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O 250º aniversário da Declaração de Independência americana, proclamada na Filadélfia em 4 de julho de 1776, oferece ocasião para algumas reflexões que vão além da simples comemoração histórica. Parto de uma afirmação de Luigi Marco Bassani, um dos mais autorizados estudiosos dos Estados Unidos e, sobretudo, um dos intelectuais mais independentes do politicamente correto – tanto de esquerda quanto de direita (porque existe também um politicamente correto de direita). Em seu recente volume Ocidente contra Ocidente. Elegia antes do seu triunfo (Liberilibri, Macerata 2025), Bassani observa: “Toda grande civilização se desintegra quando não acredita mais em seus mitos fundadores: os americanos sobrevivem incrivelmente, embora pareçam às vezes relíquias de uma pequena república agrária de dois séculos e meio atrás. Os mitos fundadores da Europa foram definitivamente removidos” (p. 56).

A imagem que hoje quase todos temos dos Estados Unidos é a de uma superpotência industrial, econômica, política e militar, determinada a exercer sua hegemonia sobre o mundo. Esquece-se, porém, que a América, nascida da Declaração de Independência de 1776 e consolidada pela Constituição de 1787, era uma pequena república essencialmente agrícola, conduzida por uma elite cuja principal ambição era garantir a independência conquistada da Coroa britânica.

Quando as treze colônias proclamaram sua independência, os protagonistas da Revolução americana não pensavam em inaugurar uma nova época da história universal. Eram proprietários de terras, juristas, comerciantes e militares chamados a enfrentar problemas extremamente concretos: subtrair-se ao controle do Parlamento britânico, conservar as liberdades tradicionais das colônias e construir uma ordem política suficientemente estável para evitar tanto a tirania quanto a anarquia.

No decorrer do século XIX, sobretudo durante e após a presidência de Andrew Jackson (1829-1837), emergiu uma nova classe dirigente e mudou profundamente a própria concepção do republicanismo americano. Foi então que tomou forma a ideia do Manifest Destiny – a convicção de que a experiência histórica dos Estados Unidos possuía um significado universal e que o povo americano estava chamado a cumprir uma missão providencial.

É aqui que se impõe uma distinção fundamental. Uma coisa é a história dos Estados Unidos; outra coisa é o mito da América. A América histórica pertence à trajetória política de uma determinada nação. O mito americano pertence, por sua vez, à história das ideias. Ele nasce quando a experiência concreta dos Estados Unidos deixa de ser interpretada como um caso particular e é elevada a paradigma do destino de toda a civilização ocidental. A partir desse momento, a América não é mais simplesmente um Estado, mas torna-se um símbolo.

No século XX, esse processo se acentua paralelamente à ascensão dos Estados Unidos como grande potência mundial. A América passa a ser identificada com o Ocidente, com a democracia liberal, com o capitalismo, com o progresso técnico, com a própria modernidade. Mas é justamente nesse mesmo momento que nasce o mito oposto: o do antiamericanismo.

O antiamericanismo também confunde o símbolo com a realidade. Atribui aos Estados Unidos a responsabilidade por todos os desequilíbrios da modernidade, transformando-os no bode expiatório universal. Mito americano e mito antiamericano parecem opostos, mas compartilham o mesmo pressuposto: ambos identificam a América com um princípio universal da história.

Bassani observa que nos Estados Unidos não existe um fenômeno comparável ao antieuropeísmo, enquanto na Europa o antiamericanismo constitui hoje uma componente estável da cultura contemporânea. Quem critica os Estados Unidos “não fala nunca dos Estados Unidos reais, mas de um mito, de um fantasma, de um símbolo conveniente” (p. 218). O antiamericanismo europeu é um fenômeno psicológico antes mesmo de ser político. O desejo, muitas vezes inconsciente, é o de ver os Estados Unidos “pagarem” o preço de seu sucesso histórico, como se o fracasso americano pudesse compensar o europeu. Daí o paradoxo que Bassani bem sintetiza: “Enquanto a América continua a interrogar-se sobre seu próprio declínio, a Europa não tem mais forças nem sequer para imaginar o próprio futuro” (p. 208). O antiamericanismo é a religião de quem não tem mais fé no futuro porque extirpou os fundamentos de sua própria história – ou seja, poderíamos acrescentar, as nossas raízes cristãs.

As dinâmicas demográficas confirmam esse diagnóstico. Em 2024, na União Europeia registraram-se cerca de 3,9 milhões de nascimentos contra 5,2 milhões de mortes: um saldo natural negativo de mais de 1,3 milhões de pessoas, o pior na história da Europa em tempo de paz. Nos Estados Unidos, no mesmo período, os nascimentos foram cerca de 3,7 milhões e as mortes 3,1 milhões; a população continua a crescer também graças à imigração, enquanto a idade mediana permanece sensivelmente mais baixa do que a europeia.

Por trás desses números esconde-se uma realidade cultural mais profunda. A Europa não gera mais filhos porque não acredita mais no futuro. Uma civilização que deixa de gerar não perde apenas habitantes: perde a confiança em si mesma. Não se percebe mais como uma história destinada a continuar, mas como uma trajetória já encaminhada para o declínio.

Segundo Bassani, a Europa pode hoje sobreviver somente “enroscada como a hera” a uma América que ainda continua a produzir energia, confiança e capacidade de imaginar o futuro (p. 25). Com efeito, “a América herdou o papel histórico que foi da Europa oitocentista: ser a potência que produz tanto as mercadorias quanto as ideias dominantes” (p. 46), e “enquanto continuar a produzir ideias e riqueza, o Ocidente não terá terminado” (p. 56).

Como concluir? Ainda que os Estados Unidos estejam atravessando uma grave crise cultural e moral, é inegável que o destino da Europa está estreitamente entrelaçado ao americano. Desejar o colapso dos Estados Unidos significaria contribuir para o suicídio da Europa. Os Estados Unidos, ao menos teoricamente, poderiam sobreviver sem a Europa. A Europa, ao contrário, dificilmente poderia sobreviver sem a América. O risco não seria o de uma reencontrada autonomia estratégica, mas sim o de uma progressiva fragmentação geopolítica: talvez uma Europa nororiental cada vez mais gravitando na órbita russo-asiática e uma Europa sudocidental exposta a uma crescente islamização, até formas de subordinação assimiláveis à dhimmitude.

Não se trata de um cenário inevitável, mas é uma possibilidade histórica que não pode ser descartada como fantasia. As civilizações não morrem apenas porque são derrotadas do exterior; frequentemente se dissolvem porque deixam de acreditar nas razões de sua própria existência. É talvez esta a lição mais profunda que o 250º aniversário da Declaração de Independência americana oferece hoje à Europa: não tanto celebrar a América, mas interrogar-se sobre as razões da crise do Ocidente e sobre a perda de suas raízes.

Traduzido de: https://www.robertodemattei.it/1776-stati-uniti-europa-e-perdita-delle-radici/

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