor a Nossa Senhora”, usa como analogia a situação do escravo diante de seu senhor. Uma nota de pé de página da referida obra explica a expressão, e cremos que tem todo cabimento aqui transcrevê-la, para esclarecer o sentido em que o Prof. Plinio usa o termo:

“A lei natural, a lei mosaica e as leis modernas não reconhecem tal direito, a não ser por um mandato especial do soberano Senhor da vida e da morte. O bem-aventurado se coloca aqui simplesmente do ponto de vista do fato, conforme as leis civis dos países em que vigorava a escravidão (Cf. Secret de Marie, p. 34). Abstraindo da moralidade do ato, seu fito é mostrar, por um exemplo, a total dependência de que fala” Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem por São Luis Maria Grignion de Montfort; Capítulo II; Artigo II:”Pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos”. Editora VOZES Ltda – Petrópolis – RJ; VI edição, pág. 76 ).

 (4) Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, OFM, mais conhecido como Frei Galvão (Guaratinguetá, 1739 — São Paulo, 23 de dezembro de 1822), primeiro santo nascido no Brasil. Foi canonizado pelo Papa Bento XVI durante sua visita ao Brasil (São Paulo) em 11 de maio de 2007.

 (5) Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, por São Luís Maria Grignion de Montfort; 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992.

 Esta conferência se insere em um conjunto de comentários sobre o “Tratado” e a devoção a Nossa Senhora, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, feitos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Sugerimos a nossos visitantes a leitura dos já publicados, a saber:

– São Luís Grignion de Montfort: amplitude do auxílio de Nossa Senhora aos que sabem invocá-La

– Fazer todas as ações em Maria: comentários ao tópico 261

– Viver em Maria: comentários aos tópicos 262 e 263


Catolicismo: Nº 53 – Maio de 1955

O seguinte artigo foi publicado em Catolicismo: Nº 53 – Maio de 1955

Se alguém me pedisse para indicar um apóstolo-tipo para nossos tempos, eu responderia sem vacilação, mencionando o nome de um missionário… falecido há precisamente 239 anos! [NR: 302 anos em 2018]  E, dando tão desconcertante resposta, teria a sensação de estar fazendo algo de perfeitamente natural. Pois certos homens, colocados na linha do profético, estão acima das circunstâncias temporais.

Basta exemplificar com Elias. Dentro de cem anos, os que hoje vivemos teremos sido superados pela marcha do tempo como estão hoje os homens de há cem anos atrás. Seremos atrasados, anacrônicos, mofados. Daí a duzentos, a trezentos anos, estaremos mais ou menos tão incrustados no reino da morte, das sombras e da História, quanto as múmias egípcias que aguardam nas salas do British Museum o dia do Juízo Final. E o que dizer de nossa “situação” daqui a mil anos? Pois alguém há, vivo, vivíssimo, e que será a última palavra do apóstolo moderno, não hoje, mas no fim do mundo quando nós estivermos imersos na mais total anacronicidade. Alguém que viu dias muito anteriores aos de D. Pedro II, Pio IX e Napoleão III. Anteriores até a S. Luiz, a Carlos Magno, a Átila, o que direi, a Augusto e a Jesus Cristo. É o Profeta Elias! Apóstolo moderno, sim, e moderníssimo, não porque esteja escrito dele que participará do espírito e das tendências dos homens que então viverem, mas porque será mandado por Deus como o varão idealmente adequado a combater de frente a corrupção do século em que voltará a esta terra. Elias será moderno, não por ter tomado o espírito e a forma dos derradeiros anos da História – não vos conformeis com este século, adverte S. Paulo – mas porque será adaptado e adequado ao tempo. Adaptado, no sentido de que será “apto” a fazer-lhe bem. Adequado, sim, no sentido de que disporá dos meios adequados a corrigi-lo. E por isto mesmo moderníssimo. Pois ser moderno não é necessariamente parecer-se com os tempos, e muitas vezes pode até ser o contrário. Mas, para um apóstolo, ser moderno é estar em condições de fazer o bem no século em que vive…

Sem equiparar a Elias, Profeta incumbido de uma missão oficial, S. Luiz Maria Grignion de Montfort, em cujos escritos há luzes proféticas impressionantes, mas de um valor meramente privado, certa analogia existe entre um e outro. E é nos termos desta analogia que o Santo francês é um modelo de apóstolo para nossos dias, e os séculos vindouros.

