Durante muito tempo, as perseguições contra os cristãos evocavam espontaneamente os primeiros mártires de Roma ou, ainda hoje, os dramas vividos pelos fiéis na Nigéria, no Paquistão, na Coreia do Norte ou na Nicarágua. Na França, nada que se compare a isso. As igrejas estão abertas, as missas são celebradas livremente e ninguém é preso por professar sua fé.
Deve-se concluir, então, que toda forma de perseguição pertence agora ao passado? É precisamente essa a questão levantada por Atilio Faoro em sua obra A perseguição anticristã começou, fruto de um importante trabalho de pesquisa dedicado à evolução do cristianismo na França. Sem ceder ao catastrofismo, o autor convida a olhar para a realidade sob um ângulo mais amplo e a interrogar-se sobre fenômenos que, considerados isoladamente, às vezes parecem inofensivos, mas que, reunidos, delineiam uma profunda evolução.
Ver o conjunto em vez de fatos isolados
Uma das grandes originalidades do livro está em seu método. A atualidade nos apresenta toda semana seu quinhão de polêmicas: uma profanação de igreja, uma decisão judicial referente a uma cruz, um presépio proibido, um ataque a um local de culto ou uma nova reforma social. Alguns dias depois, a atenção da mídia se desloca e cada um desses acontecimentos cai no esquecimento.
Atilio Faoro adota uma abordagem diferente. Ele reúne várias centenas de fatos, recoloca-os em seu contexto e procura compreender o que eles revelam quando observados em conjunto. Não fala de uma conspiração nem de uma estratégia coordenada, mas de um movimento de fundo em que decisões tomadas por diferentes atores convergem progressivamente para um mesmo resultado: o recuo do cristianismo no espaço público.
Essa abordagem permite escapar da armadilha da emoção imediata para discernir uma evolução que se inscreve no longo prazo.
Uma evolução enraizada na história
O autor mostra que essa situação não se construiu em poucos anos. Uma nação que durante muito tempo foi chamada de “Filha Primogênita da Igreja” não pode ver desaparecer progressivamente suas referências cristãs sem que esteja em curso um longo processo histórico.
O livro retoma, assim, várias etapas importantes da história da França: a Reforma protestante, o Iluminismo, a Revolução Francesa, o Terror, o anticlericalismo da Terceira República e as grandes leis que progressivamente empurraram a religião para a esfera privada. Não se trata de uma história geral da França, mas de uma reflexão sobre a maneira como esses acontecimentos transformaram o olhar lançado sobre o cristianismo e seu lugar na sociedade.
A laicidade: princípio ou desvio?
Um capítulo importante é dedicado à laicidade. Faoro faz questão de lembrar que não questiona de modo algum a distinção legítima entre a autoridade civil e a autoridade religiosa, herdada do próprio ensinamento de Cristo: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”
Sua reflexão diz respeito antes à evolução de certa interpretação da laicidade que, de princípio de neutralidade do Estado, tenderia a tornar-se uma ideologia que rejeita toda visibilidade pública do cristianismo.
O autor evoca numerosos exemplos que marcaram a atualidade francesa: cruzes retiradas do espaço público, estátuas da Virgem contestadas nos tribunais, presépios proibidos em determinados edifícios administrativos ou ainda o abandono progressivo de tradições cristãs por autoridades locais.
Considerado separadamente, cada um desses casos poderia parecer secundário. Juntos, revelam uma orientação mais profunda.
Uma transformação também moral
O livro não se limita aos símbolos religiosos. Analisa também as evoluções legislativas relativas à família, ao casamento, à transmissão da vida, à autoridade educativa dos pais, à dignidade da pessoa humana ou ainda à liberdade de consciência.
Sem adotar um tom polêmico, o autor mostra como essas reformas sucessivas contribuíram para modificar progressivamente as referências morais de uma sociedade outrora profundamente marcada pelo Evangelho.
Segundo ele, os ataques contra o cristianismo, portanto, não dizem respeito apenas às igrejas ou aos sinais religiosos; atingem também os princípios que durante muito tempo moldaram a civilização cristã.
Uma perseguição que age primeiro sobre as consciências
Esta é provavelmente a ideia central do livro. Faoro ressalta que o Ocidente não conhece hoje a perseguição sangrenta sofrida por tantos cristãos em outras regiões do mundo. Comparar essas situações seria injusto para com aqueles que dão a vida por Cristo.
Mas ele também lembra que, ao longo da história, as perseguições raramente começam pelas prisões ou execuções. Elas são quase sempre precedidas por uma lenta transformação das mentalidades. Pouco a pouco, a fé deixa de ser considerada um bem para a sociedade e passa a ser uma realidade vista como ultrapassada, incômoda ou até prejudicial.
Essa evolução ocorre menos pela violência do que por uma sucessão de leis, decisões administrativas, julgamentos, campanhas midiáticas e pressões culturais que reduzem progressivamente o lugar concreto da religião na vida pública.
A advertência do cardeal Robert Sarah
A esse respeito, Atilio Faoro recorda as fortes palavras do cardeal Robert Sarah. Em uma entrevista concedida ao Tribune Chrétienne em outubro de 2025, o prelado declarou: “A perseguição física que alguns povos sofrem na África ou na Ásia é menos grave do que a perseguição ideológica que vocês sofrem no Ocidente. […] Anestesia-se seus valores cristãos.”
Essa afirmação evidentemente não busca minimizar os sofrimentos dos mártires contemporâneos. Ela chama a atenção para outra forma de combate, mais discreta, mas talvez mais difícil de perceber porque transforma pouco a pouco as consciências e os hábitos de pensamento.
Um chamado à vigilância… e à esperança
A obra ultrapassa em muito o caso exclusivamente francês. A questão que ela levanta diz respeito a toda a Europa e, mais amplamente, a todo o Ocidente cristão: o que acontece com uma civilização quando ela se esquece das raízes espirituais que a moldaram?
Para um leitor católico, essa reflexão não pode levar ao desânimo. A história da Igreja mostra que os períodos de provação foram frequentemente seguidos por grandes renovações espirituais. Toda crise é também um chamado a uma fé mais profunda, a uma vida sacramental mais fervorosa e a um testemunho mais corajoso.
Nessa perspectiva, a devoção à Santíssima Virgem Maria assume uma importância toda particular. Em Fátima, durante a aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora não anunciou apenas as provações que aguardavam o mundo; Ela também advertiu: “Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se converterá e haverá paz; caso contrário, ela espalhará seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições contra a Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, meu Imaculado Coração triunfará.” Ao mesmo tempo, Ela indicava o caminho da vitória: a conversão, a oração, a penitência e a fidelidade a Cristo.
Talvez esteja aí o principal mérito deste livro. Para além do diagnóstico que apresenta, ele convida cada cristão a abrir os olhos para os desafios de seu tempo, não para ceder ao medo, mas para responder com mais fé e esperança ao chamado que Deus dirige hoje à sua Igreja.
Por Guillaume Gattermann
Fonte: TFP France — https://tfp-france.org/une-nouvelle-forme-de-persecution-antichretienne-est-elle-en-train-demerger




