O Martirológio Romano traz, no dia 29 de outubro, os seguintes dados a respeito desse bispo: “Em Jerusalém, o natalício do bem-aventurado Narciso, bispo, recomendável pela sua santidade, paciência e fé. Era já ancião de cento e dezesseis anos quando passou ditosamente desta terra à presença do Senhor”.

Com efeito, esse santo do início do século III não devia ter menos de oitenta anos quando foi eleito bispo de Jerusalém, sendo a imagem de uma velhice espiritualmente vigorosa, na saúde do corpo e da mente.

Ele era o trigésimo bispo de Jerusalém, mas não era de origem israelita. certamente gentio, nascido por volta de 96, quando as ruínas da destruição de Tito ainda estavam frescas em Jerusalém.

Por quase um século, ele viu a cidade de Davi ressuscitar e repovoar meticulosamente, hospedando, ao lado dos judeus, uma vasta comunidade cristã.

Sabe-se que presidiu, com Teófilo de Cesareia, a um concílio no qual foi aprovada a determinação de se celebrar sempre a Páscoa num domingo.

Eusébio narra que, em certo dia de festa em que faltou o óleo necessário para as unções litúrgicas, provavelmente a Páscoa, Narciso mandou vir água de um poço vizinho e, com a sua bênção, a transformou em óleo. O mesmo escritor sacro conta também as circunstâncias que levaram Narciso a demitir-se de suas funções: São Narciso era um bispo enérgico, tanto que atraiu o ódio dos corruptos e desonestos, que se sentiam ameaçados pela sua severidade. Para se defenderem, pensaram em atacar, espalhando uma terrível calúnia por conta do muito idoso Bispo. Para provar sua calúnia, “Que me queimem vivo se eu minto”, disse o primeiro. “E a mim, que me devore a lepra”, disse o segundo. “E que eu fique cego”, acrescentou o terceiro.

São Narciso ficou tão desgostoso com isso, que saiu de Jerusalém. Todavia, os três perjuros não tardaram a sofrer os castigos que em má hora tinham invocado: o primeiro pereceu num incêndio com toda sua família; o segundo morreu roído de lepra, e o terceiro ficou cego de tanto chorar seu pecado.

Com a morte do segundo, São Narciso reapareceu em Jerusalém, e os fiéis o trouxeram de volta à Cátedra Episcopal com grande honra. Lá permaneceu muitos anos, mas tomou coadjutor, Alexandre, o primeiro na história do episcopado, segundo um costume que ainda perdura, e continuou a governar a sua diocese até uma idade centenária.

É de Santo Alexandre, seu bispo auxiliar, que temos a última notícia do longevo bispo de Jerusalém: “Narciso te saúda. Cumpriu cento e dezesseis anos, e te exorta, como eu, a manter a concórdia”.

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