*   *   *

Estátua de São Luís Maria Grignion de Montfort, que se encontra na Basílica de São Pedro, no Vaticano, ao alto, à esquerda de quem lá entra

São Luiz Maria Grignion de Montfort nasceu em Montfort-la-Canne, França, em 1678. De família pobre, faltavam-lhe recursos para custear os estudos necessários ao Sacerdócio, ao qual desde cedo aspirava. Dirigiu-se a Paris, onde exerceu o ofício de velar cadáveres na Paróquia de S. Sulpício em certas noites da semana, para pagar sua pensão no Seminário. Depois de um curso brilhante, foi ordenado Sacerdote em 1700.

Dado o vulto das dificuldades que se depararam a seu apostolado na França, e movido pelo desejo de anunciar o Evangelho aos gentios, S. Luiz Maria dirigiu-se a Roma para pedir uma diretriz ao Papa Clemente XI. Este determinou-lhe que retornasse à sua pátria, a fim de se dedicar a pregar à população católica necessitada de catequese e edificação. Entregando-se inteiramente a essa atividade durante os dez anos que ainda viveu, o Santo insistia particularmente sobre a renúncia à sensualidade e ao mundanismo, o amor à mortificação e à Cruz, e a devoção filial a Nossa Senhora. Como terceiro dominicano que era, difundiu largamente o Rosário.

Vítima dos ataques enfurecidos dos calvinistas e dos jansenistas, foi objeto de severas medidas da parte de um número não pequeno de Bispos franceses, que não o queriam por missionário em suas Dioceses.

A morte lhe veio quando ele contava apenas 43 anos de idade.

Fundou duas Congregações Religiosas a Companhia de Maria e as Filhas da Sabedoria.

Entre seus escritos, assinala-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma das mais altas obras da mariologia em todos os tempos, e talvez a mais alta delas. Este livro admirável foi deixado por ele em manuscrito, e desapareceu misteriosamente depois de sua morte, reaparecendo de maneira providencial em nossos tempos.

Leão XIII o beatificou em 1888. Pio XII, gloriosamente reinante, o inscreveu no catálogo dos Santos.

Esta é uma visão a “vol d’oiseau” da vida deste grande Santo.

Quanta riqueza se nos depara num exame mais atento dos principais aspectos dessa vida.

*   *   *

A Renascença desencadeou na Europa uma sede de diversões, de opulência, de prazeres sensuais, que impeliu fortemente os espíritos a subestimar as coisas do Céu, para se ocupar muito mais com as da terra. Daí, nos séculos XV e XVI, um declínio sensível da influência da Religião na mentalidade dos indivíduos e das sociedades. A esse indiferentismo nascente, somou-se não raras vezes uma antipatia contra a Igreja, discreta e apenas perceptível em uns, mais pronunciada em outros, e levada em alguns ao extremo de uma hostilidade militante. Tal estado de espírito concorreu sensivelmente para a eclosão do protestantismo, e para as manifestações de racionalismo e cepticismo tão freqüentes entre os humanistas. Do indiferentismo nascia naturalmente o livre pensamento.

Mas estes fermentos não atacaram desde logo toda a sociedade. De início, dominaram apenas certos elementos de alta influência na vida intelectual, na nobreza e no Clero, com o apoio de um certo número de soberanos. Aos poucos, entretanto, foram alcançando os tecidos mais profundos do corpo social. Ao tempo de S. Luiz Grignion, pode-se afirmar que sua influência se notava em todos os campos: a política se laicizara, a antiga sociedade orgânica e cristã fora semi-deglutida pelo absolutismo do Estado neo-cesáreo e neo-pagão, minguara a influência da Religião na vida de todas as classes sociais, principalmente nas elites, uma tendência geral para costumes mais frouxos, mais “livres”, mais fáceis ganhava todos os ambientes, a sede de prazer e de lucro crescia, o mundanismo pompeava até em certo número de casas religiosas, o mercantilismo estendia seus tentáculos para dominar toda a existência. Em linhas gerais, o quadro era bastante parecido com o de nossos dias.

