Esta grande dama romana fazia parte, como Marcela, Melânia e outras, do círculo aristocrático de Roma a quem São Jerônimo dirigia e dava aulas sobre a Sagrada Escritura no século IV.

A presença pagã ainda era forte no Império quando Leia nasceu. Havia decorrido pouco mais de uma década do Edito de Milão (ano 313), pelo qual Constantino tirou a Igreja das catacumbas, permitindo sua expansão. Este imperador ao falecer em 337, dividiu o Império Romano entre seus três filhos, Constantino II, Constante e Constâncio. Com a morte dos dois primeiros (340 e 350), e de Magnêncio (353), Constâncio ficou o único imperador. Ganho pela heresia ariana, ele faleceu em 361 de rápida doença, sendo batizado em seu leito de morte por um bispo herege. Assim sendo, Santa Leia viveu parte de sua vida durante o reinado deste Imperador favorecedor da heresia.

Por outro lado, a Cidade Eterna, no tempo de Santa Leia, já não era mais a orgulhosa cidade que causava inveja a todos os povos. Com a divisão do Império e a importância que adquiriu Bizâncio ao se tornar Constantinopla, Roma perdeu muito de sua grandeza. Mesmo os Imperadores posteriores a Constantino pouco nela ficaram, escolhendo outras cidades do Império para capital, como Milão e Ravena.

Pelo que a orgulhosa Roma passou a ser cobiçada como possível presa pelos vários povos bárbaros. Assim, em 408, por duas vezes, Alarico, rei dos visigodos, a sitiou. Mas o Senado, pressionado por uma minoria de pagãos, tratou com o invasor, depôs o imperador Honório, e pôs Atalus no trono. Mas isso foi só uma medida temporária, pois, dois anos depois, o mesmo Alarico retornou invadindo e saqueando a cidade a ferro e fogo.

Nada sabemos da vida de Santa Leia antes de ela juntar-se a Santa Marcela em seu convento do Aventino.

Leia, tendo se casado jovem, jovem ficou viúva e, desprezando propostas de casamento muito vantajosas, quis consagrar-se inteiramente a Deus.

A isso ajudou-a muito ter encontrado, no seio da sociedade corrompida de Roma, uma outra sociedade de igual nobreza, formada por viúvas e virgens pertencentes às primeiras famílias da Cidade Eterna, que levavam vida de piedade e boas obras sob a direção de Santa Marcela. Era o Cristianismo que, pela graça de Deus, vicejava nas mais altas classes sociais do Império.

Como surgiu esse convento do nobre bairro do Aventino, na Cidade Eterna? Ocorrera que, no ano de 382, o Imperador Teodósio – com razão chamado “o Magno” – e o papa São Damaso resolveram convocar um sínodo em Roma para combater as heresias que pululavam principalmente no Oriente. Adoecendo Santo Ambrósio, que deveria ser o secretário do Sínodo, São Damaso nomeou São Jerônimo para substituí-lo. Este Santo desincumbiu-se tão bem do cargo, que o Papa o nomeou depois seu secretário particular.

Um grupo de matronas e virgens romanas da mais alta aristocracia pôs-se então sob sua direção espiritual. Elas tinham sido reunidas e dirigidas, por sua vez, por Santa Marcela, e entre elas destacam-se Santa Paula e suas filhas Paulina, Santa Estóquia, Blesilla e Rufina; Albina, Asela, Leia e outras. Para elas transformou o palácio de Santa Marcela, no Aventino, em convento.

Acontece que, até essa época, nenhuma grande dama da Cidade Eterna tinha feito profissão de vida monástica. Era mesmo ignominioso e degradante aos olhos das classes mais elevadas só o pensar em tal idéia. A primeira a fazê-lo, Santa Marcela, teve que desafiar todo o ambiente mundano que a cercava, sendo assim a primeira grande dama romana a professar abertamente a vida de devoção. Entretanto, bela, rica, de alta linhagem, muito culta, perfeitamente ao nível de tudo o que Roma encerrava de mais refinado e erudito, ninguém se atrevia a desconsiderá-la. O mesmo ocorreu com as outras que lhe seguiram.

Com isso tiveram origem as “reuniões do Aventino”, onde São Jerônimo fazia conferências sobre teologia e estudos bíblicos para essas novas monjas. Eram muito atentas as aristocráticas alunas ao ensinamento de São Jerônimo, de modo que ele exclama: “O que eu via nelas de espírito, de penetração, ao mesmo tempo que de encantadora pureza e virtude, não saberei dizer”.

A notícia que temos de Santa Leia é dada pelo seu diretor espiritual, São Jerônimo em carta que escreveu de Belém, na Palestina, onde vivia, a Santa Marcela, em Roma, depois da morte da primeira. Diz ele: “Quem renderá à bem-aventurada Leia os louvores que merece? Renunciou a pintar o rosto e a adornar a cabeça com pérolas brilhantes. Trocando os ricos atavios por vestido de saco, deixou de dar ordens aos outros para obedecer a todos; viveu num canto com alguns móveis; passava as noites em oração; ensinava as companheiras mais com o exemplo do que com admoestações ou discursos; esperou a chegada ao Céu para ser recompensada pelas virtudes que praticou”.

Acontece que Santa Leia faleceu ao mesmo tempo em que certo cônsul romano muito popular, que levava vida bastante irregular. Por isso, como veremos, São Jerônimo, sem nenhuma cerimônia, o lança no inferno.

Continua o Santo: “É lá [no céu] que ela gozará, daqui em diante, da felicidade perfeita. Do seio de Abraão, onde está com Lázaro, olha para o nosso cônsul, outrora coberto de púrpura, e agora revestido de ignomínia, pedindo em vão uma gota d’água para matar a sede. Embora ele tivesse subido ao Capitólio entre os aplausos da população, e a sua morte enchesse toda a cidade [de consternação], é em vão que sua mulher proclama imprudentemente que ele foi para o Céu, e que lá ocupa um grande palácio. A realidade é que ele foi precipitado nas trevas exteriores, ao passo que Leia, que queria passar na terra por insensata, foi recebida na casa do Pai, ao festim do Cordeiro”.

São Jerônimo termina com um conselho espiritual às suas discípulas: “Por isso vos peço, com as lágrimas nos olhos, que não procureis os favores do mundo, e que renuncieis a tudo o que é da carne. Em vão se procuraria seguir ao mesmo tempo o mundo e Jesus. Vivamos na renúncia de nós mesmos, porque o nosso corpo em breve se converterá em pó, e o resto não durará também muito tempo”.

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