Uma população atemorizada pelo cerco de Constantinopla encheu a igreja de Nossa Senhora em Blaquerna e permaneceu ali durante uma vigília de oração. Segundo a tradição que deu origem à festa de Pokrova, foi nessa igreja que Santo André, o Louco por Cristo, e seu discípulo Epifânio contemplaram a Santíssima Mãe de Deus rezando pelos fiéis e estendendo sobre eles um véu luminoso.
A retirada do inimigo, ocorrida depois da visão, foi compreendida como resposta à súplica dirigida a Nossa Senhora. O véu tornou-se, assim, símbolo de sua proteção maternal e de sua intercessão. É esse acontecimento que a liturgia oriental recorda em 1º de outubro na festa da Proteção da Santíssima Mãe de Deus.
A vigília na igreja de Blaquerna
Constantinopla estava cercada pelos sarracenos, e seus habitantes temiam pela sorte da cidade. Muitos se reuniram na igreja de Blaquerna, onde era conservado um manto atribuído à Santíssima Virgem. O templo ficou repleto durante a vigília noturna celebrada para pedir o auxílio do Céu.
Entre os presentes estavam Santo André e Epifânio. Após a celebração, André teria visto Nossa Senhora aproximar-se em meio a uma luz radiante, acompanhada por São João Batista, São João Evangelista e um grande coro de santos. Ela avançou em direção ao altar, ajoelhou-se e permaneceu longamente em oração, derramando lágrimas.
Em seguida, levantou-se, retirou da cabeça um véu resplandecente e o abriu sobre a multidão reunida. A visão desapareceu, mas André e Epifânio entenderam que a Mãe de Deus viera em socorro da cidade. A notícia difundiu-se rapidamente. O exército adversário retirou-se, e Constantinopla foi preservada.
O significado do nome Pokrova
A palavra ucraniana pokrov designa o véu e também comunica a ideia de cobertura ou proteção. Por isso, a festa recebeu o nome de Pokrov Presvyatoyi Bohorodytsi, isto é, Proteção ou Véu da Santíssima Mãe de Deus.
O sinal exterior do véu exprime uma realidade espiritual: a solicitude maternal de Nossa Senhora pelos que recorrem à sua intercessão. Na narrativa da visão, ela não aparece distante das aflições dos fiéis. Aproxima-se do altar, ajoelha-se, reza e chora por eles. Sua proteção é apresentada, portanto, não como uma promessa de ausência de sofrimentos, mas como presença materna e intercessora em meio ao perigo.
Entre os cristãos ligados à tradição de Kiev, essa invocação atravessou os séculos. Desde o período dos príncipes de Kiev, povos expostos a inimigos poderosos voltaram-se para a Mãe de Deus em busca de amparo. A celebração tornou-se uma manifestação de gratidão, louvor e confiança em sua intercessão.
Santo André, o Louco por Cristo
A tradição apresenta Santo André como um eslavo proveniente da região meridional da antiga Rus. Levado a Constantinopla como escravo, passou a servir um senhor abastado. Na cidade, conheceu e abraçou a fé cristã.
Inspirado pelas palavras de São Paulo — “Nós somos loucos por causa de Cristo” —, André assumiu a forma de ascese conhecida no Oriente como loucura por Cristo. Depois de obter a liberdade, dedicou grande parte de seu tempo à oração e à leitura das Sagradas Escrituras.
A época exata em que viveu permanece discutida. Alguns historiadores o situam no reinado do imperador Leão I, entre 457 e 474. A opinião majoritária mencionada pela tradição utilizada para esta narrativa o coloca, porém, durante o governo de Leão VI, entre 886 e 911. Consequentemente, também não é possível determinar com segurança a data histórica da visão.
A instituição e a celebração da festa
A comemoração da Proteção da Mãe de Deus teve inicialmente caráter local entre os gregos e deixou de ser celebrada por eles depois da queda de Constantinopla, em 1453. Não se sabe com precisão por que o dia 1º de outubro foi escolhido. Uma hipótese é que a visão de Santo André tenha ocorrido nessa data. Outra relaciona a escolha à memória de São Romano, o Melodista, autor de numerosos hinos em honra da Santíssima Virgem. No dia seguinte à festa, a tradição litúrgica recorda Santo André.
O ofício de Pokrova assemelha-se ao das grandes festas e inclui vigília noturna, embora a comemoração não pertença ao conjunto das doze principais solenidades do calendário bizantino e não possua dias próprios de preparação ou prolongamento litúrgico. Em 1891, o Sínodo de Lviv, ao reduzir o número de festas, determinou que sua celebração fosse transferida para o domingo.
Mais do que recordar a libertação de uma cidade ameaçada, Pokrova conserva diante dos fiéis a imagem de Nossa Senhora em oração. Seu véu aberto sobre a assembleia tornou-se expressão visível da confiança cristã em sua proteção: uma confiança que nasce da súplica, persevera na adversidade e se transforma em gratidão pelo auxílio recebido.