Diferenças consideráveis

Entretanto, se a analogia é profunda, evidente, indiscutível, seria impossível passar-se daí para uma equiparação absoluta. O corpo no qual os fermentos agiam nos séculos XV, XVI e mesmo XVII, era ainda o corpo robusto da velha Cristandade gerada pela Idade Média. Um sem número de instituições, de hábitos mentais, de tradições, de usos, de leis refletia ainda o espírito da sociedade orgânica e cristã de outrora. Se a monarquia absoluta pressagiava o socialismo hodierno, ela se personificava contudo nos Reis pela graça de Deus, que ainda se consideravam Pais de seus povos no bom e velho estilo de S. Luiz IX. Se a vida internacional fora secularizada com os tratados de Westphalia, ainda existiam tais ou quais vestígios da Cristandade, uma família de Reis e povos cristãos dotados da consciência de formar um todo à parte, face ao mundo gentílico. Se a sociedade era mundana, as disputas religiosas – como as que se travaram entre Jesuítas e jansenistas – encontravam nela uma ressonância que jamais teriam em nossos dias. Se os costumes eram frouxos na corte e nas cidades, havia a isto numerosas e retumbantes exceções. Nos degraus do trono, no próprio trono o escândalo de um Luiz XIV, por exemplo, era de algum modo reparado por sua emenda e sua vida modelar depois do casamento com Mme. de Maintenon e a queda de Mlle. de La Vallière o era por sua penitência exemplar no Carmelo. Mme. de Montespan por sua vez morria cristãmente, o Duque de Borgonha, neto de Luiz XIV, se destacava por sua piedade, e a família real ainda teria no século XVIII ao lado da vergonha da vida de Luiz XV, a ilustração das virtudes pouco comuns do Delfim Luiz, da Carmelita Madame Louise de France, e da Princesa Clotilde de Sabóia, ambas filhas do Rei, e falecidas em odor de santidade. Assim, por mais rigorosas que sejam as analogias entre o século XVI e o século XX, haveria manifesto exagero em afirmar que a vida política e social já se encontrava então inteira ou quase inteiramente laicizada e paganizada.

Entretanto, na história dos Tempos Modernos, isto é, nos séculos XVI, XVII e XVIII, é fora de dúvida que os fermentos nascidos do neo-paganismo renascentista se revelaram cada vez mais vigorosos, e isto trouxe a imensa explosão de 1789.

Tempos precursores dos nossos

Considerando-se estes fatos do ponto de vista do Santo Padre Leão XIII na Encíclica “Parvenu à la 25ème Année”, a Revolução Francesa foi uma conseqüência do protestantismo. E por sua vez produziu o comunismo. Ao igualitarismo e liberalismo religioso do frade apóstata de Witemberg, sucedeu o igualitarismo e liberalismo político-social dos sonhadores, dos conspiradores e dos facínoras de 1789. E a este segue-se o igualitarismo totalitário, social e econômico, de Marx.

A revolução protestante foi uma forma ancestral da Revolução Francesa, como esta o foi do comunismo hodierno. E cada uma destas formas ancestrais já tinha em si todas as toxinas da que se lhe seguiu. São três moléstias, sucessivamente mais graves, provocadas pelo mesmo vírus. Ou são três fases sucessivamente mais graves da mesma moléstia. Ou três etapas de uma omnímoda e universal Revolução.

Um profeta aparece no curso da Revolução

Ora, S. Luiz Grignion de Montfort foi, neste processus histórico, um verdadeiro profeta. No momento em que tantos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranqüilos quanto à situação da Igreja, embalados num otimismo displicente, tíbio, sistemático, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente, e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução, isto é, a implantação do laicismo de Estado, o estabelecimento da “Igreja Constitucional”, a proscrição do culto católico, a adoração da deusa razão, o cativeiro e morte do Papa Pio VI, os massacres ou deportações de Sacerdotes e Religiosas, a introdução do divórcio, o confisco dos bens eclesiásticos, etc.. Mais ainda. Para alento e alegria nossa, o Santo profetizou uma grande e universal vitória da Religião Católica em dias vindouros.

Martelo da Revolução

Mas além de profeta, S. Luiz Grignion de Montfort foi missionário e guerreiro. Missionário, causticou ele implacavelmente o espírito neo-pagão, fazendo quanto podia para afastar o povo fiel do mundanismo e de tudo quanto constituía o mau espírito nascido da Renascença. A região evangelizada por ele foi tão profundamente imunizada contra o vírus da Revolução, que se levantou de armas na mão contra o governo republicano e anti-católico de Paris. Foi a Chouannerie. Se S. Luiz Grignion tivesse estendido sua ação missionária a toda a França, provavelmente teria sido outra a sua História, e a História do mundo.

Ora, porque não a evangelizou inteira?

Orador sacro eficientíssimo, pregava a palavra de Deus com um desassombro extraordinário. Isto lhe valeu o ódio, não só dos calvinistas, mas de uma das seitas mais detestáveis e mais influentes que até hoje tenham existido infiltradas na Igreja, isto é, os jansenistas. Seria longo enunciar as múltiplas e complexas razões por que o jansenismo, com suas aparências de austeridade embora, é legitimo produto da crise religiosa do século XVI. O certo é que esta seita, dispondo de deplorável influência sobre muitos fiéis, Sacerdotes e até Bispos, Arcebispos, Cardeais, seguia uma linha de pensamento e de ação nociva a toda restauração da vida religiosa, afastava as almas dos Sacramentos, e combatia vivamente a devoção a Nossa Senhora.

  1. Luiz Grignion de Montfort, pelo contrário, tinha à SSma. Virgem a devoção mais ardente, e até compôs em louvor dela o “Tratado da Verdadeira Devoção”, que constitui hoje o fundamento mais forte de toda a piedade mariana profunda. De outro lado, por suas missões, aproximava o povo dos Sacramentos, afervorava-o no Rosário, em uma palavra fazia obra diametralmente oposta às intenções dos jansenistas.

Isto lhe trouxe, nos próprios meios católicos, uma perseguição aberta, que lhe valeu as maiores humilhações. Causa pasmo que, enquanto tantos Prelados, clérigos, e leigos, em nome da caridade se mostravam irritados ou apreensivos com a justa severidade da Santa Sé em relação aos jansenistas, não tivessem penalidades, atos de hostilidade, nem humilhações que bastassem contra S. Luiz Maria. Pode-se dizer que foi um dos Santos mais desprezados e humilhados que houve nestes vinte séculos de vida da Igreja. Por fim, só em duas Dioceses lhe foi permitido exercer seu ministério. Mas, novo Inácio de Loyola, sentindo com serenidade o ímpeto contra sua pessoa, dos vagalhões do ódio anti-católico disfarçado com ares de piedade, não se perturbou. E, humilhado até o fim, até o fim lutou.

Ora, este Santo extraordinário deixou uma prece admirável, contendo ensinamentos e luzes especiais para nossa época. É a que compôs pedindo Missionários para a sua Congregação. Neste mês de maio nos é útil lembrar a figura angélica deste sumo paladino da Virgem. No mês de junho, consagrado ao Coração de Jesus, pensamos expor e comentar sua admirável oração.

Nesta oração, como esperamos mostrar no próximo número, vê-se que para S. Luiz Maria seus tempos eram precursores de uma imensa crise que se estende até hoje, e irá até a instauração do Reino de Maria. E ele próprio se nos afigura como o modelo, a prefigura dos apóstolos suscitados para lutar nessa crise, e vencer a batalha por Maria Santíssima. É esta a sublime e profunda atualidade de S. Luiz Maria Grignion de Montfort para os apóstolos de nossos dias.

Tema de meditação fecundo neste mês em que a Santa Igreja celebrará pela primeira vez – no dia 31 – a festa tão grata às almas forte e profundamente piedosas, da Realeza de Maria.